Homens armados ainda não identificados assassinaram a tiro na noite de segunda-feira, 29 de Junho, o Padre Crépin Monga. O crime ocorreu em Zémio, uma região assolada por muita violência. Para o Bispo de Bangassou, D. Aurélio Gazzera, que assumiu formalmente os destinos da diocese cinco dias antes, após renúncia de D. Juan Aguirre, a morte deste sacerdote – cujo funeral deverá acontecer hoje, dia 1 Julho, em Bangassou – “é uma perda tremenda” para a comunidade local. Já em Janeiro o prelado alertava para a situação humanitária alarmante nesta região da República Centro-Africana.
Homens armados ainda não identificados assassinaram a tiro na noite de segunda-feira, dia 29 de Junho, o Padre Crépin Martial Monga, vigário da paróquia de São João Baptista, situada na região de Zémio, no leste da República Centro-Africana. O Bispo de Bangassou afirmou já tratar-se de uma “perda tremenda para a comunidade local e para a diocese”.
Numa breve declaração ao telefone para o canal TV2000, da Conferência Episcopal italiana, D. Aurélio disse que o Padre Crépin “provavelmente não foi morto por acaso, mas porque estava a fazer uma obra de paz”. Na notícia é referido também que “homens armados entraram aos tiros” no complexo paroquial da igreja de São João Baptista, em Zémio, “e mataram o padre”, num contexto de tensão entre o exército governamental e mercenários russos “do grupo Wagner”, assim como de lutas étnicas e de competição pela posse de território.
Noutra declaração, citado pela Secam, organismo das Conferências Episcopais de África e Madagáscar, D. Aurélio Gazzera reconhece que o Padre Crépin “trabalhou muito, muito, muito pela paz e reconciliação em Zémio e na região”. Na sua página nas redes sociais, o Bispo de Bangassou – que assumiu na plenitude os destinos da diocese cinco dias antes, após renúncia de D. Juan Aguirre, e de um período de dois anos em que foi coadjutor – pode ler-se também uma carta de homenagem ao sacerdote assassinado. Nesse documento, assinado pelo Padre Jean-Marie Muanda, é referido que o Padre Crépin “trabalhou incansavelmente” e dedicou-se “de corpo e alma à paz e reconciliação em Zémio”. No texto refere-se ainda que o sacerdote agora assassinado é “testemunha do Evangelho” e que a sua vida vai dar “frutos em paz e reconciliação duradoura nesta terra da África Central”.
O funeral do Padre Crépin deverá acontecer hoje, dia 1 de Julho, na Catedral de Bangassou, depois de o corpo ter sido transportado de motorizada e de automóvel “por estradas terríveis”, segundo D. Aurélio, numa viagem muito longa de aproximadamente 13 horas.
Mais de 20 mil deslocados
A violência em Zémio há muito que vinha a suscitar a preocupação da Igreja. Em Janeiro, D. Aurélio Gazzera afirmava que havia já na região cerca de 20 mil deslocados internos, dos quais mais de 2 mil estavam em pobreza extrema. A alimentação destas pessoas, assim como as questões relacionadas com a educação e a saúde preocupavam já seriamente o prelado.
Citado pela Agência Fides, do Vaticano, D. Aurélio Gazzera explicou então que “a região de Zémio, assim como Mbomou, Haut-Mbomou e Boki, sofre há mais de 15 anos com a violência perpetrada por grupos armados como o LRA (Exército de Resistência do Senhor, grupo oriundo do Uganda e que se estabeleceu na área), os Séleka (nome dado a várias milícias que surgiram durante a guerra civil de 2012), a UPC (Unité pour la Paix en Centrafrique, um grupo formado em 2014 após uma cisão com os Séleka) e, agora, a milícia Azandé Ani Kpi Gbé (AAKG), que começou como um movimento para proteger a população, mas que acabou por criar mais problemas do que soluções”, referiu o Bispo.
A área afectada pela violência armada é uma região muito isolada do resto do país e praticamente sem infraestruturas, nomeadamente ao nível rodoviário. “Por exemplo, a estrada entre Bangassou e Zémio tem cerca de 300 km de extensão, mas leva pelo menos 16 ou 17 horas para percorrê-la”, disse ainda o Bispo Gazzera.
Um bispo parceiro, há muito, da Fundação AIS
A situação de violência na República Centro-Africana vem analisada em detalhe no Relatório da Fundação AIS sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, publicado em Outubro do ano passado. “Mais de uma década de conflito civil, alimentado por confrontos entre milícias anti-Balaka e predominantemente muçulmanas do Séléka, fracturou profundamente a confiança entre as comunidades cristã e muçulmana”, afirma-se em jeito de conclusão no que diz respeito à liberdade religiosa.
D. Aurélio Gazzera é parceiro de projectos da Fundação AIS desde há vários anos. O prelado, que esteve em Portugal em 2015 para a apresentação do Relatório sobre a Liberdade religiosa no Mundo, falou sobre a ajuda que tem recebido da fundação pontifícia numa mensagem vídeo enviada para Lisboa em Janeiro de 2022, desde a igreja de Baoro, Gazzera – o então Padre Aurélio Gazzera – disse que por ali, pela República Centro-Africana, havia sempre muito trabalho a fazer e que era “sempre necessária a ajuda de todos”.
“A presença e o apoio da AIS e de tantos outros permite-nos trabalhar, mas sobretudo dar passos em frente, quer na formação dos jovens, quer no empenho que temos com as escolas. Só aqui temos nove escolas com mais de duas mil crianças, seis creches e o mesmo acontece nas outras Missões. O trabalho é mesmo muito e é mesmo necessário o empenho de todos: na oração, material e económico e ao nível da informação – no compreender o que acontece nesta parte do mundo, que parece sempre longínqua, mas o mundo é pequeno”, afirmou.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt







