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SETEMBRO
Intenção de Oração do Santo Padre: Pelo cuidado com a água
 
Rezemos por uma gestão justa e sustentável da água, recurso vital, para que todos tenham acesso equitativo a ela.

MEDITAÇÃO

A Esperança que não desilude

Numa pequena aldeia da Síria, devastada pela guerra, uma idosa cristã regressou um dia à sua casa depois de anos de deslocação forçada. Encontrou apenas ruínas. O telhado tinha desaparecido, as paredes estavam rachadas e quase todos os seus pertences tinham sido destruídos. Um jornalista que a acompanhava perguntou-lhe o que sentia ao ver a sua casa naquele estado.

A mulher permaneceu em silêncio durante alguns segundos. Depois, apontou para uma cruz de madeira que continuava pendurada numa parede parcialmente destruída e respondeu: “Se Cristo confiou, eu também tenho de confiar.”

Humanamente, aquela resposta parecia incompreensível. Não havia segurança, conforto nem garantias de futuro. Havia apenas escombros. E, no entanto, naquela mulher existia algo mais forte do que a destruição: a esperança.

Esta cena ajuda-nos a compreender uma das virtudes mais necessárias para o nosso tempo, em que muitos se sentem tentados pelo desânimo ou pela convicção de que nada pode mudar. Mas a esperança cristã nasce precisamente quando os motivos puramente humanos parecem insuficientes.

Como escreve São Paulo: “A esperança não desilude, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

A esperança de que fala o Evangelho não é um simples estado de espírito positivo nem um optimismo ingénuo. É a certeza de que Deus permanece fiel às Suas promessas e continua a agir na história, mesmo quando os nossos olhos não conseguem ver o caminho.

O Catecismo da Igreja Católica ensina que “a esperança é a virtude teologal pela qual desejamos como nossa felicidade o Reino dos Céus e a vida eterna, pondo a nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos, não nas nossas forças, mas no auxílio da graça do Espírito Santo” (CIC, 1817).

Esta definição contém uma verdade fundamental: a esperança cristã não é optimismo. O optimista acredita que as circunstâncias vão melhorar; o cristão espera porque acredita que Deus é fiel, mesmo quando as circunstâncias parecem piorar.

A Sagrada Escritura oferece-nos inúmeras testemunhas da esperança. Entre elas destaca-se Abraão, que, segundo São Paulo, “esperando contra toda a esperança, acreditou” (Rm 4,18).

Humanamente falando, tudo parecia impossível: a idade avançada, a esterilidade de Sara, a ausência de garantias. Contudo, Abraão confiou na promessa de Deus. A sua esperança não se apoiava em cálculos humanos, mas na fidelidade divina.

Também nós conhecemos situações semelhantes. Há pais que rezam durante anos por um filho afastado da fé. Há pessoas que enfrentam uma doença prolongada sem saber qual será o desfecho. Há comunidades cristãs perseguidas que vêem as suas igrejas destruídas e os seus sacerdotes ameaçados. A esperança cristã não elimina a dor destas situações, mas impede que a dor tenha a última palavra.

Os primeiros cristãos viveram em circunstâncias muito difíceis. Sofreram perseguições, prisões e até o martírio. No entanto, surpreendiam o mundo pela serenidade e pela alegria. A razão encontrava-se numa convicção profunda: Cristo ressuscitou. Como escreve São Pedro, Deus fez-nos renascer para “uma esperança viva pela ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos” (1 Pd 1,3).

A esperança cristã tem um rosto: Jesus Cristo. Não esperamos algo; esperamos Alguém.

Por isso, Santo Agostinho afirmava que toda a vida cristã é marcada pela tensão entre a promessa e o seu cumprimento. Caminhamos ainda neste mundo, mas já conhecemos o destino para o qual nos dirigimos.

O Papa Bento XVI dedicou uma encíclica inteira a esta virtude, Spe Salvi (“Salvos na Esperança”). Nela recorda que quem tem esperança vive de maneira diferente, porque sabe que a sua vida tem um sentido e um futuro. Esta é uma mensagem particularmente actual. Muitas das angústias contemporâneas nascem precisamente da perda do sentido último da existência. Quando desaparece o horizonte da eternidade, qualquer sofrimento parece absurdo e qualquer fracasso parece definitivo. A esperança cristã devolve profundidade à vida. Recorda-nos que nenhum gesto de amor é inútil, nenhuma lágrima é ignorada por Deus e nenhuma fidelidade permanece sem recompensa.

O Papa Francisco insistiu inúmeras vezes na necessidade de sermos homens e mulheres de esperança. Numa cultura marcada pela pressa, pelo individualismo e pelo pessimismo, o Santo Padre convidou os Cristãos a tornarem-se semeadores de esperança. Mas esta, não é passiva. Não consiste em esperar de braços cruzados. Pelo contrário, leva-nos a agir, a construir pontes, a cuidar dos mais frágeis e a testemunhar a presença de Deus no meio das feridas do mundo.

O Papa Leão XIV, no passado Ano Jubilar, dedicado à Esperança, fez uma série de reflexões sobre esta virtude teologal. “A esperança cristã não é evasão, mas determinação. […] Esta é a verdadeira esperança: saber que, mesmo na escuridão da provação, o amor de Deus nos sustenta…” (27-10-2025). O Santo Padre afirmou ainda que “a esperança cristã não nasce no barulho, mas no silêncio de uma espera habitada pelo amor. Não é filha da euforia, mas do abandono confiante. É a Virgem Maria quem no-lo ensina: ela encarna esta espera, esta confiança, esta esperança”. E nos fez um convite: “Quando nos parece que tudo está parado, que a vida é um caminho interrompido, lembremo-nos do Sábado Santo. Até no sepulcro Deus prepara a maior surpresa” (17-09-2025).

Num mundo frequentemente tentado pelo medo e pela desesperança, os Cristãos são chamados a recordar uma verdade essencial: Deus continua presente na história. Por isso, a esperança cristã não é ingenuidade. É uma certeza fundada na fidelidade de Deus. Cada gesto de fé, cada acto de caridade, cada oração, cada sacrifício oferecido por amor contribui para a construção do Reino de Deus. E é precisamente por isso que a esperança não desilude. Porque Aquele que a sustenta nunca falha.

Pe. José Carlos Nunes
Assistente Espiritual da Fundação AIS

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