José Luis Bazán, académico e especialista em direitos humanos e perseguição anticristã, que colaborou na elaboração do mais recente Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo da Fundação AIS, está preocupado com o número de igrejas atacadas na Europa e na América.
Ainda recentemente, o escritor norte-americano Robert Royal alertou em Portugal para os crimes de ódio cada vez mais frequentes no Velho Continente. Os incêndios criminosos de edifícios religiosos em França são apenas um exemplo disso…
O número de igrejas atacadas ou vandalizadas na Europa e na América continua a aumentar, mas os cristãos carecem frequentemente de instrumentos legais para combater a discriminação e a perseguição. Os cristãos sofrem perseguição e restrições à sua liberdade religiosa em muitas partes do mundo, com um aumento da violência e da hostilidade em África e na Ásia. No entanto, também a Europa e a América enfrentam problemas, e as autoridades governamentais tendem a não tomar medidas.
Todos os anos ocorrem, em média, mil ataques contra igrejas em França. Na sua maioria, trata-se de actos de vandalismo, mas também há muitos casos de incêndios provocados. Também se têm registado centenas de ataques nos Estados Unidos: 371 só desde que o Supremo Tribunal derrubou o precedente de ‘Roe contra Wade’ em 2022.”
José Luis Bazán
Ataques também na Bélgica e Alemanha
Também vários países da América Latina sofreram, nos últimos anos, um aumento dos ataques a locais cristãos. “Cerca de 300 igrejas no Chile sofreram ataques incendiários entre 2013 e 2024, na sua maioria por parte de activistas de extrema-esquerda”, afirma Bazán. “Todos os anos, por volta do dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, centenas de igrejas – repito, centenas – em Espanha e na América Latina são alvo de grafitis e vandalismo por parte de feministas radicais, com expressões de ódio como “’ única igreja que ilumina é aquela que arde’”, diz.
Em alguns casos, a hostilidade tornou-se sistémica à medida que o secularismo foi tomando conta de nações outrora cristãs, como a Bélgica, onde ocorrem cerca de 200 ataques por ano, ou a Alemanha, que registou 111 ataques em 2024, mais 20% do que no ano anterior.
Apesar de este tipo de violência contra os cristãos se estar a tornar tão comum que pode ser descrito como uma tendência, as autoridades não estão a fazer quase nada para proteger as vítimas, afirma Bazán.
A União Europeia tem um coordenador para o antissemitismo e outro para o ódio antimuçulmano. Também a ONU criou recentemente um cargo para o ódio antimuçulmano, tal como o que já existia para o antissemitismo. Por que razão não há um representante da ONU para o ódio anticristão? Carecemos de instrumentos políticos nos âmbitos da UE e das Nações Unidas”
José Luis Bazán
Maioria não denuncia discursos de ódio
“Parte-se do princípio de que somos a maioria e que, por isso, por definição, não podemos ser oprimidos nem atacados. No entanto, existem subcategorias, pois há pessoas e instituições atacadas e sabemos que as minorias também podem ser agressivas e atacar as maiorias”, acrescenta. No entanto, José Luis Bazán também indica que, em parte, a culpa recai sobre os próprios cristãos, por não denunciarem oficialmente estes factos.
“Um inquérito realizado em Espanha entre padres católicos revelou que muitos deles sofreram ataques físicos ou verbais, mas que a maioria não os denunciou, talvez considerando que devem aceitá-los como parte do sacrifício do ministério. O problema é o mesmo para os leigos: a maioria dos cristãos, a menos que se trate de um crime muito grave, não denuncia os discursos de ódio, ao contrário do que fazem outras comunidades religiosas. Por exemplo, a comunidade muçulmana britânica elaborou um manual sobre como denunciar, com exemplos do que deve ser denunciado, incluindo infrações leves”, explica José Luis Bazán.
Creio que temos muito a aprender, porque os líderes políticos elaboram leis e políticas com base em casos oficialmente denunciados e não em conjecturas”
José Luis Bazán
O Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, da Fundação AIS, que contou com a colaboração de José Luis Bazán, revela que cerca de dois terços da população mundial vivem em países com grandes restrições à liberdade religiosa. Este relatório é publicado pela Ajuda à Igreja que Sofre de dois em dois anos.
“França tem um problema”, diz Robert Royal
A questão dos crimes de ódio e da perseguição aos cristãos na Europa e nas Américas foi abordado em Portugal em Abril, durante a apresentação do mais recente livro de Robert Royal, “Os Mártires do Novo Milénio”. O autor, norte-americano, lembrou o que se passa em França como exemplo da violência anticristã no Velho Continente.
“A França, que obviamente tem um problema islâmico devido à imigração, perde dois edifícios religiosos todos os meses por causa de incêndios. E isto acontece mesmo que o governo francês tome medidas para tentar proteger esses edifícios. E claro, há coisas semelhantes que acontecem na Alemanha, na Itália, em Espanha. Rezo a Deus para que isso não aconteça com frequência aqui em Portugal”, disse Robert Royal em Lisboa, no Palácio da Independência, perante dezenas de pessoas que assistiram ao lançamento do seu livro.
A sessão, que contou com a participação do advogado Ribeiro e Castro, do editor Henrique Mota, e de Catarina Martins de Bettencourt, directora da Fundação AIS em Portugal, permitiu detalhar o que tem sido a perseguição global aos cristãos neste século XXI.
Um apelo à acção dos governos
Ribeiro e Castro, presidente da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, em cuja sede, em Lisboa, decorreu o evento, lembrou que a realidade descrita no livro de Robert Royal assim como nos vários relatórios publicados regularmente pela Fundação AIS, exige uma resposta. O desafio, disse é, sensibilizar responsáveis políticos, governos, deputados, dirigentes comunitários, jornalistas, estruturas eclesiais…
A ideia é sair da apatia, e “conseguir que os governos dos países com comunidades cristãs relevantes adoptem a denúncia e o combate à perseguição internacional aos cristãos como um dos temas da sua política externa e internacional”, referiu Ribeiro e Castro.
Uma Petição para recordar o Artigo 18º
Uma das formas de denunciar a perseguição aos cristãos é através da petição lançada também pela Fundação AIS a nível internacional no final do ano passado. Tal como aconteceu durante a apresentação do livro de Robert Royal e em todas as dioceses onde a Fundação AIS tem vindo a divulgar o mais recente Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, os portugueses são convidados a assinar a Petição.
Trata-se de uma iniciativa global da Ajuda à Igreja que Sofre e que é dirigida ao Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, ao Presidente do Conselho Europeu, António Costa, ao Alto-Comissário para os Direitos Humanos, Volker Türk, à Assembleia Geral da ONU e aos líderes de governos democráticos, assim como embaixadores e representantes diplomáticos.
O documento, recordando o Artigo 18º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, redigido em 1948, apela à “protecção urgente e à contínua promoção do direito fundamental à liberdade de pensamento, consciência e religião em todo o mundo”. Um apelo que ontem foi respondido por dezenas de pessoas que deram o seu nome em defesa da liberdade religiosa no mundo.
Filipe D’Avillez e Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt




