Casa de religiosas em Mecuburi, na Arquidiocese de Nampula, foi atacada na madrugada deste sábado, dia 8. Na sequência do assalto, duas religiosas quenianas foram agredidas violentamente, assim como o guarda das instalações. Numa mensagem enviada horas depois para a Fundação AIS em Lisboa, D. Inácio Saure reconhece que “a criminalidade está a aumentar exponencialmente” em Moçambique.
Na madrugada deste sábado, dia 8 de Agosto, uma casa de religiosas, em Mecuburi, na arquidiocese de Nampula, foi assaltada com violência. Pouco depois da meia-noite, um grupo de malfeitores escalou o muro e introduziu-se na residência, que funciona também como um lar de meninas.
Duas religiosas foram agredidas e tiveram de receber tratamento hospitalar. O guarda das instalações também foi agredido, com muita violência, e teve mesmo de ser internado, por “se encontrar em perigo de vida”, segundo explicou D. Inácio Saure, Arcebispo de Nampula, na mensagem enviada à Fundação AIS horas depois do incidente.
Confirmo o assalto e agressões a religiosas na sede do distrito de Mecuburi (Arquidiocese e Província de Nampula) na madrugada de hoje [dia 8]. Um guarda das religiosas, por se encontrar em perigo de vida, foi o primeiro a ser evacuado para o hospital central de Nampula. A seguir, as duas religiosas (ambas quenianas) também foram evacuadas para o mesmo hospital, onde já tiveram os primeiros tratamentos, mas não ficaram hospitalizadas, encontrando-se agora numa comunidade de religiosas nesta cidade de Nampula.”
D. Inácio Saure
O prelado diz ainda que, segundo as informações em sua posse, e ao contrário do que chegou a ser noticiado nas redes socais, nenhuma irmã terá sido violentada sexualmente, e afirma que não considera “oportuno”, para já, “fazer grandes pronunciamentos sobre o assunto”, mas sublinha, no entanto, “que a criminalidade está a aumentar exponencialmente em Nampula e no país em geral”.
Irmã relata momentos de terror vividos há um ano
Efectivamente, Moçambique tem vindo a registar um aumento de violência, não só como consequência dos ataques terroristas do grupo jihadista Estado Islâmico, activo essencialmente na província de Cabo Delgado, no norte do país, mas também por causa da instabilidade vivida após as eleições presidenciais de 2024.
Mas, além destes dois factores, há ainda um elevado índice de criminalidade em Moçambique, um dos mais significativos em todo o continente. E a Igreja não tem escapado a essa realidade. Exemplo disso, há cerca de um ano, em Junho de 2025, tal como agora em Nampula, ocorreu um assalto à residência das irmãs Mercedárias do Santíssimo Sacramento, mas em Pemba. Na ocasião, a Irmã Ofélia Robledo Alvarado relatou para a Fundação AIS os detalhes do ataque e os momentos de terror vividos pelas religiosas. “Um grupo de 18 homens entrou na nossa missão, armados com catanas, barras de ferro e armas. Oito invadiram a casa; os demais ficaram do lado de fora, controlando os portões e rendendo os guardas. Ficámos apavoradas ao vê-los entrar nos nossos quartos, exigindo dinheiro e levando tudo o que podiam. Eles roubaram os nossos computadores, os telemóveis e o pouco dinheiro que tínhamos”, explicou a religiosa.
Mas a situação, que já era extremamente grave, tornar-se-ia ainda mais perigosa. As religiosas foram levadas para a capela da casa e os criminosos forçaram as irmãs a se ajoelharem, aumentando ainda mais o clima de desespero. “Acreditámos que eles iriam incendiar a capela connosco lá dentro”, disse a Irmã Ofélia. “Mas em vez disso, fizeram a Irmã Esperanza ajoelhar-se no centro da capela e levantaram o facão para cortar a sua cabeça diante de todas nós. Supliquei para que não a matassem. Eles já tinham levado tudo o que possuíamos. Pedi misericórdia.”
Campanha de ajuda de emergência da Fundação AIS
Toda esta violência, a que se soma a situação terrível de terrorismo no norte de Moçambique, onde grupos armados jihadistas têm semeado medo e destruição desde 2017 – há, desde esse ano, mais de 6300 mortos e mais de 1,2 milhões de deslocados –, levou a Fundação AIS a lançar aqui em Portugal uma campanha de ajuda de emergência.
Um dos objectivos desta campanha é sensibilizar os portugueses para a necessidade do apoio à sobrevivência das famílias deslocadas, forçadas a fugir, e que face à ameaça terrorista tiveram de abandonar casas e campos agrícolas, vivendo agora apenas da caridade. A ajuda a estas famílias – com 45€ é possível alimentar uma família durante 1 mês – é uma prioridade para a Fundação AIS. Tal como o apoio à Igreja local. Uma ajuda que, importa sublinhar, não tem passado despercebida aos olhos dos mais altos responsáveis do Vaticano.
Ainda no final do ano passado, em Dezembro, durante uma visita a Pemba, o Cardeal Pietro Parolin, em representação do Papa Leão XIV, referiu-se por diversas vezes ao trabalho que a AIS tem realizado no apoio às populações locais. “Apercebi-me agora do papel que a Fundação AIS está a desempenhar aqui. Estou muito satisfeito com isso. Felicitações e continuem realmente a apoiar e a ajudar estas comunidades que tanto precisam. Temos verdadeiramente de manifestar-lhes a solidariedade da Igreja universal de uma forma muito concreta e vós estais a fazê-lo”, disse, na ocasião, o Cardeal Parolin, secretário de Estado do Vaticano.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt







