O Padre Dayron Hernández participou recentemente num programa de televisão da Fundação AIS em Espanha e falou sobre a Igreja em Cuba, uma Igreja que continua a apoiar as pessoas no meio da profunda crise que afecta o seu país e que se reflecte nos constantes cortes de energia, na falta de alimentos, de medicamentos, e no desespero de milhares de famílias…
Também recentemente, o presidente da Conferência Episcopal Cubana dizia, em entrevista à fundação pontifícia, que o país atravessa “o momento mais triste”…
As crises energéticas em Cuba quase que deixaram de ser notícia por serem tão frequentes. No entanto, as populações têm de lidar com isso e sobreviver aos constantes cortes de energia eléctrica, que se têm intensificado desde Janeiro, quando o presidente dos Estados Unidos ameaçou impor tarifas aos países que venderem ou fornecerem petróleo à ilha. A situação é grave no plano humanitário, com a população a enfrentar falta de alimentos, de medicamentos e com os serviços básicos, desde a água potável ao saneamento, a serem profundamente afectados.
No dia 5 de Junho, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), responsável por coordenar respostas globais de emergência, alertou para a “deterioração das condições humanitárias” em Cuba, devido ao impacto da crise energética, agravada pelo endurecimento do bloqueio e das sanções dos EUA, e também em consequência dos recentes desastres naturais que atingiram a ilha.
“As condições humanitárias estão a deteriorar-se à medida que a crise energética se aprofunda”, afirma o organismo da ONU. Todo este cenário se agravou desde Janeiro, após a operação militar dos Estados Unidos na Venezuela e no afastamento do presidente Nicolás Maduro. Na sequência dessa operação, Cuba perdeu o fornecimento de combustíveis pela Venezuela, o que agravou significativamente a crise no país.
“Todos os serviços básicos, desde a água potável e saneamento à produção de alimentos e ao sector da saúde, estão a ser afectados pela falta de combustível e de electricidade”, explica a ONU. “Mais de 100 mil procedimentos cirúrgicos foram adiados devido à grave escassez de medicamentos e material médico”, acrescenta o organismo das Nações Unidas.
Uma Igreja que está presente
É neste contexto que o Padre Dayron Hernández falou recentemente sobre o trabalho da Igreja em Cuba, no programa de televisão da Fundação AIS em Espanha. O sacerdote refere que, no meio de todas estas dificuldades, a Igreja cubana permanece ao lado do povo e a levar conforto aos mais necessitados.
A coisa mais bonita e maravilhosa que a Igreja Católica faz em Cuba é estar sempre presente. E estar presente significa acompanhar, acolher, ouvir, apoiar com o pouco que temos e com quem somos.”
Padre Dayron Hernández
O sacerdote referiu que o povo cubano tem muita fé. “Alguém disse certa vez, citando o Cardeal Jaime Ortega, que os cubanos são como golfinhos, com a água até ao pescoço, mas sempre com a cabeça acima da água, e é verdade, graças a Deus. Somos um povo alegre que vive a sua fé com simplicidade e compromisso”, referiu o Padre Hernández.
Na breve entrevista, o sacerdote explica que o actual êxodo dos cubanos, que procuram uma vida melhor fora do país, afecta a missão da Igreja, mas tem-se revelado, no entanto, como um factor importante para a sobrevivência das famílias.
“A emigração é uma realidade que nos acompanha há várias décadas. Ela tem impacto, pois a Igreja precisa de se renovar constantemente. Muitas vezes, muitos dos agentes pastorais formados pela Igreja emigram posteriormente. Mas não podemos ver isso apenas em termos negativos. Há também riqueza nisso. Aqueles que partem levam a Igreja para outras partes do mundo. São os leigos e sacerdotes formados pela Igreja cubana que tornam Cristo presente em outros lugares, com toda a sua riqueza”, disse o sacerdote à Fundação AIS de Espanha, lembrando que este fluxo migratório tem significado também um apoio precioso às famílias cubanas e à própria Igreja.
“Também é verdade que eles têm oferecido um apoio económico significativo. Graças a alguns deles e às comunidades às quais se uniram, a Igreja Católica em Cuba consegue manter diversos projectos sociais e pastorais. Um padre amigo meu costumava dizer que, muitas vezes, ‘a Igreja precisa recomeçar, mas nunca do zero’. É uma Igreja que se renova constantemente”, afirmou.
Em conclusão, o Padre Hernández diz que, mesmo no meio de todas as dificuldades, há sempre esperança quando se olha para o futuro. “Acredito que uma das maiores virtudes da Igreja Católica em Cuba é que ela sempre esteve ao lado do povo, acompanhando-o, servindo-o e amando-o. Em cada gesto, em cada celebração, a Igreja sempre amou este povo. Todo o povo, não apenas aqueles que fazem parte dela, mas todo o povo.”
O testemunho do Bispo de Santa Clara
As palavras deste sacerdote reforçam o testemunho de D. Arturo González Amador, bispo de Santa Clara e presidente da Conferência Episcopal Cubana. Em entrevista à directora de comunicação internacional da Fundação AIS, o prelado afirmou que “Cuba sofre”, e que este “é o momento mais difícil e triste da história” do seu povo.
“Tudo é uma luta pela sobrevivência. O presente é inseguro, o futuro totalmente incerto”, acrescentou. “A cada dia que passa, sentimos que é mais difícil viver, sobretudo para os pobres, os idosos que vivem sozinhos, os reformados e as mães solteiras”, explicou o prelado. “Há pessoas que chegam a dizer que estão sem comer durante dias e que não sabem a quem recorrer. Os alimentos não podem ser conservados por falta de electricidade e, ultimamente, é comum ver pessoas a desmaiar durante as celebrações, porque muitas pessoas não comeram”, relatou.
A situação sanitária é especialmente alarmante e foi também referida pelo bispo. Segundo D. Arturo, “em alguns hospitais importantes não estão a realizar-se operações por falta de água, para não falar dos materiais cirúrgicos”. Muitas famílias têm de arranjar por conta própria os materiais médicos básicos para poderem receber cuidados de saúde. “Conheço mais do que um caso em que uma pessoa teve de procurar junto de familiares ou amigos no estrangeiro todos os recursos para poder ser operada, incluindo o fio de suptura”, explicou.
A crise reflecte-se abundantemente em histórias dramáticas do quotidiano dos cubanos. O bispo conta o caso de uma cantina que atende mais de 300 pessoas e que recentemente teve de improvisar porque não lhes chegava o que tinham cozinhado. “As irmãs disseram: ‘Vamos usar o que nos sobrar’. Então, misturaram latas de feijão preto e branco para poderem oferecer mais pratos. As pessoas vêem isso, vêem que a Igreja partilha, dá o que tem”, afirma. “É uma prova evidente do que a providência de Deus e a caridade cristã são capazes de fazer.”
Para o bispo, esta caridade simples e silenciosa tem um enorme valor evangelizador. “O dia em que uma freira ou um padre morrer de fome ou por falta de um medicamento é o dia em que já não restará ninguém vivo, porque todos partilham o pouco que têm”, afirma. “É muito bonito que esta ajuda, a caridade, se realize sem manipulação de partes, simplesmente graças a pessoas que querem ajudar. E também se vê a gratidão daqueles que a recebem”.
“Não se esqueçam de Cuba”
Ainda assim, apesar de todas as dificuldades, o Bispo destacou a fidelidade daqueles que permanecem. “Embora muitos partam da ilha, a Igreja fica; o povo reconhece e agradece esta escolha”.
Por fim, D. Arturo González Amador pediu aos benfeitores e amigos da Fundação AIS para não se esquecerem de Cuba. “Acredito profundamente no poder da oração”, afirma. E pede também apoio para sustentar a vida espiritual das religiosas, dos religiosos e dos sacerdotes, bem como para as obras de caridade, os materiais pastorais, a evangelização, a impressão de literatura religiosa e o transporte. “Não se pode resolver tudo, mas qualquer ajuda conta. O povo de Cuba sofre e a Igreja faz parte desse povo”, conclui.
A situação neste país é seguida com atenção e preocupação pela Fundação AIS desde há vários anos. Exemplo disso, em 2024, o secretariado espanhol da fundação pontifícia lançou uma campanha, “Consigo, nada é impossível”, de apoio à obra evangelizadora que a Igreja Católica está a realizar em Cuba no contexto da profunda crise económica que já se faz sentir há algum tempo.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt







