PORTUGAL: “A França perde, em incêndios, dois edifícios religiosos todos os meses”, denuncia escritor Robert Royal

O lançamento em Lisboa do livro “Os Mártires do Novo Milénio”, de Robert Royal, trouxe a temática da perseguição aos cristãos para a ordem do dia. O autor, norte-americano, alertou para a ameaça terrorista que paira nomeadamente em África sobre as comunidades cristãs, ameaça que tem a marca do Islão radical, mas chamou também a atenção para outras realidades menos faladas, como a perseguição na China e os crimes de ódio cada vez mais frequentes na Europa. Os incêndios criminosos de edifícios religiosos em França são apenas um exemplo disso…

“A França, que obviamente tem um problema islâmico devido à imigração, perde dois edifícios religiosos todos os meses por causa de incêndios. E isto acontece mesmo que o governo francês tome medidas para tentar proteger esses edifícios. E claro, há coisas semelhantes que acontecem na Alemanha, na Itália, em Espanha. Rezo a Deus para que isso não aconteça com frequência aqui em Portugal”, disse Robert Royal, ontem à tarde, em Lisboa, no Palácio da Independência, perante algumas dezenas de pessoas que assistiam ao lançamento do seu livro “Os Mártires do Novo Milénio”.

A sessão, que contou com a participação do advogado Ribeiro e Castro, do editor Henrique Mota, e de Catarina Martins de Bettencourt, directora da Fundação AIS em Portugal, permitiu detalhar o que tem sido a perseguição global aos cristãos neste século XXI. Este novo livro de Robert Royal é, de certa forma, a continuação de um trabalho anterior, “Os Mártires Católicos do Séc. XX”, lançado por ocasião do Jubileu do ano 2000.

Ambos os trabalhos são um auxiliar precioso para se compreender como tem sido a perseguição aos cristãos nos últimos anos. E isso foi sublinhado por Ribeiro e Castro, que é também presidente da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, entidade que acolheu o evento. O antigo deputado fez a apresentação da obra começando por lembrar que já o século XX foi um imenso martírio. “Um único século, o século XX, pode ter produzido mais mártires do que os primeiros 19 séculos do cristianismo juntos”, disse.

A perseguição no séc. XX foi sistemática e global

De facto, os 100 anos do século XX foram tempos de brutalidade, com regimes ideológicos muito poderosos, o nazismo, o comunismo, com polícias políticas, campos de trabalho, propaganda, perseguições sistemáticas… Uma realidade que, diz Ribeiro e Castro, não pode ficar silenciada. “Não é possível ignorar, não é possível esquecer. Como Robert Royal refere no livro, esta questão constitui um dos grandes dramas morais da história contemporânea. A obra demonstra que a perseguição aos cristãos do século XX não foi episódica, mas sim sistemática, global e ideologicamente motivada”, afirma, lembrando o que ocorreu na Europa sob o nazismo, a perseguição comunista em várias geografias, desde a União Soviética, passando pela China, Coreia e Vietname, mas também conflitos em África e América Latina.

“Tudo isto contribuiu para a dimensão global do martírio. E é com este currículo que encerramos o século XX e entramos no século XXI, que entramos neste milénio”, diz Ribeiro e Castro, enaltecendo a oportunidade do novo livro de Robert Royal. “Mas o retrato que nos oferece não é famoso. O livro mostra que, embora quase sempre negligenciada ou ignorada, a perseguição aos cristãos continua hoje a ser profunda, global e multifacetada, com centenas de milhares de mortos, perseguidos ou marginalizados simplesmente por professarem a fé cristã”, adianta Ribeiro e Castro.

É tempo de agir, de sair da apatia

Houve mudanças de geografias e de protagonistas, mas não do horror. “Há mudanças na geografia da perseguição, que nestes primeiros 25 anos do milénio se concentram sobretudo em cinco espaços e respectivas práticas típicas: África, com centros de violência religiosa; Ásia, com islamismo radical e autoritarismo; Médio Oriente e Norte de África, com conflitos e expulsões; América Latina, com cartéis do crime, narcotráfico, tráfico humano, etc., e violência social; e a Europa e o Ocidente, com intolerância cultural”, resume o antigo dirigente do CDS e deputado no Parlamento Europeu. Também os métodos de perseguição foram mudando.

Agora vulgarizaram-se os ataques terroristas, os massacres, as emboscadas, os raptos… “Parece difícil de acreditar, mas a verdade é que continuam a morrer cristãos por causa da sua fé no século XXI”, diz. Perante tudo isto, Ribeiro e Castro afirma que é preciso agir.

Este livro de Robert Royal, tal como o anterior sobre o século XX, deve ser visto como um livro não só para servir de conhecimento, mas, sobretudo, para alimentar a acção. De nada nos serve ter conhecimento do mal se nada fizermos para lhe pôr fim. É tempo de agir.”

O desafio, acrescenta é, sensibilizar responsáveis políticos, governos, deputados, dirigentes comunitários, jornalistas, estruturas eclesiais… A ideia é sair da apatia, e “conseguir que os governos dos países com comunidades cristãs relevantes adoptem a denúncia e o combate à perseguição internacional aos cristãos como um dos temas da sua política externa e internacional”, concluiu Ribeiro e Castro que teve ainda palavras de grande elogio para o trabalho que a Fundação AIS desenvolve em todo o mundo na defesa dos cristãos e na denúncia da perseguição religiosa.

“Actividade extraordinária da Fundação AIS”

“Hoje existe muita informação sobre a perseguição a cristãos no mundo. Não são só os livros de Robert Royal, mas também a actividade extraordinária da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que organiza e realiza, há muitos anos, a recolha mundial de informação e promove a sua divulgação, o que é muito importante. Não é demais aplaudir o trabalho que esta fundação faz. A cada dois anos, a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre publica também em Portugal um relatório muito competente sobre a liberdade religiosa no mundo, com a maior parte do foco sobre os cristãos, mas cobrindo também outras vítimas de perseguição religiosa. Esse relatório é muito bem feito e bem documentado”, disse ainda Ribeiro e Castro.

A ameaça crescente do Islão radical

A intervenção de Robert Royal ficou marcada por alguns exemplos do que tem sido, neste novo milénio, a perseguição aos cristãos. E referiu, a par de lugares óbvios onde não há liberdade, como a Coreia do Norte, o exemplo de um país que normalmente não é referido quando se fala em perseguição à Igreja: o México.

Neste país, o grande problema é a criminalidade. São os cartéis que traficam drogas e também seres humanos, e que tentam, de alguma forma, controlar o povo. Por causa disso, explicou Royal, quando um sacerdote ou outro religioso se interpõe entre os criminosos e o povo, muitas vezes o que acontece é que acabam assassinados. “O lugar mais perigoso para se ser sacerdote católico é o México”, garante o escritor norte-americano.

Robert Royal também enfatizou a ameaça crescente do Islão radical, que nasceu da Irmandade Muçulmana, na década de 1950 e começou a espalhar-se pelo Médio Oriente. E lembrou Salman Rushdie, o romancista paquistanês-britânico alvo de uma ‘fatwa’ porque escreveu um livro que os muçulmanos consideraram blasfemo e que, ainda há relativamente pouco tempo, foi apunhalado e perdeu um dos olhos quando estava a dar uma conferência em Nova Iorque.

Pois Salman Rushdie disse que a humanidade despediu-se do século XX a pensar que tinha deixado para trás os tempos do totalitarismo, mas a verdade é que o mundo acordou no século XXI e descobriu o totalitarismo islâmico. “E muito do que vemos não é apenas criminalidade ou terrorismo; há um propósito por trás de grande parte da violência destes grupos islâmicos radicais, que é o de se recriar no Médio Oriente o Califado”, explica Royal.

“Há 10 bispos católicos desaparecidos na China”

Estes grupos terroristas – com destaque para o autoproclamado Estado Islâmico –, chegaram a ocupar vastas regiões da Síria e Iraque, em 2014, anunciando mesmo a instauração de um califado. Mas acabaram por ser derrotados por uma coligação internacional e deslocaram-se depois para África.

Assim, quando leem, por exemplo, sobre as terríveis perseguições e muitas vezes o martírio de cristãos num país como a Nigéria, isso deve-se ao facto de grupos como o Boko Haram e outros, que operam neste país onde 50% da população é cristã e 50% muçulmana, estarem a tentar estabelecer um tipo de Califado.”

E esta violência, perpetrada por grupos extremistas, tem vindo a estender-se por todo o continente. Robert Royal refere a República Democrática do Congo, o Sudão e a Líbia, como exemplos. Mas lembra que esta ameaça extremista se estende a outras zonas do planeta, como o Sudeste Asiático, em países como as Filipinas, “onde há muitos grupos islâmicos radicais”.

Mas há outros países que merecem atenção. Um deles é a China. “É uma situação muito delicada e esperamos que as negociações entre o Vaticano e Pequim produzam alguns bons frutos. Mas sabemos que há pelo menos 10 bispos católicos desaparecidos na China”, diz. E depois há a Europa. O caso de França, que assiste à destruição, por incêndios criminosos, de uma média de “dois edifícios religiosos por mês”, é sintomático.

Por tudo isto, e sublinhando o que já Ribeiro e Castro tinha dito, Robert Royal pediu para que as pessoas estejam informadas e ajudem as comunidades cristãs vítimas de perseguição. “Mas, façam o que fizeram, não ignorem isto. Não permaneçam passivos perante isto”, pediu.

“Publicar este livro é fazer um apelo, um desafio”

A sessão de apresentação do livro contou também com a participação de Henrique Mota, o editor. No final, em declarações à Agência Ecclesia e à Fundação AIS, o responsável pela Lucerna disse que ter publicado o livro foi “um grito de alerta”.

Provavelmente, o século XX, sozinho, teve tantos mártires quanto os 19 séculos anteriores. E agora este livro, que se refere unicamente aos primeiros 25 anos deste século, traz um relato verdadeiramente preocupante daquilo que é o martírio, essencialmente o martírio de cristãos, e particularmente de entre os cristãos, o martírio de católicos.”

Por isso, acrescenta, “publicar este livro, no meu caso, não é divulgar mais uma obra literária, é divulgar um documento que faz um apelo e um desafio para que as pessoas possam conhecer a realidade e agir sobre essa realidade”.

O livro de Robert Royal teve ontem ainda uma segunda sessão de apresentação ao princípio já da noite na Basílica da Estrela. Em plena Igreja, depois da celebração da Eucaristia, e perante cerca de uma centena de pessoas, o Padre Duarte da Cunha lembrou que os mártires são exemplo para todos nós.

São homens e mulheres cristãos que têm uma fé forte e viva e que não lhes permite odiar, mas também não desistem da sua fé, não abjuram a sua fé, não a negam, mas, pelo contrário, afirmam-na, testemunham-na radicalmente…”

Durante ambas as apresentações, no Palácio da Independência e na Basílica da Estrela, dezenas de pessoas assinaram também a Petição lançada em Outubro do ano passado pela Fundação AIS em defesa da liberdade religiosa no mundo.  Trata-se de uma iniciativa global da Ajuda à Igreja que Sofre e que é dirigida ao Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, ao Presidente do Conselho Europeu, António Costa, ao Alto-Comissário para os Direitos Humanos, Volker Türk, à Assembleia Geral da ONU e aos líderes de governos democráticos, assim como embaixadores e representantes diplomáticos.

O documento, recordando o Artigo 18º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, redigido em 1948, apela à “protecção urgente e à contínua promoção do direito fundamental à liberdade de pensamento, consciência e religião em todo o mundo”. Um apelo que ontem foi respondido por dezenas de pessoas que deram o seu nome em defesa da liberdade religiosa no mundo.

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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