SUDÃO DO SUL: Peter Jurwel, um catequista da tribo Dinka, ensina Deus à sombra das árvores 

O mundo de Peter Jurwel é duro, difícil e exigente. O trabalho dos campos é agreste. A terra tem de ser revolvida para ser semeada e os animais precisam de ser guardados durante a noite por causa dos ladrões. Não há descanso. É sempre assim faça chuva ou faça sol. Mas é neste pedaço do Sudão do Sul que Peter assume o seu trabalho de catequista. É um agricultor que semeia as terras e ao mesmo tempo a Palavra de Deus. E pede ajuda…

Por ali, no mundo de Peter Jurwel, a civilização parece distante. Os campos são trabalhados a golpes de enxada e são essas mesmas mãos calejadas que depois largam as sementes à espera que do céu caia alguma chuva e o castanho acinzentado da terra se transforme numa promessa de verde, de vida.

Peter pertence à tribo Dinka, uma das principais do Sudão do Sul. Mas ele vê-se sem vaidades, como um homem simples que procura tirar o sustento do dia-a-dia no ventre da terra. A sua grandeza é outra. É que Peter Jurwel é também catequista. E por ali isso faz toda a diferença. Na falta de sacerdotes que possam visitar todas as aldeias, que possam celebrar em todas as capelas, mesmo as mais insignificantes, as que se confundem com simples cabanas feitas de troncos e folhas de árvores, são os catequistas que assumem a vida da Igreja. E fazem-no com um brio especial.

Guardar as vacas dos ladrões

Peter gosta do seu mundo rural marcado pelo ritmo da natureza, onde o sol impera e a chuva decide a abundância da comida. Mas é mesmo duro. “A vida é difícil nos campos de gado”, explica a uma equipa da Fundação AIS que foi ao Sudão do Sul para retratar o dia-a-dia dos catequistas.

“Os rapazes ficam acordados a guardar as vacas dos ladrões. As pessoas dormem ao ar livre em camas desconfortáveis. À noite, chove sobre elas. De manhã, recolhem estrume e fazem as tarefas domésticas”, acrescenta, como se isso, recolher estrume fosse a coisa mais banal do mundo. Mas por ali é. “Tornei-me catequista para que o nosso povo conhecesse a Palavra de Deus e abandonasse tradições, como a bruxaria”, afirma com resolução.

Catequistas, os rostos da Igreja

Durante o tempo em que a equipa da AIS esteve na aldeia de Peter, deu para perceber que ele é muito estimado. As pessoas falam com ele com afecto, com simpatia. Talvez seja também por ser o catequista, o homem que substitui, de certa forma, o padre. Por ali, Peter é o rosto da Igreja. Há muitos catequistas no Sudão do Sul, o que é precioso. O Padre John Malou Beny diz que só na sua diocese haverá mais de 300.

“Eles vivem em comunidade. Estão na linha da frente da evangelização. Apesar das carências, de não terem nada para sustentar as suas famílias, para se sustentarem a si próprios, continuam a fazer o seu trabalho”, diz.

Catequese à sombra das árvores

De facto, é notável uma tal atitude. Peter não esconde que por vezes as necessidades são muitas. Ele é catequista da aldeia, mas é pai de família também. E sente isso por vezes de forma muito dura. “Em Novembro, na estação seca, a comida é escassa. Se eu não cultivasse, se eu apenas desse catequese, a vida seria muito difícil, diz. “Mas no trabalho da Igreja, dou o meu melhor”, garante.

E dá mesmo. Na falta de instalações, a sombra de uma árvore generosa é suficiente para se improvisar uma sala de aulas. Algumas cadeiras de plástico emprestam alguma solenidade e é assim, com várias crianças, jovens e até adultos sentados à sua frente, que Peter vai semeando a Palavra de Deus. Por ali estuda-se, mas também se ensaiam cânticos. É tudo feito ao ar livre. E não faltam sorrisos.

Quando tenho dificuldades, espero que alguém me ajude a continuar. Precisamos da vossa ajuda – diz, à equipa da Fundação AIS –, especialmente quando há pouca comida. As vossas orações e apoio irão trazer a Palavra de Deus ao Sudão do Sul”.

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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