De visita a Espanha, Leão XIV ficou “consternado” ao receber a notícia do assassinato, no sábado, do Bispo de Quelimane. Também os bispos católicos de África falam em “choque, tristeza e indignação” face ao “crime bárbaro” que tirou a vida a D. Osório Citora Afonso.
A Fundação AIS Internacional, através do responsável de projectos para África, reafirma, numa mensagem enviada à Igreja de Moçambique, a proximidade da instituição pontifícia e lembra a “marca indelével” da “colaboração frutuosa” que aconteceu com a Diocese de Quelimane dirigida por D. Osório.
O Papa Leão XIV foi informado do assassinato do Bispo de Quelimane, em Moçambique, no sábado, dia 6, já em Espanha, no início da visita pastoral de 6 dias ao país vizinho. Numa nota de Imprensa publicada pelo Vaticano, é referido que o Santo Padre tomou conhecimento “com pesar do grave acto de violência que causou a morte”, nesse mesmo dia, de D. Osório Citora Afonso.
O Papa, pode ler-se ainda no referido texto da Sala de Imprensa da Santa Sé, “une-se em oração ao povo da diocese e de Moçambique neste momento de desorientação, para que o Senhor lhes conceda consolo, para que guarde em seu amor cada homem e cada mulher e detenha a mão dos violentos”.
As autoridades continuam a investigar o que aconteceu na madrugada deste sábado em Quelimane. Como a Fundação AIS já referiu, o corpo do bispo, baleado na zona do peito, junto ao coração, foi encontrado num corredor da casa episcopal, onde vivia. Os autores do crime terão escalado o muro da residência, vandalizado o sistema de segurança e efectuado disparos com recurso a uma arma de guerra descrita pelo Serviço Nacional de Investigação Criminal moçambicano (Sernic), como sendo uma metralhadora tipo AK-M.
Bispo de África falam em “crime bárbaro”
A morte do prelado provocou uma onda enorme de reações de pesar e de estupefação não só em Moçambique mas a nível internacional e com destaque evidente para o continente africano. Sinal disso, os Bispos Católicos de África emitiram ontem, domingo, uma declaração sobre o “crime bárbaro” que tirou a vida a D. Osório Afonso.
No documento, enviado para a Fundação AIS, e assinado pelo Cardeal Fridolin Ambongo, Arcebispo de Kinshasa, os bispos africanos falam em “choque, tristeza e indignação” face ao “crime bárbaro” ocorrido em Quelimane, que é um atentado à vida mas também aos “valores fundamentais da paz, da justiça, da dignidade humana e da liberdade religiosa”.
Os prelados apelam às autoridades moçambicanas para a realização de uma “investigação imediata, completa, transparente e independente sobre este crime”. Além disso, é exigido que todos os responsáveis, “autores directos, cúmplices ou mentores” do crime, sejam indentificados, processados e levados à justiça “sem demora”.
É também pedido um reforço das medidas de segurança e protecção dos líderes religiosos dos locais de culto e de todas as pessoas que em Moçambique se dedicam ao trabalho pastoral e humanitário.
A liberdade religiosa é um direito humano fundamental e um pilar de toda a sociedade democrática e pacífica. O Estado tem a solene responsabilidade de garantir que todos os cidadãos possam praticar a sua fé livremente e em segurança, sem receio de intimidação, violência ou perseguição”
Declaração dos Bispos Católicos de Africanos
Bispo de Tete lembra D. Osório
Posição semelhante foi tomada logo após ser conhecida a notícia do assassinato do Bispo de Quelimane pela Conferência Episcopal de Moçambique. Isso mesmo foi sublinhado, numa mensagem enviada para a Fundação AIS pelo Bispo de Tete. D. Diamantino Antunes, também ele missionário da Consolata, a mesma congregação religiosa a que pertencia D. Osório, diz que a notícia da “morte violenta” do Bispo de Quelimane, “deixou todos surpreendidos e apreensivos” e lembrou que os bispos de Moçambique esperam “que sejam apuradas quanto antes as razões do bárbaro assassinato”.
Mas D. Diamantino Antunes enfatiza também o significado deste crime para a Igreja num país marcado pela violência da guerra e, desde 2017, pela insurgência terrorista protagonizada pelo grupo Estado Islâmico.
Houve, no passado, sacerdotes e irmãs religiosas assassinados. Mas, pela primeira vez, um bispo é vítima da fúria assassina de pessoas de má vontade, inimigos do bem e das pessoas de bem”
D. Diamantino Antunes, Bispo de Tete
O responsável da Diocese de Tete descreve o malogrado bispo como sendo “jovem – tinha apenas 54 anos de idade – inteligente, alegre, com grande experiência internacional e eclesial”. E sobretudo, o Bispo de Tete lembra que D. Osório era seu “confrade e amigo”. Na mensagem, D. Diamantino Antunes sublinha ainda que o Bispo agora assassinado era também “amigo e contava muito com a ajuda da Fundação AIS para desenvolver a sua diocese”.
A mensagem termina com um pedido de orações por D. Osório Citora Afonso. “Tendo cumprido a sua missão, ele foi chamado a viver a glória do Senhor. Seja-lhe dado participar na eternidade reservada para os que foram amigos de Deus e fizeram a sua vontade. Rezemos pelo seu eterno descanso”, diz, a concluir, D. Diamantino Antunes.
Fundação AIS recorda “colaboração frutuosa”
A proximidade da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre com D. Osório Afonso é sublinhada na carta enviada ontem, domingo, para os responsáveis da Igreja moçambicana. Assinada por Ulrich Kny, um dos responsáveis de projectos para África da fundação pontifícia, a missiva destaca a “marca indelével” que o malogrado bispo deixou em todos os que “tiveram a grade sorte de colaborar com ele”, e que esta foi uma “colaboração muito frutuosa que nos permitiu participar em algumas das suas interessantes iniciativas em favor da Igreja em Moçambique”.
A carta reafirma o “choque” com que foi recebida a notícia do assassinato do Bispo, que deixa “um grande vazio”, não só na sua diocese como em toda a Igreja deste país africano de língua portuguesa. A Fundação AIS, acrescenta Ulrich Kny, deseja a toda a Igreja de Moçambique “muita força e bênçãos do Senhor para que possam continuar a conduzir os seus fiéis ao longo do caminho do Senhor”.
Visita à comunidade muçulmana
O assassinato do Bispo de Quelimane trouxe para a ordem do dia o seu papel como líder da Igreja e defensor da paz e do diálogo inter-religioso em Moçambique, país que atravessa uma onda de violência terrorista com especial incidência no norte do território, nas províncias de Cabo Delgado e de Nampula.
Ainda recentemente, após o violento ataque à missão católica de São Luis de Monfort, a 30 de Abril, D. Osório referiu que a “situação parece fora de controlo”. Citado pelo portal de notícias do Vaticano, o Bispo afirmou que “a população está com medo”.
As mulheres, em particular, estão a viver situações difíceis. Para além do que é noticiado, a destruição continua; muitas vítimas e cristãos foram mortos”
D. Osório Afonso , Bispo de Quelimane
Recorde-se que a onda de violência terrorista já causou, desde Outubro de 2017, mais de 6.200 mortos e mais também de 1 milhão e 330 mil deslocados.
Mas D. Osório foi também um militante da causa da paz e do diálogo entre religiões, e muito concretamente com a comunidade muçulmana. Sinal disso, ainda na semana passada, ou seja, dias antes de ter sido assassinado e no contexto de uma vista à paróquia de Nossa Senhora de África Mugogoda, D. Osório esteve na mesquita local e enfatizou a necessidade de entendimento entre todos, lembrando que em Moçambique “nunca houve conflito por causa da religião”.
Uma vida ao serviço da Igreja
D. Osório Afonso nasceu a 6 de Maio de 1972 em Ribaue, província moçambicana de Nampula, tendo frequentado o Seminário Preparatório Cristo-Rei e estudado Filosofia no Seminário Maior Santo Agostinho, na Matola (Maputo), e Teologia em Kinshasa, na República Democrática do Congo. Fez a profissão solene em 2001 no Instituto Missionário da Consolata, em Kinshasa, e foi ordenado sacerdote a 3 de Novembro de 2002. A 21 de Setembro de 2023, foi nomeado bispo auxiliar de Maputo, tendo recebido a ordenação episcopal a 28 de Janeiro de 2024. O Papa Leão XIV nomeou-o Bispo de Quelimane a 25 de Junho de 2025 e já em Abril deste ano, D. Osório Citora Afonso assumiu também a missão de administrador apostólico da Arquidiocese da Beira.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt







