Desde o dia 5 de Agosto que a procissão e a devoção em honra de Nossa Senhora dos Remédios passaram a fazer parte da lista do Património Cultural Imaterial de Macau, território de língua oficial portuguesa situado no sul da China. Nessa lista fazem parte ainda as procissões de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos e a de Nossa Senhora de Fátima, que reúnem sempre milhares de pessoas e que são um testemunho vivo da fé católica neste país comunista. O Padre Luís Sequeira, antigo superior dos jesuítas em Macau, aplaude a iniciativa, mas diz temer que tudo possa acabar em folclore e turismo religioso…
O famoso “chá gordo”, um banquete de sabores macaenses, o Batê-Saia, uma tradição artesanal ligada ao recorte de papéis decorativos, e a devoção e procissão a Nossa Senhora dos Remédios fazem parte, agora, do Património Cultural Imaterial de Macau. A decisão foi tomada no princípio de Agosto e já está assumida publicamente no Boletim Oficial do governo da região.
É significativo que na China comunista este testemunho vivo da fé católica tenha um reconhecimento público tão relevante. Além da devoção a Nossa Senhora dos Remédios, fazem parte já da lista de Património Cultural Imaterial de Macau, as procissões do Senhor Bom Jesus dos Passos e a de Nossa Senhora de Fátima. Estas duas tornaram-se mesmo em eventos significativos por congregarem todos os anos centenas de fiéis e de turistas durante as respectivas celebrações públicas.
Expressão da dimensão espiritual dos portugueses
Para o Padre Luís Sequeira, antigo superior dos Jesuítas em Macau e que vive no território há décadas, a decisão de incluir a procissão em honra de Nossa Senhora dos Remédios no património cultural imaterial de Macau merece aplauso, mas teme, no entanto, que tudo se possa transformar em mero folclore.
“Assim que cheguei a Macau, em 1976, soube dessa devoção a Nossa Senhora dos Remédios, e percebi logo que era muito seguida pela Comunidade macaense e portuguesa, principalmente na área da Paróquia de São Lourenço”, recorda o sacerdote à Fundação AIS. “Passados anos, nestes últimos tempos, particularmente, tem havido um despertar para esta devoção a Nossa Senhora pedindo a sua intercessão para os momentos difíceis da vida como nas enfermidades do corpo e igualmente durante as angústias da alma”, explica o jesuíta.
A inclusão da Procissão e Devoção a Nossa Senhora dos Remédios no Património Cultural Imaterial de Macau, para mim, faz sentido, junto com as outras duas Procissões, a do Senhor dos Passos e a de Nossa Senhora de Fátima, como expressão da dimensão espiritual em que a cultura portuguesa e latina sempre acreditou e deu testemunho na História da Humanidade e na História das Civilizações... especificamente nas Terras da Ásia.”
Padre Luís Sequeira
O sacerdote deixa, no entanto, uma nota de apreensão. “A minha apreensão e receio da iniciativa ou da decisão tomada é que tudo acabe em folclore e turismo religioso e caia, assim, na superficialidade e desengano do ‘sentido divino’ nas nossas Vidas”, conclui o padre Luís Sequeira.
Uma procissão que sai às ruas em Outubro
A devoção a Nossa Senhora dos Remédios nasceu no final do século XII e foi levada para Portugal por religiosos franceses da Ordem Hospitalar da Santíssima Trindade. Chegou a Macau pelas mãos dos portugueses e por lá é promovida pela Paróquia de São Lourenço, que todos os anos leva a procissão às ruas no mês de Outubro.
Por seu lado, a Procissão em honra do Senhor dos Passos, foi trazida para Macau pelos frades agostinianos – a ordem religiosa a que pertence o papa Leão XIV – no final do século XVI. Celebrada todos os anos no primeiro fim-de-semana da Quaresma, esta procissão reúne habitualmente um elevado número de fiéis e de turistas e conta com a presença e participação do Bispo de Macau, do clero local e até das forças de segurança.
Por sua vez, a Procissão a Nossa Senhora de Fátima tem lugar todos os anos a 13 de Maio, celebrando a primeira Aparição da Mãe de Deus a três pastorinhos em Portugal. A procissão parte da Igreja de S. Domingos e prossegue até à Ermida da Penha, onde se pode ver toda a cidade. Esta procissão realizou-se pela primeira vez em Macau em 1929.
Macau, ponto de passagem para a JMJ de Seul
Macau continua a ter uma forte ligação a Portugal. O território, que foi administrado por Lisboa até 20 de Dezembro de 1999, continua a ser a casa de alguns milhares de portugueses e vai acolher, no próximo ano, os cerca de mil jovens nacionais que vão participar na Jornada Mundial de Juventude (JMJ), em Seul. No anúncio dessa visita, no início de Agosto, o Cardeal Américo Aguiar fez referência à ligação histórica entre Portugal e Macau. “Estamos também a preparar, com especial carinho, uma passagem por Macau, como sinal de memória, gratidão e da profunda ligação histórica entre Portugal e aquela comunidade”, disse o prelado.
O Bispo de Setúbal – que foi o responsável máximo pela JMJ de Lisboa, em 2023 – deixou na ocasião um desafio para que mais jovens participem nesta celebração de fé que no próximo ano vai decorrer na capital da Coreia do Sul. “Não tenham medo de partir. Vale a pena atravessar o mundo para descobrir que Cristo vos espera, vos chama e caminha convosco. A Jornada Mundial da Juventude é muito mais do que um evento; é uma oportunidade de deixar que Deus transforme o nosso coração e renove a nossa vida”, disse D. Américo.
O cardeal português esteve na semana passada em Macau, precisamente a caminho de Seul, onde se encontra neste momento. D. Américo Aguiar presidiu na sexta-feira, dia 11, a uma missa na Sé Catedral, em que enfatizou a dimensão missionária da história de Macau.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt







