VENEZUELA: “Aprendi a reconhecer Deus no rosto de quem sofre”, diz Tony Pereira, voluntário na Igreja de Maiquetía

A Igreja de San Sebastian de Maiquetía ficou bastante degradada com os terríveis terramotos de 24 de Junho. Felizmente, o desabamento de parte do edifício não causou vítimas, mas deixou toda a estrutura em condições muito precárias. No entanto, apesar disso e face à crise humanitária em toda a região, foi decidido que o refeitório social da paróquia teria de voltar a funcionar. O antigo ‘chef’ Tony Pereira, e grande amigo da Fundação AIS, é a alma deste movimento solidário em que a comunidade procura dar a mão a quem mais precisa, distribuindo comida e ajuda. E por ali, são imensos os que precisam de ajuda.

A fachada da Igreja de San Sebastian, em Maiquetía é um símbolo da profunda destruição causada pelos violentos sismos que sacudiram a Venezuela a 24 de Junho. Grande parte da parede frontal do edifício ruiu, deixando ver o interior, as rachas são profundas e o chão, em volta, está coberto de pedras, de pedaços de madeira, de ferros retorcidos.

Lá dentro, funcionava o refeitório social, destinado às pessoas mais vulneráveis da comunidade. E eram muitas. Só que a violência do sismo, a destruição causada pelo sismo, trouxe ainda mais desolação e pobreza para muitas destas famílias. E por isso, e apesar das condições precárias do edifício, foi decidido que o refeitório teria de voltar a abrir as suas portas. O antigo ‘chef’ Tony Pereira, de 58 anos, antigo funcionário da empresa portuguesa Teixeira Duarte, é a alma deste movimento solidário em que a comunidade procura dar a mão a quem mais precisa. Dia 30 de Junho. Seis dias depois do sismo. Tony Pereira decide gravar um pequeno vídeo, em frente da igreja, para lançar um apelo à ajuda de todos. “Chegou o momento de voltar a acender os nossos fogões”, diz. “É preciso ajudar os que mais precisam”, acrescenta.

Um voluntário especial

A cruz que Tony traz quase sempre ao pescoço dá-lhe uma identidade própria. É voluntário da Igreja. Mas também é cozinheiro. Na verdade, é um verdadeiro ‘chef’. Formado em várias academias, chegou a trabalhar em restaurantes de renome quando a Venezuela era ainda um país com uma situação económica regular, mas é ainda de volta dos tachos e panelas que mais gosta de estar.

E é de volta dos tachos e panelas que tem conseguido ser exemplo de solidariedade nos tempos negros que se vivem na Venezuela e que se agravaram agora quase até ao infinito com os brutais sismos que abalaram o país. Tony é um ‘chef’ cristão ao serviço dos outros e desde há muitos anos na paróquia de San Sebastian, em Maiquetía, perto de Caracas. Uma paróquia que está agora desfigurada, mas pronta para renascer.

O nosso templo ficou profundamente afectado, como todos podem ver. No entanto, apesar do estado em que se encontra, a Casa Paroquial continua de portas abertas e dispõe de um refeitório social que queremos voltar a colocar ao serviço da comunidade.”

Servir quem mais necessita

“O nosso objectivo é simples: voltar a acender estes fogões, que durante mais de quinze anos alimentaram tantas pessoas em situação de vulnerabilidade. Hoje, mais do que nunca, sentimos que essa missão continua a ser indispensável”, diz, usando as palavras também como uma provocação para que mais e mais pessoas se juntem a ele de forma que o refeitório volte a ser o centro do coração solidário da paróquia.

“Deixo aqui um apelo sincero. Ao Jesús, à senhora Amparo, ao senhor Leonardo e a todas as pessoas que, ao longo deste tempo, têm caminhado ao nosso lado e apoiado este projecto, pedimos que continuem a ajudar-nos. A vossa solidariedade faz toda a diferença e permitirá que possamos continuar a servir quem mais necessita”, diz.

Aos poucos, a solidariedade vai-se materializando. Três camiões com bens essenciais foram já descarregados na paróquia. Perante uma fila de pessoas em frente às ruínas da Igreja, pessoas que procuram alguma ajuda, Tony explica que tudo vai ser distribuído.

“Neste momento estamos a organizar-nos para proceder à distribuição. Não temos muito, mas tudo o que recebemos será entregue, porque foi para isso que nos foi confiado: para ser distribuído pelo povo”, diz, sublinhando que tudo vai ser mesmo distribuído. “Muitos de vós conhecem-nos e sabem o trabalho que realizamos”, afirma ainda.

Reconhecer Deus nos que sofrem

Estes têm sido tempos muito exigentes. Não há memória por ali de um sismo tão devastador. Ainda não se sabe quantas pessoas pereceram, quantos corpos se escondem ainda nos escombros dos prédios, nem sabe ainda como vai ser a vida dos que escaparam aos terramotos. “Ao longo destes dias aprendi a reconhecer Deus no rosto de quem sofre”, diz Tony Pereira. E por ali, na fila dos que pedem ajuda, estão rostos marcados pelo sofrimento, idosos, doentes, pessoas em lágrimas.

Por estes dias, a Venezuela é um país em luto, mas é também um país que procura renascer da tragédia com a solidariedade. E graças a pessoas que não se resignam, que dão o melhor de si em favor dos mais necessitados, tudo é possível. Tony Pereira é uma dessas pessoas. E ele sabe que a Igreja da Venezuela pode contar também com a solidariedade da Fundação AIS que aprovou já uma ajuda de emergência no valor de 100 mil euros. Essa é uma primeira ajuda, decidida a nível internacional. Em Portugal, o secretariado nacional da AIS também tem em curso uma campanha, “SOS Venezuela”, em que se procura aliviar o sofrimento deste povo.

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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