O Cardeal Ernest Simoni, de 97 anos, voltou a celebrar Missa em Spaç, no antigo campo de prisioneiros onde cumpriu a pesada pena de prisão que o regime comunista da Albânia o condenou. O Papa Leão enviou uma mensagem em que fala desses tempos como “das páginas mais dolorosas” do país, onde muitos “carregaram a pesada cruz da injustiça”.
A história deste cardeal é exemplo maior do sofrimento que os cristãos passaram neste país em plena Europa que chegou a classificar-se como “o primeiro estado ateu do mundo”.
O Cardeal Ernest Simoni voltou a celebrar Missa em Spaç, no que foi o temível campo de prisioneiros, para onde o comunista de Enver Hoxha mandava os inimigos do regime. Foi na sexta-feira, dia 31 de Julho.
A celebração do cardeal, de 97 anos de idade, ficou marcada também pela leitura de uma mensagem enviada pelo Papa Leão, que fez questão de lembrar o sofrimento de todos os que passaram pelo temível local, que está “gravado na memória do povo”. O campo de prisioneiros de Spaç, disse o Santo Padre, “continua a ser uma das páginas mais dolorosas” da história da Albânia.
“Spaç foi um lugar onde muitos carregaram a pesada cruz da injustiça”, escreveu o Papa ao cardeal no texto que foi lido ao final da missa. O Pontífice lembrou que “o sangue daqueles que sofreram e morreram entre aquelas montanhas regou aquela terra, transformando-a num testemunho silencioso de fidelidade, coragem e esperança”. O Cardeal Simoni, diz ainda o Papa, citado pelo Vatican News, voltou ao campo onde passou a maior parte dos 18 anos de cativeiro “para celebrar o Sacrifício de Cristo, que transformou a Cruz de um sinal de morte numa promessa de vida”, escreveu ainda o Pontífice.
Arriscar a vida pela fé
“Durante o cativeiro, arriscando a vida a cada vez, celebrei a Missa em latim de memória, assim como confessei e distribui a comunhão às escondidas”, contou o cardeal, que cozia a massa de farinha em fogões improvisados e usava uvas espremidas. “Se me tivessem encontrado, ter-me-iam enforcado imediatamente”, acrescentou.
Durante a Missa desta sexta-feira, ele mostrou aos presentes o capacete que usava quando era um jovem padre e descia à mina. E quem sabe, comentou Leão XIV na referida mensagem, referindo-se aos acontecimentos da época, “quantas orações terão subido ao Céu daquele lugar! Quantas invocações sussurradas no coração! Quantos rostos, marcados pelo cansaço e pelas privações, confiaram ao Senhor a última esperança!”.
Foi precisamente para sublinhar essa memória que o Papa pediu, na mensagem lida durante a missa, que a memória do que aconteceu no campo de prisioneiros “permaneça viva e seja, para as novas gerações, uma lembrança constante da dignidade inviolável da pessoa humana, do valor da liberdade e do compromisso com a paz”.
“A perseguição mais cruel”
A história do Cardeal Simoni é impressionante. O Papa Francisco chegou mesmo a falar dele como “um mártir vivo”, por ter “sofrido a perseguição mais cruel”. Foi em Fevereiro de 2024, quando o Cardeal albanês participou numa das audiências das quartas-feiras no Vaticano. Na ocasião, Francisco fez questão de o saudar “de modo especial” perante os milhares de fiéis que enchiam por completo a Sala Paulo VI.
“Todos nós lemos e ouvimos as histórias dos primeiros mártires da Igreja. São tantos… Mesmo aqui, onde o Vaticano está agora, há um cemitério e muitos neste local foram executados e sepultados”, disse então o Papa. “Quando se faz escavações, encontram-se esses túmulos. Mas ainda hoje há muitos mártires em todo o mundo, muitos, talvez mais do que no início. Há muitos perseguidos por causa da fé. Hoje, permito-me saudar de modo especial um mártir vivo, o Cardeal Simoni. Ele, como padre, viveu 18 anos na prisão comunista da Albânia, talvez a perseguição mais cruel”, concluiu Francisco.
Perdoar os algozes
Quando ficou livre da prisão, o que aconteceu após a queda do regime, em 1990 – ele seria libertado a 5 de Setembro desse ano –, afirmou logo querer perdoar aos seus torturadores, e depois começou de imediato a trabalhar, servindo nos vilarejos, ajudando as pessoas a se reconciliarem e a banirem o ódio dos seus corações. Questionado sobre a forma como perdoou sempre aos seus algozes, D. Ernest Simoni respondeu, de imediato, que é assim “a fé católica”.
“Jesus com amor infinito amou e ama todos os homens e diz que a maior alegria no Céu será para um pecador que se converte e é salvo e não para biliões de anjos e santos. O paraíso espera por todos nós”, acrescentou D. Ernest Simoni.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt







