Onda de violência no norte da Nigéria durante o período pascal provoca, pelo menos, 26 mortos em três ataques distintos nos estados de Benue, Borno e Kaduna. Entretanto, 31 cristãos foram resgatados pela polícia depois de terem sido sequestrados também na sequência de um ataque a duas igrejas.
Três ataques armados em três localidades distintas no norte da Nigéria causaram durante o período da Páscoa pelo menos 26 mortos. A notícia, avançada pelo Vatican News, refere que os ataques ocorreram nos estados de Benue, Borno e Kaduna.
O incidente mais grave foi no sábado, dia 4, em Mbalom, na região de Gwer West, no estado de Benue, no centro-norte da Nigéria. Segundo o portal de notícias do Vaticano, que cita agências internacionais como a Associated Press, Efe e AFP, pelo menos 17 pessoas foram mortas nesse ataque protagonizado por “homens armados”. O governador do estado de Benue, Hyacinth Alia, confirmou o ataque embora não tenha especificado o número exacto de mortos e feridos. As outras vítimas mortais ocorreram nos estados de Borno e Kaduna.
Num desses incidentes, também no sábado, dia 4, no estado de Borno, morreram quatro agentes da polícia após “um longo tiroteio com um grupo afiliado no autodenominado Estado Islâmico”. O último ataque de que há conhecimento ocorreu já no Domingo de Páscoa, na aldeia de Ariko, em Kaduna, a cerca de uma centena de quilómetros da capital, Abuja, em que homens armados mataram pelo menos cinco pessoas que participavam nas celebrações religiosas, tendo sequestrado ainda 31 fiéis, que posteriormente foram libertados após intervenção do exército.
Escalada de violência na região centro-norte
A região centro-norte da Nigéria tem sido palco, nos últimos anos, de uma violência crescente por parte de grupos terroristas, mas também de gangues criminosos e de sequestradores que realizam ataques mortais a comunidades, raptando pessoas para a obtenção de resgate em troca das suas vidas. A escalada da violência e a grave insegurança em todo o país atingiram níveis sem precedentes.
Essa situação é agravada pela presença de grupos jihadistas como o Boko Haram e o ISWAP (Estado Islâmico da Província da África Ocidental), bem como pelo extremismo dos pastores nómadas fulani, cada vez mais radicalizados. A comunidade cristã tem sido um dos alvos principais dos ataques destes grupos.
O massacre de 259 cristãos na aldeia de Yelewata em Junho do ano passado, o sequestro de 265 estudantes de uma escola católica em Papiri em Novembro, e o rapto de mais de 170 pessoas em Kaduna, já em Janeiro deste ano, na sequência de um ataque a três igrejas, entre muitos outros incidentes, colocaram os cristãos numa situação extremamente difícil.
Os cristãos que vivem no norte da Nigéria falam de uma discriminação enraizada, que inclui a exclusão política e menores oportunidades de emprego, mas em que há inúmeros outros sinais de menorização enquanto comunidade religiosa.
Raparigas cristãs em risco de conversão forçada
Na região norte deste país – que é o mais populoso de África –, no Relatório da Fundação AIS sobre a Liberdade Religiosa o Mundo, publicado em Outubro do ano passado, é referido que os homens cristãos não podem casar com mulheres muçulmanas, que a educação cristã não é permitida nas escolas públicas e que o hijab, o véu usado pelas mulheres muçulmanas, deve ser usado por todas as alunas. Além disso, normalmente os estudantes cristãos não têm acesso a bolsas de estudo estatais e os diplomados são discriminados no mercado de trabalho.
Finalmente, refere-se ainda no referido relatório da AIS, as igrejas cristãs não podem comprar terrenos e as mulheres e meninas cristãs enfrentam riscos de sequestro, casamento forçado e conversão forçada. Numa das zonas onde a violência é mais acentuada, conhecida como o Cinturão Médio, o relatório da Fundação AIS fala mesmo na apropriação deliberada de terras para expulsar os cristãos e islamizar a região.
“Nessa área de maioria cristã, os cristãos têm sido vítimas de assassinatos, violência sexual e sequestros por parte de grupos armados frequentemente identificados como extremistas fulani. Terras ancestrais cristãs foram roubadas e destruídas por pastores extremistas, deixando milhões de pessoas sem casa, desempregadas e vivendo em campos de deslocados internos, sem acesso a cuidados de saúde ou a escolas”, denuncia o Relatório da AIS.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt







