MOÇAMBIQUE | Cabo Delgado

"A Fé deste povo de Deus
nunca será queimada"

D. António Juliasse, Bispo de Pemba

Há quase nove anos que Cabo Delgado vive mergulhado numa guerra silenciosa. Longe das notícias, o norte de Moçambique transformou-se num território marcado pelo medo, pela destruição e pelo sofrimento humano. Milhares de famílias vivem em fuga permanente. Crianças crescem sem conhecer a paz. Comunidades inteiras desapareceram. E, no centro desta tragédia, encontra-se também uma Igreja perseguida, atacada e profundamente ferida, mas que continua a permanecer ao lado do povo.

Desde Outubro de 2017, os grupos terroristas que actuam naquela região, e que reivindicam ligações ao Estado Islâmico, já provocaram mais de 6.300 mortos e mais de 1 milhão e 200 mil deslocados. Igrejas queimadas, missões destruídas, catequistas assassinados e populações obrigadas a abandonar tudo para sobreviver, tornaram-se parte da realidade quotidiana de Cabo Delgado. O terror deixou de ser um acontecimento isolado para passar a marcar a vida de milhares de famílias que não sabem o que lhes acontecerá no dia seguinte. O mais recente e brutal ataque aconteceu no dia 30 de Abril, quando a histórica missão católica de São Luís de Montfort foi reduzida a escombros.

A violência voltou a atingir directamente a Igreja e a população cristã, deixando para trás destruição e medo.

Os terroristas queimaram a igreja e destruíram as instalações da missão, a escola primária e o posto de saúde, apagando em poucas horas um lugar que durante décadas foi sinal de esperança para toda aquela comunidade. Mas o que mais preocupa a Igreja não é apenas a destruição material. É também o crescimento de um discurso de radicalização e ódio que ameaça destruir a convivência pacífica que sempre existiu naquela região. D. António Juliasse, Bispo de Pemba, alerta através da Fundação AIS, para o perigo crescente da instrumentalização religiosa por parte dos grupos extremistas.

“Os sinais existem. Eles falam de califado. Quando encontram pessoas, quando capturam, raptam pessoas, eles fazem esse discurso de que já estão aqui com o califado estabelecido”, afirma o prelado, explicando que muitos civis capturados pelos insurgentes são obrigados a ouvir mensagens extremistas e ameaças dirigidas às populações locais.

O Bispo lamenta profundamente a divisão e o medo que começam a instalar-se numa região onde, durante décadas, cristãos e muçulmanos viveram lado a lado, partilhando a vida, as celebrações e os momentos de sofrimento. “Nas aldeias, antigamente, aqui em Cabo Delgado, os cristãos participavam nos funerais de famílias muçulmanas, e os muçulmanos participavam nos funerais das famílias cristãs. Hoje, isto começa a ser questionado. A religião começa a dividir as pessoas”, sublinha D. António Juliasse.

Apesar de toda a violência, a Igreja continua presente. Sacerdotes, religiosas e catequistas permanecem junto das populações deslocadas, levando alimentos, acolhimento, apoio espiritual e esperança a quem perdeu tudo.

Com 45€ é possível alimentar 1 família durante 1 mês

Ajude a devolver a esperança a Cabo Delgado apoiando projectos como estes:

Leve conforto espiritual a famílias deslocadas pelos ataques armados em Cabo Delgado. Um programa de acompanhamento humano e espiritual para vítimas da guerra, que procuram recomeçar a vida:

35.000 €

Reforce a segurança das casas religiosas na cidade de Pemba. Protecção de missionários e comunidades que continuam a apoiar a população em risco:

20.000 €

Garanta cabazes de emergência para novos deslocados em Cabo Delgado. Alimentação e produtos de higiene para famílias forçadas a fugir da violência:

84.000 €

Apoie 62 religiosas de 12 congregações que trabalham na Diocese de Pemba. Mulheres consagradas que acompanham os mais vulneráveis todos os dias:

37.200 €

Contribua para a formação de 46 seminaristas da Diocese de Pemba. Uma missão de esperança e continuidade para a Igreja em Moçambique:

27.600 €

A histórica igreja reduzida a cinzas

O ataque começou ao final da tarde de 30 de Abril. Eram cerca das 16 horas quando homens armados entraram na localidade de Meza, na província de Cabo Delgado, e avançaram em direcção à missão católica de São Luís de Montfort. Em poucas horas, uma das mais antigas presenças da Igreja Católica naquela região foi destruída.

A igreja, construída em 1946, símbolo da evangelização do Norte de Moçambique, foi incendiada pelos terroristas do Estado Islâmico. “O cenário foi de terror. A paróquia foi atacada e totalmente queimada pelos insurgentes. Casas e infraestruturas destruídas, a paróquia histórica reduzida a escombros”, descreveu o Bispo de Pemba, D. António Juliasse, numa mensagem enviada à Fundação AIS.

Os terroristas não se limitaram a destruir o templo religioso, mas arrasaram também a escola primária e o posto médico que pertenciam à missão católica, privando as populações locais, já de si muito pobres, do acesso à educação e à saúde. Durante o ataque, adianta D. Juliasse, cerca de 20 jovens “foram capturados e usados como audiência para discursos de ódio”.

Os missionários, que acompanhavam a comunidade local, por sorte estavam ausentes, o que evitou uma tragédia ainda maior. “Os missionários estão a salvo, mas a comunidade permanece em choque”, adianta o Bispo.

Pedimos atenção e solidariedade para com as vítimas de Meza. Já vamos perto de nove anos que queimam capelas e igrejas na Diocese de Pemba. Mas a fé deste povo de Deus nunca será queimada. Ela reconstrói-se diariamente.”

"Ninguém está em paz"

Os terroristas têm atacado com muita frequência as comunidades cristãs. Exemplo disso, está na memória de todos, foi o ataque de 6 para 7 de Setembro de 2022, na missão de Chipene, na Diocese de Nacala, contígua a Cabo Delgado. Nesse ataque, os terroristas assassinaram a tiro a Irmã Maria de Coppi, cujo processo de beatificação vai começar no próximo ano. Tal como ela há centenas de mártires em Moçambique.

A Irmã Ermelinda Singua, Superiora das Irmãs da Imaculada Conceição, conhece de perto este sofrimento. Durante a recente passagem por Portugal, a religiosa falou à Fundação AIS sobre a realidade dramática que se vive no terreno.

Venho aqui precisamente para lamentar [os ataques] e pedir a vossa ajuda, para rezarem por nós, porque a situação que vivemos na zona norte do país, principalmente em Cabo Delgado, com essas destruições, matanças, tudo isso, ninguém está em paz. Quero dizer muito obrigada a todo o povo Português pelo apoio que tem dado, não só a Cabo Delgado, mas também a todos os Moçambicanos. Muito obrigada e que Deus vos abençoe.”

Há famílias separadas. Os campos agrícolas foram abandonados e, em muitas zonas, a fome começa a tornar-se mais uma ameaça. A Igreja Católica continua, apesar de tudo, a desempenhar um papel fundamental junto das populações. Em muitos locais, as missões tornaram-se centros de acolhimento para deslocados, pontos de distribuição de ajuda alimentar e espaços de apoio psicológico para vítimas traumatizadas pela violência.

A Igreja em Cabo Delgado precisa de si!

"Não estais sozinhos"

Em Dezembro, durante a visita do Cardeal Pietro Parolin à Diocese de Pemba, em representação do Papa Leão XIV, D. António Juliasse apresentou um retrato dramático da violência jihadista no norte de Moçambique.

Numa altura em que a região enfrenta uma nova vaga de ataques, com milhares de pessoas em fuga, o Cardeal Parolin escutou de viva-voz testemunhos de pessoas que sofreram na pele o terror dos grupos armados ligados ao autoproclamado Estado Islâmico. Ouviu também padres e religiosas que continuam a cumprir a sua missão em lugares menos seguros, arriscando também aí a própria vida para permanecerem ao lado das populações.

D. António Juliasse acompanhou o secretário de Estado do Vaticano durante toda a visita e descreveu o encontro com os deslocados como muito emocionante e tocante.

O Cardeal Parolin saudou os deslocados quase um por um, apertando-lhes as mãos e abençoando as suas crianças, quase querendo abraçar cada um e tocar solidariamente as suas mais profundas feridas, para também participar do mesmo sofrimento e da mesma esperança.”

Ao longo da visita, o representante do Papa escutou de sacerdotes, religiosas, catequistas e deslocados o que significa viver a fé “num contexto de violência jihadista, uma Igreja perseguida, uma Igreja em sofrimento”.

Muitas das pessoas que se encontraram com o Cardeal tinham perdido tudo. Casas queimadas, aldeias destruídas, familiares assassinados e anos sucessivos de fuga passaram a fazer parte da vida quotidiana de milhares de famílias em Cabo Delgado. As muitas missões católicas continuam a chegar deslocados com fome, doentes e sem qualquer segurança.

“O Papa e a Igreja estão convosco”

O Cardeal Parolin deixou uma mensagem de proximidade às populações de Cabo Delgado: “Vim para vos dizer a todos, homens e mulheres do povo de Deus que caminha em Cabo Delgado, que não estais sozinhos! O Santo Padre e toda a Igreja una e universal estão convosco.”

Na mesma intervenção, destacou ainda “os testemunhos heróicos de fé de tantos irmãos e irmãs que permanecem fiéis a Cristo nestes tempos de dor e de prova, e também daqueles que foram mortos sem negar o nome de Jesus”.

Cardeal reconhece trabalho da AIS

Durante a visita a Pemba, o secretário de Estado do Vaticano referiu-se várias vezes à importância do trabalho desenvolvido pela diocese, apesar das enormes dificuldades materiais e humanas, sobretudo no acompanhamento pastoral e humanitário dos deslocados.

Foi também nesse contexto que reconheceu publicamente o papel da Fundação AIS no apoio às populações afectadas pela guerra.

Apercebi-me agora do papel que a Fundação AIS - Ajuda à Igreja que Sofre - está a desempenhar aqui. Estou muito satisfeito com isso. Felicitações e continuem realmente a apoiar e a ajudar estas comunidades que tanto necessitam. Temos verdadeiramente de manifestar-lhes a solidariedade da Igreja universal de uma forma muito concreta, e vós estais a fazê-lo.”

País prioritário para a Fundação AIS

O próprio Bispo da Diocese de Pemba fez também questão de sublinhar junto ao próprio secretário de Estado do Vaticano a importância desta ajuda internacional.

A Diocese de Pemba informou o cardeal a respeito dos donativos que recebe de parceiros, particularmente da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que tanto têm possibilitado amparar os mais necessitados, dentre tantos deslocados e outras vítimas da guerra.”

O Bispo reconheceu, contudo, que as ajudas globais têm vindo a diminuir, deixando um apelo urgente à solidariedade internacional e a uma “partilha generosa para que os mais necessitados possam ser socorridos”. A Igreja em Cabo Delgado precisa de si!

Enquanto a violência continua a marcar Cabo Delgado, a Igreja permanece no terreno, acompanhando as populações e tentando responder a uma crise humanitária que não pára de crescer. Todos os dias chegam novos deslocados às missões católicas. Muitos vêm sem nada, doentes, com fome e assustados, trazendo apenas o trauma da violência e o medo de perder novamente aquilo que lhes resta.

Graças à ajuda dos benfeitores, a Fundação AIS continua a apoiar a Igreja local através de projectos de emergência, ajuda humanitária, apoio pastoral e reconstrução de infraestruturas destruídas pelos terroristas. Tem sido possível apoiar sacerdotes e religiosas, distribuir alimentos, reconstruir capelas e igrejas, e garantir acompanhamento psicológico a vítimas profundamente traumatizadas pela guerra.

Notícias relacionadas:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *


The reCAPTCHA verification period has expired. Please reload the page.

918 125 574

Multibanco

IBAN PT50 0269 0109 0020 0029 1608 8

«Desde o início, a missão da Fundação AIS tem sido promover o perdão e a reconciliação, bem como acompanhar e dar voz à Igreja onde quer que ela se encontre em necessidade, onde quer que se sinta ameaçada, onde quer que sofra.»

PAPA LEÃO XIV

© 2024 Fundação AIS | Todos os direitos reservados.