BÓSNIA: Estátua da Virgem Maria vandalizada em Medjugorje é o caso mais recente de uma onda de profanações

Desde Espanha até aos EUA, várias igrejas foram vandalizadas nos últimos três meses. Embora os ataques pareçam não estar relacionados entre si, demonstram que a liberdade religiosa não deve ser dada como garantida, mesmo em países de maioria cristã. Exemplo disso, o popular santuário europeu de Medjugorje, na Bósnia, foi vandalizado e profanado na madrugada desta terça-feira.

Já em Abril, a questão do vandalismo em igrejas e símbolos cristãos foi denunciada pelo escritor norte-americano Robert Royal, no lançamento em Portugal do seu livro “Os Mártires do Novo Milénio”.

A profanação e vandalização, na passada terça-feira, dia 28 de Julho, de uma estátua da Virgem Maria no santuário de Medjugorje, na Bósnia, foi uma notícia que correu mundo e deu origem a uma investigação pelas autoridades locais.

Este caso é o mais recente de uma onda de ataques contra igrejas em vários países da Europa e das Américas, envolvendo actos de vandalismo, profanação, fogo posto ou roubo, o que suscita preocupação quanto a um padrão crescente de ataques contra locais de culto cristãos. Embora as circunstâncias e as motivações por trás de cada caso variem, todos têm um elemento em comum: as igrejas e os símbolos religiosos cristãos foram deliberadamente visados.

A sucessão de incidentes alarmou as comunidades locais e renovou a preocupação quanto à crescente hostilidade para com os locais de culto, mesmo em países onde os Cristãos constituem a maioria da população. De acordo com informações recolhidas pela Fundação AIS Internacional a partir de notícias locais, ocorreram incidentes em Espanha, França, Itália, Alemanha, Irlanda do Norte, Bélgica, Colômbia, Nicarágua, Polónia, México, República Dominicana e EUA.

Nicarágua, França, Bélgica e Alemanha

Na Nicarágua, um país onde a Igreja tem sofrido graves perseguições a nível estatal nos últimos anos, uma igreja foi assaltada duas vezes na Diocese de Estelí, nos dias 13 e 16 de Junho. Os ladrões levaram instrumentos musicais e mobiliário, mas também destruíram uma imagem de Jesus na Paróquia de Francisco de Assis. O Padre Muñoz lamentou o ocorrido e afirmou que o incidente revela uma perda de valores e de respeito pelo sagrado. O sacerdote acrescentou que os responsáveis pelo crime desconheciam a sacralidade da casa de Deus e salientou que também tinham roubado uma botija de gás.

Outro incidente muito perturbador ocorreu no sudoeste de França, onde indivíduos invadiram uma igreja em Mugron e roubaram o Santíssimo Sacramento do sacrário. A invasão ocorreu entre 14 e 17 de Junho e está a ser investigada pelas autoridades. Um crime semelhante ocorreu entre 5 e 6 de Julho na Igreja de São Pedro e São Paulo, em Lille, de onde foram roubados objectos litúrgicos e o sacrário com hóstias consagradas. A 5 de Julho, um homem foi detido por ter entrado na Igreja de Santo Estêvão, em Mulhouse, e ter vandalizado o crucifixo do altar, vários bancos e confessionários. O homem foi posteriormente detido e considerado inimputável pelas autoridades.

Estes foram os mais recentes de uma longa série de incidentes envolvendo igrejas em França, onde os ataques incendiários a igrejas católicas se tornaram relativamente frequentes. A 12 de Junho, apenas alguns dias antes da profanação em Mugron, duas igrejas foram parcialmente destruídas por incêndios, na Bretanha e no Gers, e alguns dias depois, a 24 de Junho, uma toalha de altar foi incendiada numa igreja em Val d’Oust.

Foram registados ataques incendiários semelhantes na Bélgica a 8 de Junho, na Itália a 16 de Junho, na Irlanda do Norte a 28 de Junho e na Alemanha a 29 de Junho. Anteriormente na Alemanha, a 22 de Junho, um homem foi detido por ter causado danos graves a um órgão e a obras de arte sacra numa igreja em Friesoythe.

México, Espanha e Polónia

A Diocese de Saltillo, no México, também registou um caso de roubo do Santíssimo Sacramento do sacrário a 12 de Junho, embora, neste caso, pareça que os criminosos estivessem interessados nos vasos litúrgicos, e não na própria Eucaristia, uma vez que abandonaram as hóstias consagradas nas proximidades. O bispo local apelou à oração e ordenou um acto de reparação antes de a igreja poder voltar a ser utilizada.

Mais recentemente, a 12 de Julho, criminosos invadiram três igrejas diferentes na Diocese de Santo Domingo, na República Dominicana, e arrombaram o sacrário para roubar vasos sagrados, deixando as sagradas espécies espalhada pelo chão e sobre o altar.

Também ocorreram actos de vandalismo em Espanha. Na Catalunha, um grupo de jovens invadiu a Igreja de Nossa Senhora da Paz, em Òdena, a 19 de Maio, causando graves danos materiais no interior, profanando o altar e uma Bíblia, roubando objectos de metal, incluindo instrumentos, e pintando grafíti nas paredes. O acto indignou os residentes locais, que ficaram ainda mais consternados quando as autoridades optaram por selar a igreja, para evitar mais problemas, em vez de reforçar a segurança.

A 8 de Junho, um jovem foi detido após ter vandalizado e profanado a Igreja da Assunção, em Łubów, na Polónia. Aparentemente embriagado, o homem urinou no chão da igreja e danificou vários objectos religiosos.

Colômbia e Estados Unidos

Um ataque mais grave ocorreu na Colômbia, no Domingo, 21 de Junho, onde um grupo armado desconhecido utilizou drones para lançar explosivos contra uma igreja cristã no norte do país. Um rapaz de 10 anos foi morto no ataque, que também deixou cinco pessoas feridas. O norte da Colômbia é uma das regiões mais gravemente afectadas pela violência interna, mas o motivo do ataque é desconhecido.

Ainda na Colômbia, mas na cidade de Cali, um homem causou graves danos à capela de La Ermita, partindo estátuas e destruindo valiosas obras de arte sacra, no dia 6 de Maio. O autor do crime, de 27 anos, foi rapidamente detido, e as autoridades acreditam que estaria a sofrer um surto psicótico, mas a população local ficou em estado de choque e angústia devido aos danos causados pela sua agressão.

No mesmo dia, mas em Oakland, na Califórnia, agressores desconhecidos danificaram a Igreja de São Columba, partindo crucifixos e outras imagens religiosas e chegando mesmo a danificar uma fonte que tinha sido erigida em memória de seis estudantes irlandeses de intercâmbio que morreram num acidente em 2015. A Conferência Episcopal dos EUA mantém uma lista desses incidentes, que é actualizada periodicamente.

Os Relatório da Fundação AIS

A onda de ataques confirma o alerta feito pelo especialista em liberdade religiosa José Luis Bazán, um dos autores do Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo da Fundação AIS, de que a liberdade religiosa e o direito à liberdade de culto não são factores garantidos, mesmo em países de maioria cristã.

Embora estes incidentes difiram em natureza e gravidade, a sua frequência num período tão curto suscita preocupação quanto à protecção dos locais de culto e ao respeito pelas crenças religiosas. Servem também para lembrar que as ameaças à liberdade religiosa podem manifestar-se através de ataques repetidos a comunidades religiosas e aos seus espaços sagrados nos países ocidentais.

Num discurso proferido no Parlamento espanhol a 8 de Junho, o Papa Leão XIV salientou que “a liberdade de pensamento, de consciência e de religião” é “uma questão decisiva para toda a sociedade verdadeiramente democrática”. Referiu ainda que um Estado autêntico “reconhece a dimensão religiosa da pessoa” e, por isso, “não só a respeita, como também a protege”.

Os recentes ataques a igrejas em toda a Europa e nas Américas servem para nos lembrar que salvaguardar a liberdade religiosa implica não só proteger o direito de crer, mas também garantir que os locais de culto sejam respeitados e protegidos.

Os alertas de Robert Royal em Portugal

Esta questão, da violência contra as comunidades cristãs e dos ataques deliberados a Igrejas e símbolos religiosos na Europa foi tema que mereceu destaque em Abril, em Lisboa, durante o lançamento do livro “Os Mártires do Novo Milénio”.

O autor, o escritor norte-amerciano Robert Royal, alertou mesmo para o que sucede em França onde, diz, “há um problema islâmico devido à imigração”. Segundo Royal, a França “perde dois edifícios religiosos todos os meses por causa de incêndios”. E isto acontece – acrescentou –, “mesmo que o governo francês tome medidas para tentar proteger esses edifícios”. O que se passa em França é semelhante, advertiu também, ao que sucede na Alemanha, Itália e Espanha. “Rezo a Deus para que isso não aconteça com frequência aqui em Portugal”, disse Robert Royal.

Na sessão de apresentação do livro participou Ribeiro e Castro, antigo dirigente do CDS e deputado no Parlamento Europeu. O político deixou o desafio para que a questão da perseguição aos cristãos ganhe espaço no debate e na agenda política na Europa. O desafio, disse é, sensibilizar os dirigentes e “conseguir que os governos dos países com comunidades cristãs relevantes adoptem a denúncia e o combate à perseguição internacional aos cristãos como um dos temas da sua política externa e internacional”, afirmou Ribeiro e Castro, lembrando que a Fundação AIS produz regularmente informação sobre estes temas.

Hoje existe muita informação sobre a perseguição a cristãos no mundo. Não são só os livros de Robert Royal, mas também a actividade extraordinária da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que organiza e realiza, há muitos anos, a recolha mundial de informação e promove a sua divulgação, o que é muito importante. Não é demais aplaudir o trabalho que esta fundação faz.”

Filipe D’Avillez, Maria Lozano e Paulo Aido

Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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