PAQUISTÃO: “Lembro-me das lágrimas das pessoas”, diz jovem cristã ao recordar os ataques em Jaranwala

Firdous Parvaiz, jovem paquistanesa a viver em Lisboa, recorda o desespero dos seus conterrâneos após os ataques de 14 de Agosto de 2023 contra a comunidade cristã em Jaranwala, perto da sua casa. Por sorte, nesse dia estava em Islamabad para tratar do passaporte, pois ia viajar dali a pouco para Portugal. Mas regressou imediatamente, ainda a agitação estava no ar.

Passaram, entretanto, quase três anos, mas Parvaiz não consegue esquecer as lágrimas e o medo dos cristãos que nesse dia viram mais de 20 igrejas serem incendiadas e tiveram de fugir para salvar as próprias vidas.

“Atacaram de manhã, muito cedo. Fizeram um plano e atacaram as casas dos cristãos. Começaram a incendiar as igrejas e, nesse dia, incendiaram [mais de] 20 igrejas”, recorda Firdous Parvaiz à Fundação AIS.

Por sorte, a jovem não estava em Jaranwala quando ocorreu um dos mais graves ataques contra a comunidade cristã no Paquistão nos últimos anos. Há quem diga que foi mesmo o pior ataque de sempre. Foi A 16 de Agosto de 2023. Nesse dia, milhares de muçulmanos atacaram, vandalizaram e profanaram igrejas e destruíram casas de cristãos em Jaranwala, no estado do Punjab. Foi o caos. Os cristãos foram forçados a fugir, em pânico, para salvar as próprias vidas. Firdous soube do que estava a acontecer quando a irmã lhe telefonou.

“Eu estava em Islamabad para recolher os meus documentos e tinha uma marcação na embaixada. Entretanto, a minha irmã ligou-me a perguntar onde é que eu estava. Eu respondi que estava a caminho. Ela disse-me para ter cuidado, porque a situação lá estava péssima, mas não contou o que realmente se estava a passar.” Provavelmente, não contou o que se estava a passar para não a assustar. “De acordo com as notícias, naquela altura, talvez quatro ou cinco igrejas tivessem sido queimadas, mas na realidade foram [pelo menos] 20 igrejas”, recorda agora a jovem paquistanesa à Fundação AIS em Lisboa.  Foi um autêntico caos em todo o lado. Pessoas em fuga, casas a arder, até um cemitério cristão foi vandalizado.

Ter de fugir para salvar a própria vida

Tudo começou com a notícia de que dois cristãos haviam profanado o livro sagrado dos muçulmanos. Bastou isso e uma turba enfurecida de milhares de pessoas procurou fazer justiça queimando casas e igrejas, ameaçando os cristãos. Firdous Parvaiz regressou a Jaranwala no dia 19 de Agosto, ainda a agitação estava no ar.

Foi tão triste ver o que se estava a passar. Foi difícil para mim e ainda é difícil agora recordar aquele momento e explicar aquela situação. Lembro-me das lágrimas das pessoas, de como choravam, pois perderam os seus móveis, os seus bens… foi uma situação terrível para elas. Algumas senhoras contaram-nos que tentaram pedir ajuda à polícia do Governo. Correram para pedir ajuda à polícia e naquele momento os agentes disseram: ‘Por favor, fujam. Não podemos fazer nada por vocês’.”

De nada valeu àquelas mulheres terem implorado protecção aos polícias. “Elas disseram que tiveram de fugir e que sentiam que ninguém as podia ajudar. E fugiram para os campos, para salvar as suas vidas. Foi uma situação terrível, muito terrível”, afirma Firdous Parvaiz, que vive na região de Lisboa dando apoio à comunidade cristã paquistanesa em Portugal.

“O plano era queimar também os cristãos”

Os cristãos de Jaranwala quando viram a cidade, os bairros onde moravam ser invadidos por uma multidão de muçulmanos em fúria temeram o pior. E tinham razão para isso. O ataque começou de madrugada, pelas 6 ou 7 horas da manhã, quando praticamente toda a gente estava ainda a dormir.

“Parecia que o plano era queimar também os cristãos. E isso já aconteceu antes, em Yohanabad, em Shanti Nagar, há alguns anos, queimaram as casas dos cristãos e queimaram também as pessoas, que perderam a vida. Algumas perderam também as suas famílias”, afirma Parvaiz, lembrando que no caso concreto de Jaranwala, e já passaram quase três anos, ainda não foi feita justiça sobre o que aconteceu. “Até hoje nada, não conseguiram que se fizesse justiça”, diz.

Face à inexistência de apoio oficial, a maior parte das casas dos cristãos foi reparada apenas graças à solidariedade da própria comunidade. Mas nada faz esquecer o medo nem a ansiedade que continuam bem presentes entre os cristãos de Jaranwala, entre os cristãos do Paquistão. “Diariamente cristãos, principalmente de famílias de classe baixa ou classe média, enfrentam muitas situações críticas”, diz Firdous Parvaiz, lembrando episódios que vão sendo conhecidos de violência, casos de assassinatos, de perseguição.

Esta é a situação actual no Paquistão. Está a acontecer dia após dia, a aumentar dia após dia. A maioria das pessoas está a perder a sua família, está a perder os seus filhos, está a perder tudo, também devido à blasfémia. Por isso, tentamos simplesmente procurar ser a voz do povo Cristão do Paquistão.”

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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