O Padre Marcelo Oliveira alerta, em mensagem à Fundação AIS, para a situação de risco na região leste da República Democrática do Congo por causa do surto de Ébola, altamente contagioso, que tem uma taxa de mortalidade muito elevada e que levou já a OMS a declarar uma situação de “emergência”.
O missionário denuncia que este surto volta a atingir as “populações pobres” que vivem num contexto de guerra, onde há “pessoas maltratadas e perseguidas”. Tal como o padre português, também o vigário-geral da Diocese de Bukavu denuncia o abandono destas populações, face à actuação de grupos rebeldes, como o M23, apoiados pelo vizinho Ruanda.
O surto de Ébola, registado no leste da República Democrática do Congo, está a alastrar e a provocar um cenário de alarme regional. Neste momento, com cerca de 500 casos suspeitos e mais de 130 mortos, a Organização Mundial de Saúde [OMS] declarou já uma “emergência de saúde pública de importância internacional”.
O surto do Ébola, identificado essencialmente na província de Ituri, e para o qual não há vacinas, já galgou fronteiras com o Uganda a registar pelo menos três casos e o Sudão do Sul e confirmar um paciente infectado. Para o Padre Marcelo Oliveira, a viver desde há vários anos na República Democrática do Congo, esta é uma situação difícil. O sacerdote português recorda, em mensagem enviada para a Fundação AIS em Lisboa, que embora esta seja já a 17ª epidemia de Ébola registada no país, “trata-se de uma nova variante, uma nova estirpe, para a qual não existe vacina nem tratamento específico, o que dificulta o combate à doença”.
O vírus do Ébola manifesta-se, esclarece o comboniano, “através de febre, diarreia, vómitos e outros sintomas que podem levar à morte”. “É altamente contagioso e, por isso, exige-se um grande cuidado com o contacto físico e com tudo aquilo que possa contribuir para a contaminação e propagação do vírus”, acrescenta.
Um vírus num ambiente de guerra
O padre português lembra também que esta doença afecta essencialmente populações que sofrem já bastante pois vivem num contexto profundamente desfavorecido, de grande pobreza, mas também de guerra.
Infelizmente, trata-se de um vírus que ataca populações pobres, num contexto em que a guerra continua, e onde continuam a existir pessoas maltratadas e perseguidas. Agora falamos de Ituri; noutras ocasiões falamos de Kivu do Norte e Kivu do Sul, províncias vizinhas onde a realidade é praticamente a mesma, e onde as populações continuam a fugir das milícias que persistem em devastar vidas humanas.”
Padre Marcelo Oliveira
Neste contexto, a Igreja desempenha um papel de muita importância em especial na informação que tem de ser veiculada às populações. “A Igreja preocupa-se em alertar os cristãos para a necessidade de respeitar estritamente as normas de higiene, quer nas celebrações, quer na vida quotidiana, a fim de evitar que esta situação se transforme numa pandemia capaz de provocar muitas mortes”, diz o Padre Oliveira, reconhecendo que a situação “é grave”.
Cinco toneladas de material sanitário
A Organização Mundial de Saúde e o Programa Mundial de Alimentos, da ONU, estão já a actuar, diz o padre, “com medicamentos, equipamentos e diversos materiais de apoio”.
“Chegaram aqui cinco toneladas de material para ajudar a população, sobretudo aventais, luvas, máscaras e desinfectantes. Encontramo-nos numa zona fronteiriça com o Uganda, onde há constantemente movimentos de pessoas, quer para o interior do país, quer para o exterior. Actualmente, as fronteiras foram fechadas, sobretudo a fronteira com o Uganda e também a fronteira com o Ruanda, uma vez que na cidade de Goma já foram identificados alguns casos”, acrescenta o missionário português.
Cancelada peregrinação no Uganda
A R. D. Congo faz fronteira com vários países, o Uganda, Sudão do Sul, Ruanda, Burundi, Zâmbia, Angola, Congo e República Centro Africana, o que faz aumentar o alerta regional face à propagação do vírus. Em resultado disso, as autoridades do Uganda anunciaram este domingo, dia 17, que iriam adiar a peregrinação anual de 3 de Junho, Dia dos Mártires, evento que atrai sempre milhares de cristãos ao santuário de Namugongo, nos arredores de Kampala, onde se assinala o assassinato, entre 1885 e 1886, de 45 cristãos, dos quais 22 católicos, executados por ordem do Rei do Buganda, preocupado com a crescente influência do cristianismo.
E embora o surto do Ébola tenha apenas para já uma dimensão regional, e ser baixo o risco de infecção na Europa, também as autoridades portuguesas já anunciaram o reforço de medidas de protecção precoce da doença. O vírus Ébola transmite-se através do contacto directo com fluidos corporais de pessoas ou animais infectados e provoca febre hemorrágica grave, febre, vómitos, diarreia e hemorragias internas. Segundo a OMS, o vírus apresenta uma taxa de mortalidade entre 25% e 90%.
Sacerdote denuncia violência em Bukavu
Tal como o padre português, também o vigário-geral da Diocese de Bukavu denuncia o abandono das populações que vivem na região leste da República Democrática do Congo, face à actuação de grupos rebeldes, como o M23, que são apoiados pelo vizinho Ruanda. “Não nos sentimos isolados, sentimo-nos abandonados”, afirma o Padre Floribert Bashimb, vigário-geral da Diocese de Bukavu, situada precisamente no leste da República Democrática do Congo, junto da fronteira com o Ruanda.
Segundo o padre, que esteve de visita à sede internacional da Fundação AIS na Alemanha, o conflito de interesses em torno da extracção de coltan e ouro tem ocultado a espiral de violência que tem assolado a região. O padre Floribert explica que o grupo rebelde M23, apoiado pelo Ruanda, invadiu a província de Kivu do Norte em 2021 e tomou o controlo da cidade de Goma em 2024, transformando-a no seu quartel-general operacional. Desde então, as paróquias em Goma estão fechadas.
Os padres são portadores de esperança
A 15 de Fevereiro de 2025, o grupo chegou à vizinha Bukavu. “As pessoas estão a sofrer, porque já não podem extrair minerais e as actividades rurais foram interrompidas devido à insegurança. O M23 controla as minas e pôs fim a toda a mineração de pequena escala, porque agora controla os recursos. Em alguns locais, especialmente no norte, estão a substituir a população local”, denuncia.
Depois de verem o que tinha acontecido em Goma, os padres em Bukavu receberam instruções para permanecerem, pois a Igreja temia que os edifícios da igreja e as casas fossem tomados por estranhos. Das 44 paróquias da diocese, 30 estão a perder paroquianos. Tudo isto tem um efeito profundo na missão dos sacerdotes, mas eles permanecem porque compreendem que “quando as pessoas ouvem os sinos da igreja, sabem que há vida na aldeia”, diz. Ou seja, o padre torna-se portador de esperança.
“Estamos gratos à AIS pelo apoio”
Os residentes de Bukavu também têm de suportar o isolamento do resto do país. Para muitos seminaristas, por exemplo, isto significa que não podem regressar às suas respectivas dioceses para as férias e, por isso, não veem as suas famílias durante todo o ano. Muitos dos seminaristas em Bukavu são de outras regiões e, com o M23 no controlo, não têm conseguido sair e têm precisado de ajuda material, como produtos de higiene pessoal, material escolar e roupa.
Estamos gratos à AIS pelo apoio. É o nosso principal benfeitor e tem trabalhado connosco especialmente na formação de futuros sacerdotes, na organização de retiros espirituais e na construção de novas igrejas ou na restauração das mais antigas.”
Padre Floribert Bashimb
O Padre Floribert, tal como o padre Marcelo Oliveira, insiste que a população está exausta. “Os minerais do Congo têm sido explorados há séculos, mas os pobres também têm direito a viver e a viver em paz. Há anos que a exploração mineira se mantém, mas o próprio povo congolês nunca viu nenhum dos recursos pelos quais muitas vezes morre. A violência gera violência, e somos vítimas da guerra e de um ciclo de violência que nos deixa famintos e pobres”, afirma.
RDC um país prioritário para a AIS
A RDC é um país prioritário para a AIS, que em 2025 financiou 258 projetos em todo o país, principalmente no domínio da construção/renovação de edifícios religiosos, da formação de seminaristas e da formação contínua de padres e freiras. Muitos padres foram apoiados pelas ofertas missionárias. A Fundação AIS desempenha um papel fundamental no reforço da presença da Igreja em áreas negligenciadas e abandonadas pelo governo.
Paulo Aido e Daniel Castilla
Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt




