R. C. AFRICANA: D. Aurélio Gazzera alerta para alarmante crise humanitária na região de Zémio, com milhares de deslocados

A situação humanitária na zona de Zémio, na República Centro-Africana, atingiu níveis alarmantes, denunciou D. Aurélio Gazzera. O bispo coadjutor de Bangassou diz que o número de deslocados internos na região é de cerca de 30 mil, dos quais mais de 2 mil vivem em pobreza extrema. A alimentação destas pessoas, assim como as questões relacionadas com a educação e a saúde preocupam seriamente o prelado.

Nos últimos tempos, por causa da violência de grupos armados, tem-se agravado a crise humanitária na região de Zémio, na República Centro-Africana, com o Bispo coadjutor de Bangassou a alertar para o número de deslocados internos, cerca de trinta mil, dos quais mais de dois mil vivem mesmo em situação de pobreza extrema.

Citado pela Agência Fides, do Vaticano, D. Aurélio Gazzera explica que “a região de Zémio, assim como Mbomou, Haut-Mbomou e Boki, sofre há mais de 15 anos com a violência perpetrada por grupos armados como o LRA (Exército de Resistência do Senhor, grupo oriundo do Uganda e que se estabeleceu na área), os Séleka (nome dado a várias milícias que surgiram durante a guerra civil de 2012), a UPC (Unité pour la Paix en Centrafrique, um grupo formado em 2014 após uma cisão com os Séleka) e, agora, a milícia Azandé Ani Kpi Gbé (AAKG), que começou como um movimento para proteger a população, mas acabou criando mais problemas do que soluções”, referiu o Bispo.

A área afectada pela violência é uma região muito isolada do resto do país e praticamente sem infraestruturas, nomeadamente ao nível rodoviário. “Por exemplo, a estrada entre Bangassou e Zémio tem cerca de 300 km de extensão, mas leva pelo menos 16 ou 17 horas para percorrê-la”, explica o bispo Gazzera.

Estradas inseguras, hospitais atacados

Em relação à ajuda humanitária para estas populações, o prelado assegura que se tem procurado fazer o envio de alimentos e outros bens essenciais, através da colaboração de parceiros, como a Cáritas, “mas o verdadeiro problema é fazer com que a ajuda chegue ao seu destino”, sublinhando que já é difícil fazer com que essa ajuda chegue a Bangassou.

De Bangassou a Zémio, o estado das estradas e a insegurança na região representam enormes dificuldades para o transporte, também porque existem receios justificados de que a situação possa deteriorar-se ainda mais. Já houve casos de trabalhadores de ONG’s que viajavam por essa estrada e foram atacados.”

A situação é de facto grave e, segundo D. Aurélio Gazzera, nem mesmo as poucas unidades de saúde existentes na região escaparam à violência. “O hospital de Mbomou foi atacado por militantes que procuravam soldados feridos que acreditavam estar a ser tratados lá”, relata o Bispo.

Entretanto, em declarações à Rádio Guira, a emissora ao serviço da Minusca, a Missão das Nações Unidas na República Centro-Africana – que conta com a participação de forças militares portuguesas – o Bispo coadjutor de Bangassou reconhece que houve um agravamento da violência e que isso fez “com que ainda mais pessoas fugissem”.

A esta rádio, o prelado explicou que as necessidades principais são com a alimentação, saúde e educação. E enfatiza mesmo esta questão. “O maior problema com a educação é que as pessoas fugiram. Por exemplo, em Novembro, havia 72 alunos no ensino médio público em Zémio, enquanto no ano passado havia 992. Portanto, a situação escolar é muito grave; há um risco real de se perder todo o ano lectivo”, explicou.

Um país a ferro e fogo, diz missionário português

A situação de violência na República Centro-Africana também foi destacada pelo Padre Tony Neves, conselheiro geral da Congregação do Espírito Santo que está a realizar um périplo por alguns países neste continente.

Num artigo publicado recentemente no Vatican News, o missionário diz mesmo que o país “continua a ferro e fogo”. “Como em todas as guerras, quem sofre é o povo que é morto, torturado, deslocado, abusado. E, claro, a economia é destruída, ficando nas mãos de oportunistas que gerem tráficos de toda a espécie e ganham fortunas à custa da desgraça e da miséria das populações martirizadas. As forças internacionais, enviadas pela ONU e pela União Africana, tentam defender as populações em áreas mais sensíveis, mas não têm sido muito bem-sucedidas neste objectivo”, afirma o missionário português.

Perspectivas para a liberdade religiosa

A situação de violência na República Centro-Africana vem analisada em detalhe no Relatório da Fundação AIS sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, publicado em Outubro do ano passado. “Mais de uma década de conflito civil, alimentado por confrontos entre milícias anti-Balaka e predominantemente muçulmanas do Séléka, fracturou profundamente a confiança entre as comunidades cristã e muçulmana”, afirma-se em jeito de conclusão e como perspectiva de futuro para o país no que diz respeito à liberdade religiosa.

O documento refere que “os líderes religiosos locais continuam a desempenhar um papel crucial no diálogo e na prevenção de conflitos, mas os seus esforços são dificultados pela insegurança profundamente enraizada, pela repressão política e pela fragilidade das instituições”, pelo que as perspectivas “continuam negativas”.

A República Centro-Africana teve eleições presidenciais em Dezembro passado, tendo sido reeleito para o cargo, com uma larga maioria, Faustin Archange Touadéra. O resultado foi, no entanto, contestado pelas forças da oposição.

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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Alegações de discriminação e violência contra os Muçulmanos reforçam um sentimento de impunidade e suscitam receios de que alguns líderes oportunistas possam tirar partido de sentimentos de estigmatização e alienação em grupos muçulmanos para fomentar o extremismo. O pleno gozo da liberdade religiosa pelos cidadãos da RCA é novamente posto em causa e deve ser mantido sob observação.

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