Após reunião virtual com o Bispo de Pemba, as Comissões Justiça e Paz de Portugal chamam a atenção da sociedade, do governo e das autoridades europeias para a “dramática situação” que se está a viver no norte de Moçambique, em especial em Cabo Delgado. Um alerta em que se sublinha que os ataques terroristas têm atingido “em particular os cristãos”, e para que este drama não caia no esquecimento nem na indiferença.
Numa conferência virtual desde Montepuez, no dia 27 de Junho, onde estava de visita ao seminário propedêutico, o Bispo de Pemba fez para os responsáveis das várias Comissões Justiça e Paz portuguesas [Nacional, diocesanas, incluindo as das ilhas, e a dos Institutos religiosos] um ponto da situação sobre a violência terrorista no norte de Moçambique.
Em sequência, ontem, 7 de Julho, foi publicado um comunicado em que estas entidades denunciam a violência jihadista – muitas das vítimas têm sido assassinadas “por decapitação” –, e onde mais de cento e vinte Igrejas e capelas foram destruídas.
Por detrás destas acções terroristas está uma ideologia radical que invoca o islamismo e que atinge em particular os cristãos, mas também a população em geral. Essa ideologia atrai adolescentes e jovens, que rompem tradições familiares e que se deparam com a ausência de perspectivas de futuro em contextos de pobreza e desemprego.”
“Para contrariar a influência dessa ideologia, são da maior importância o diálogo e a colaboração entre diferentes comunidades religiosas, incluindo as comunidades muçulmanas que a rejeitam como deturpação do Islão, e actividades comuns de educação das jovens gerações para a paz”, acrescentam os responsáveis das Comissões de Justiça e Paz portuguesas.
No documento sublinha-se ainda que a população de Cabo Delgado “pouco tem beneficiado” dos enormes investimentos que empresas multinacionais estão a realizar na região, nomeadamente na exploração de gás natural, e denuncia-se o facto de a segurança das infraestruturas dessas empresas parecer “ser privilegiada em relação à protecção dessa população”, que também “sofre abusos de forças militares governamentais”.
O texto, enviado para a Fundação AIS, termina com um apelo à sociedade civil, empresas e governos, incluindo instâncias internacionais como as autoridades europeias, para ajudarem a pôr um ponto final no sofrimento deste povo cuja fé tem sido provada num ambiente de profunda perseguição “à imagem da Igreja dos mártires dos primeiros tempos do cristianismo”.
Importância da educação para a paz
Pedro Vaz Patto, presidente da Comissão Nacional de Justiça e Paz [CNJP], que organizou o encontro, explica à Fundação AIS que D. António Juliasse se referiu às comunidades locais como tendo uma fé forte que as leva “a não perder a esperança, a não desanimar”, apesar do cenário dramático que se vive na região.
Os ataques terroristas, recorde-se, começaram em Outubro de 2017 e já provocaram, desde então, mais de 6300 mortos e mais de 1 milhão e 200 mil deslocados. A destruição da paróquia e missão de São Luis de Montfort, a 30 de Abril, noticiada pela Fundação AIS, foi um dos episódios mais visíveis dessa violência que tem como um dos alvos principais a comunidade cristã.
D. Juliasse explicou, na conferência virtual desde Montepuez, que é importante, neste contexto, a educação dos jovens. “O Bispo sublinhou a importância da educação para a paz das jovens gerações, porque são estas jovens gerações as mais atraídas pelo discurso de ódio, pela mensagem de ódio que está subjacente às acções dos grupos terroristas que atingem o povo de Cabo Delgado”, sintetizou Vaz Patto. “Ou seja, a importância da educação para a paz como o mais eficaz antídoto contra essa atracção, contra esse recrutamento dos jovens”, acrescentou ainda.
Uma população empobrecida e sem defesa
As palavras do Bispo de Pemba vieram reforçar a convicção da Comissão Nacional de Justiça e Paz, e das restantes comissões, de que é necessária uma tomada de posição sobre a situação em Cabo Delgado. Aliás, esta é a segunda vez, no espaço de poucas semanas, que a Comissão Nacional de Justiça e Paz manifesta a sua preocupação pela situação difícil que se vive no norte de Moçambique, em especial em Cabo Delgado, em consequência dos ataques terroristas do grupo Estado Islâmico.
Em Maio, alguns dias após o ataque à paróquia de São Luís de Montfort, a CNJP publicou um comunicado sobre as “imagens devastadoras” do templo destruído, “assim como todas as estruturas da missão católica, privando a população de cuidados de saúde e instrução”. Esse ataque, em que foram também raptados 20 jovens, representou, para a CNJP, uma “ostensiva intimidação e perseguição” à comunidade cristã que vive no norte de Moçambique.
Agora, dois meses depois, o tema Cabo Delgado volta a ocupar as Comissões de Justiça e Paz portugueses. “É preciso chamar a atenção dos cidadãos em geral, dos portugueses, para que este drama não caia no esquecimento ou na indiferença, para que não pensemos que se trata de uma fatalidade inevitável contra a qual nada podemos fazer”, declara Vaz Patto à Fundação AIS.
Campanha da Fundação AIS por Cabo Delgado
A crise humanitária que se vive em Cabo Delgado e os constantes ataques às comunidades cristãs levaram a Fundação AIS a lançar, aqui em Portugal, nas últimas semanas, mais uma campanha de ajuda de emergência.
Um dos objectivos desta campanha é sensibilizar os portugueses para a necessidade do apoio à sobrevivência das famílias deslocadas, forçadas a fugir, e que face à ameaça terrorista tiveram de abandonar casas e campos agrícolas, vivendo agora apenas da caridade. A ajuda a estas famílias – com 45€ é possível alimentar uma família durante 1 mês – é uma prioridade para a Fundação AIS. Tal como o apoio à Igreja local. Uma ajuda que não tem passado despercebida aos olhos dos mais altos responsáveis do Vaticano.
Ainda no final do ano passado, em Dezembro, durante uma visita a Pemba, o Cardeal Pietro Parolin, em representação do Papa Leão XIV, referiu-se por diversas vezes ao trabalho que a AIS tem realizado no apoio às populações locais. “Apercebi-me agora do papel que a Fundação AIS está a desempenhar aqui. Estou muito satisfeito com isso. Felicitações e continuem realmente a apoiar e a ajudar estas comunidades que tanto precisam. Temos verdadeiramente de manifestar-lhes a solidariedade da Igreja universal de uma forma muito concreta e vós estais a fazê-lo”, disse o Cardeal Parolin, secretário de Estado do Vaticano.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt







