Foi raptado por jihadistas no Níger, em 17 de Setembro de 2018, faz amanhã oito anos. Quando percebeu que não tinha sido levado por simples ladrões, mas sim por terroristas islâmicos, sentiu como que um murro no estômago, e chorou “lágrimas de desespero”. Esteve dois anos em cativeiro. Agora, à Fundação AIS, recorda esse tempo, o que passou, como foi rezar no meio de terroristas em pleno deserto… Foram cerca de mil dias. Um tempo impossível de esquecer…
Foi raptado por jihadistas em Bomoanga, no Níger, a 17 de Setembro de 2018. Ficou em cativeiro cerca de dois anos, sendo libertado a 8 de Outubro, no Mali, em 2020. Este ano, em Maio, publicou um livro – “Scelgo di non odiare”, Eu escolho não odiar – que é um apelo ao fim das guerras, de toda a violência. E o Padre Maccalli sabe do que fala… “Fui mantido acorrentado como refém e prisioneiro durante mais de dois anos e, precisamente por ter vivido em primeira mão tamanha desumanidade, senti-me impelido a expor-me”, diz, nesta entrevista em exclusivo à Fundação AIS.
O missionário italiano recorda também como foi o tempo de cativeiro, o que mudou em si, como rezou no meio do deserto, entre terroristas, e até se alguma vez sentiu ódio aos homens que o sequestraram. E recorda também a ligação forte que sente a Nossa Senhora e que o levou a Fátima, em Agosto de 2021, para agradecer a sua libertação.
Uma entrevista por escrito em que o missionário italiano também agradece as orações dos benfeitores e amigos da Fundação AIS durante o longo período de cativeiro…
» O Padre Maccalli lançou um livro, “Eu escolho não odiar”, em que deixa um apelo ao fim das guerras, da violência. Sentiu necessidade de escrever este livro por causa da sua experiência de cativeiro?
Senti a necessidade de escrever este livro para responder às inúmeras imagens e palavras na televisão e nos media que elogiam o rearmamento e a guerra. Vi de perto a verdadeira face da guerra; fui mantido acorrentado como refém e prisioneiro durante mais de dois anos e, precisamente por ter vivido em primeira mão tamanha desumanidade, senti-me impelido a expor-me.
A paz é possível, mas não da forma como o mundo a oferece, com bombas e massacres de inocentes. Existe uma alternativa à guerra. Este meu livro descreve as duas margens do rio da paz, que são duas negações: não à violência e não matar. A partir destas duas margens, podemos alimentar o rio da paz com uma variedade de ações e palavras criativas, em sintonia com a bondade, a não-violência, a vida e a nunca morte.
» Vai fazer agora, dia 17 de Setembro, oito anos que foi raptado. Que memórias guarda desse dia? O que o chocou mais quando percebeu que tinha mesmo sido raptado e que iria provavelmente, como aconteceu, passar um longo período em cativeiro?
Quando percebi que não eram ladrões (como pensei inicialmente), mas sim jihadistas, foi como um murro no estômago. Uma pedra caiu sobre mim e esmagou-me. O peso era demasiado para mim e chorei lágrimas de desespero.
Lembro-me que todos os dias partíamos de moto dos locais que eu conhecia, e a angústia aumentava à medida que me apercebia que seria cada vez mais difícil tentar escapar.
» Ao fim deste tempo todo, o que nos pode dizer de si? Há um padre Maccalli antes e um outro depois da experiência de cativeiro? O que mudou?
Esta desventura mudou a minha perspetiva sobre a vida, a missão e Deus. A partir desta experiência, aprendi a conhecer-me melhor e a compreender as minhas próprias fragilidades; Compreendi o quão desafiantes e decisivas são as palavras de Jesus: “Amai os vossos inimigos”.
Confesso que estas palavras me desafiaram durante o meu encarceramento, e perguntei-me: “Como posso amar estas pessoas que me tiraram a liberdade, me acorrentaram todos os dias e me ameaçam de morte?”. Só quando pude dizer com o homem na cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”, (só então) compreendi plenamente a nova lógica das Bem-aventuranças.
Este meu livro (Eu Escolho Não Odiar) centra-se na paz que emerge da lógica que Jesus apresenta no Sermão da Montanha, no Evangelho de Mateus 5-7.
» Durante os mais de dois anos de cativeiro, passou por experiências difíceis, dramáticas. Alguma vez sentiu ódio dentro de si?
Não! Considero o ódio um beco sem saída. Tive muita pena dos meus captores. São jovens doutrinados por vídeos de propaganda e com tanta iliteracia. Fiquei triste ao ver que aqueles jovens, por cujo futuro melhor eu tinha dado a minha vida, estavam a desperdiçar as suas vidas por um ideal de morte e violência. Senti uma sensação de derrota como missionário. E descarreguei a minha raiva em Deus; senti-me como Job a lutar com Deus.
» E alguma vez teve medo de morrer?
Cheguei a ser ameaçado explicitamente. Era 23 de maio — lembro-me — um jihadista disse-me: “Na primeira oportunidade, vou enfiar-te uma bala na testa”. E ele não estava a brincar. Mas disse a mim mesmo que, mesmo que tirasse a minha vida abruptamente, poderia considerar a minha vida missionária completa.
Pensando na igreja de Bomoanga, inaugurada no ano anterior ao sequestro, mandei escrever as sete obras de caridade espiritual e corporal nas sete portas que lhe davam acesso; este, disse a mim mesmo, é o meu testamento para a comunidade. Quem entrar naquela igreja lembrar-se-á de que dar de comer e beber a quem não tem, visitar os doentes e os prisioneiros, vestir os nus e os desamparados… é o caminho para entrar no reino dos bem-aventurados: no fim da vida, seremos julgados pelo amor.
» Como foi rezar estando em cativeiro, no meio de terroristas islâmicos? Rezar foi também uma forma de resistência?
Mais do que resistência, foi uma dedicação a um reino de paz. Amarrei um terço de pano e isso, juntamente com orações espontâneas, manteve-me ligado à família e às comunidades pelas quais intercedi. Aprendi a ser missionário com o coração, e não com os pés. Rezei com “a oração do coração” e caminhei com o coração pelos caminhos que antes percorria a pé ou de carro. Talvez a oração fosse a minha forma de existir todos os dias.
Descobri, naquele aprisionamento, que rezar é desobedecer à solidão de me sentir abandonado por Deus. É clamar pelo meu desejo de me sentir amado por um Pai que não é indiferente ao clamor dos seus filhos.
» O terrorismo islâmico continua hoje mais activo do que em Setembro de 2018, quando foi raptado. Hoje, em África, são muitos os países que vivem debaixo da ameaça de grupos jihadistas, não só no Mali, mas também no Níger, Nigéria, Burquina Fasso, Camarões… e até Cabo Delgado, em Moçambique, mesmo no sul do continente. Para as populações, em especial as comunidades cristãs vítimas de ataques destes grupos armados, o que lhes pode dizer?
Obrigado pelo seu testemunho de fidelidade e presença em regiões de insegurança. Durante o meu encarceramento, lembrei-me destas palavras de Jesus: “Bem-aventurados sois vós quando vos insultarem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Alegrai-vos, porque é grande a vossa recompensa nos céus.”
Confesso que, em boa verdade, foi difícil para mim alegrar-me, mas confortou-me saber que estava em comunhão com Jesus. Eu estava em missão por causa dEle. Os insultos eram dirigidos a mim, mas, na realidade, eu estava ali por causa dEle; o alvo era Jesus. E pensei: estas pessoas acreditam que a guerra santa (jihad) é para glorificar a Deus, mas não se apercebem que estão a desafiar o Deus de Jesus. Pude estar tranquilo; Aquele que me enviou estava na linha da frente comigo. A causa é dele, assim como a missão é de Deus.
» Em Agosto de 2021 esteve em Portugal, no Santuário de Fátima, para agradecer a Nossa Senhora pela sua libertação. Hoje, o Padre Maccalli é uma pessoa com uma fé mais forte? Continua a rezar a Nossa Senhora de Fátima?
Maria e o Espírito Santo foram meus companheiros no cativeiro. A minha oração matinal começa fielmente todos os dias com uma dezena do rosário e a sequência de Pentecostes. A Maria e ao Espírito Santo confio a minha oração pela paz e pela libertação de todos os reféns. Não posso esquecer que fui libertado no dia seguinte à festa de Nossa Senhora do Rosário (7 de outubro). Este é um dos nomes de Nossa Senhora de Fátima.
» Como sabe, a Fundação AIS tem como missão apoiar as comunidades cristãs vítimas de perseguição, de violência. Durante o seu cativeiro, por inúmeras vezes a AIS apelou à sua libertação e pediu que o mundo rezasse por si. Como vê, como acompanha o trabalho desta instituição pontifícia?
Os meus agradecimentos a todos os que rezaram pela minha libertação. Estou convencido de que a minha libertação é o resultado das orações de muitos: mosteiros, comunidades paroquiais e muitos fiéis comuns.
O Vaticano e as suas instituições acompanharam de perto a minha desgraça, que culminou na audiência especial com o Papa Francisco no dia 9 de novembro de 2020. A todos, o meu sincero agradecimento, e renovo o meu convite a todos: continuemos a acreditar e a ter esperança, a rezar e a trabalhar pela paz.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt





