SÍRIA: “Perdoar significa dar lugar no coração a Deus”, diz D. Jacques Mourad, sobre o tempo em que esteve em cativeiro

O Arcebispo Católico de Homs é uma figura de grande prestígio na Síria e olhado com muito respeito não só pela comunidade cristã mas também pelos muçulmanos. A isso não será alheio o facto de ter sido raptado em 2015 por jihadistas no mosteiro de Mar Elian, onde vivia. Agora, recorda esses tempos de cativeiro e fala da necessidade de aprendermos a perdoar. Em entrevista à Fundação AIS, D. Jacques Mourad alerta também para a urgência do apoio à comunidade cristã na Síria, que vive tempos dramáticos num país que está a atravessar uma profunda crise.

A Síria, tal como o Líbano e a Terra Santa estão no centro da Campanha de Natal deste ano da Fundação AIS. Uma campanha que é urgente para a própria sobrevivência das comunidades cristãs que vivem nesta região do globo, nestas terras bíblicas. Isso mesmo ficou agora bem plasmado na entrevista que o Arcebispo de Homs dos Sírios, eleito para este cargo em Janeiro deste ano, concedeu à Fundação AIS.

Para muitos, ele continua a ser apenas o padre Jacques Mourad, o monge que em 2015 foi sequestrado e mantido em cativeiro durante vários meses por jihadistas do autoproclamado Estado Islâmico.

E a memória desse tempo, a necessidade de perdoar, a compaixão que sentiu pelos próprios sequestradores, foram recordados nesta conversa em que fez questão de agradecer e destacar também toda a ajuda que a Fundação AIS tem canalizado para a Síria ao longo dos últimos anos. Uma ajuda que continua a ser imprescindível dada a situação trágica em que se encontra o país ainda a sofrer as consequências de uma guerra civil que dura já há mais de 12 anos e das sanções impostas ao regime de Bashar al-Assad pelos Estados Unidos e União Europeia.

OS MAIORES DESAFIOS

Quando se olha para a Síria, agora, no final de 2023, quais são as principais prioridades, quais são os maiores desafios? “Penso especialmente na educação, que atravessa uma crise muito séria e sensível”, responde o Arcebispo. “Todas as nossas crianças e jovens nas escolas e universidades são afectados. A educação é o futuro do nosso país, e crianças e professores têm o direito a um bom ambiente de trabalho, mas os salários dos professores – apenas 18 a 20 euros por mês – estão abaixo do nível da dignidade humana. Os desafios graves que o nosso país enfrenta são o resultado de sanções opressivas contra a Síria, que afectam directamente o povo, e da corrupção”, acrescenta.

Mas há outras fontes de preocupação para D. Jacques Mourad. A emigração em massa é um desses problemas.

Vemos famílias que deixam a Síria porque desejam garantir uma vida melhor para os seus filhos. Perderam a esperança e a confiança neste país, e não querem que os filhos vivam num país onde não estão seguros. Há também muitos jovens que optam por emigrar, e isso também gera problemas consideráveis. Como a maioria deles são homens, as jovens cristãs acabam por casar com muçulmanos e depois têm de se converter - é a lei. Muitas vezes, deixam para trás idosos que precisam de cuidados”

A IMPORTÂNCIA DA SOLIDARIEDADE

Para enfrentar todos estes problemas é necessária muita solidariedade. Agora, como bispo, D. Jacques Mourad compreende que não é possível fazer-se tudo para todas as pessoas em todos os lugares. Faltam meios, faltam recursos.

“Temos uma grande responsabilidade. No entanto, não podemos ajudar em todos os lugares. Nestes poucos meses como bispo, tenho notado quão frágeis e impotentes somos como Igreja e como bispos. Concordo com o Papa, de que precisamos da ajuda dos leigos”, diz o prelado.

A sua longa experiência no contacto directo com as populações, com as famílias, o conhecimento que tem dos dramas dos sírios que enfrentam todos os dias o desafio da própria sobrevivência, empresta importância às suas palavras. “Não devemos apenas distribuir comida, mas também dar vida a vários projectos – escolas, música e arte, por exemplo – para que as pessoas sintam que têm o direito à vida. Esse tipo de ajuda pode ter o efeito de fazer as pessoas pararem de pensar em emigrar”, explica o Arcebispo.

A CAPACIDADE DE PERDOAR

Sobre a sua experiência de vários meses de cativeiro em 2015, D. Jacques Mourad fala da urgência do perdão, da necessidade do abandono nas mãos de Deus. E partilha as suas memórias.

Perdoar significa dar um lugar no nosso coração a Deus, para que Ele possa perdoar em nós. Como Jesus disse na Cruz: ‘Pai, perdoa-lhes!’. Cada vez que um terrorista entrava na casa de banho onde eu estava preso, sentia compaixão por ele. Embora também fosse confrontado com a raiva e outras emoções intensas, naquele momento não tinha tais sentimentos, apenas compaixão. Precisamos de muita humildade para aceitar que nós próprios não somos capazes de algo assim. Tudo o que somos capazes vem de Deus. Incluindo o perdão.”

O actual Arcebispo Católico de Homs fala mesmo, nesta entrevista à Fundação AIS, do que de mais importante ficou dos longos cinco meses de cativeiro. “A coisa mais importante que aprendi naquele tempo foi abandonar-me com confiança nas mãos de Deus. Desde que ando com o Senhor, tenho rezado a oração de Charles de Foucauld todos os dias, e os cinco meses como refém deram-me a oportunidade de a viver de forma muito concreta”, explica.

A AJUDA DA FUNDAÇÃO AIS

Sobre a ajuda que a Fundação AIS está a promover na Síria, Jacques Mourad destaca vários projectos, nomeadamente o que envolve a distribuição de “presentes a crianças e pessoas com deficiência neste Natal”, mas também, por exemplo, o auxílio à própria sobrevivência dos sacerdotes na Arquidiocese de Homs “com estipêndios de missa, a sua única fonte de rendimento”, e ainda o apoio, anual, “aos campos de férias para crianças, jovens, escuteiros e coros”.

“Estes campos – explica – desempenham um papel essencial na cura dos traumas da guerra e dos problemas psicológicos decorrentes da instabilidade e da pobreza que assolam o país.”

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

Relatório da Liberdade Religiosa

Mais de 11 anos após o início da guerra na Síria, o país continua a ser fortemente afectado. Embora os combates tenham diminuído significativamente e o autoproclamado Estado Islâmico tenha sido expulso como força territorial, a Síria continua dividida a nível regional, o que afecta profundamente a liberdade religiosa.

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