O ano de 2025 revelou-se particularmente trágico no que diz respeito a atentados terroristas no Benim. Na zona conhecida como “ponto triplo”, onde convergem as fronteiras entre este país, o Burquina Fasso e o Níger, ocorreram dois ataques, um em Janeiro e outro em Abril, fez agora um ano, e que causaram, no conjunto, 82 mortos, praticamente todos envolvendo militares.
O Padre Joaquim Domingos Luís, da Congregação dos Missionários do Verbo Divino, esteve em missão no Benim entre 1992 e 2003 e recorda, para a Fundação AIS, que já então havia uma tentativa de islamização do país.
8 de Janeiro de 2025. No Benim, numa zona conhecida como “ponto triplo”, por convergirem aí as fronteiras deste país com as do Níger e Burquina Fasso, ocorreu o atentado terrorista mais mortífero desde 2021. Reivindicado pela organização jihadista Jama’at Nasr al-Islam wal-Muslimin (JNIM), o ataque custou a vida a cerca de trinta soldados. Três meses mais tarde, a 17 de Abril, novo atentado e novamente na mesma região, mas, desta vez com um balanço ainda mais trágico: 54 soldados mortos.
Como recordou na ocasião o portal de notícias do Vaticano, este atentado “chocou o país”. Cerca de cem jihadistas, em motocicletas, “atacaram simultaneamente dois postos avançados do exército, um localizado no ‘ponto triplo’, e o outro perto das cascatas de Koudou”, não muito longe da cidade de Banikoara. No conjunto dos dois ataques, 82 soldados perderam a vida.
Mas houve mais ataques, mais incidentes. Em Setembro, por exemplo, em Kadalé, no nordeste do país, próximo da fronteira com a Nigéria, cerca de 200 militantes de um grupo jihadista irromperam na localidade, saquearam casas, roubaram carros e motorizadas e fizeram seis reféns. E deixaram a população assustada pois prometeram voltar, como alertou, então, o Bispo de N’Dali à agência Fides.
Segundo o Relatório da Fundação AIS sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, publicado em Outubro do ano passado, “é preocupante a influência crescente dos grupos extremistas islâmicos” no Benim, e, entre eles, com destaque para o JNIM e o Estado Islâmico do Grande Saara (ISGS). O Relatório dá conta ainda que os grupos extremistas islâmicos “estão a financiar os seus ataques terroristas através do tráfico de armas, munições, drogas, medicamentos e espécies protegidas”.
“A Igreja Católica goza de grande prestígio…”
Neste cenário, importa perceber quando começaram a surgir os primeiros sinais preocupantes de violência terrorista no Benim. O Padre Joaquim Domingos Luís, sacerdote da Congregação dos Missionários do Verbo Divino, esteve neste país africano, especialmente nas Dioceses de Parakou e de Djougou, entre Abril de 1992 e Junho de 2003.
“No tempo em que eu estive no Benin, não havia grandes conflitos com as outras religiões, quer com o Islão, quer com as religiões tradicionais, tanto no Norte como no Sul do país. A Igreja Católica no Benin goza de grande prestígio, pois teve uma grande influência na transição da ditadura marxista-leninista para a democracia, destacando-se uma figura especial, o D. Isidore de Souza, [já falecido, que foi Arcebispo de Cotonou], que era o presidente da Conferência Episcopal na altura, e que participou na Conferência Nacional nesta transição para a democracia”, recorda o missionário que também já esteve também em Angola.
O prestígio da Igreja Católica que o Padre Domingos refere não será alheio ao facto de desenvolver no Benim, como em tantos e tantos outros países, uma “grande obra social ao nível da educação, da saúde, na formação profissional, nos projectos de desenvolvimento agrícola, na promoção da mulher, e na alfabetização”.
Sinal disso, recorda ainda o missionário, “muitos dos quadros do país passaram pela escola católica” e por isso também era frequente encontrar na igreja agentes da polícia, professores, e outros quadros da administração pública.
Diálogo entre religiões sem conflitos
Mas na altura, e passaram, entretanto, mais de duas décadas, já havia alguns sinais “de islamização do país”. O missionário recorda que, por exemplo, “o Banco Islâmico do Desenvolvimento só ajudava o Benim e outros países na condição de serem construídas uma série de mesquitas, de tantos em tantos quilómetros, ao longo das estradas principais”.
Porém, apesar desses sinais, por onde o Padre Domingos passou nunca registou qualquer conflito religioso.
Numa das paróquias onde estive, a missão estava situada numa pequena colina e, na base dessa colina, existia a mesquita e havia um diálogo e as celebrações de uns e dos outros eram motivo de alegria para todos, pois, na mesma família, encontrávamos pessoas muçulmanas, cristãs, de várias denominações, também católicos e praticantes da religião tradicional africana. Havia esse diálogo de vida sem conflitos.”
Padre Joaquim Domingos Luís
Mesmo na cidade de Djougou, sede da diocese com o mesmo nome, em que a maioria da população era muçulmana, nunca registou nenhum incidente. Isto apesar de haver na altura um pequeno grupo de jovens que tinha estudado no Egipto e na Arábia Saudita “e que já tinha uma tendência mais radical”.
No entanto, lembra o missionário português, “os anciãos muçulmanos não deixaram que a sua influência se propagasse e asseguraram ao bispo que não queriam problemas e que ele ficasse descansado, que esses jovens não mandavam, eram eles que estavam à frente e, por isso, não havia problemas”.
“Obrigado”, Fundação AIS
Agora, tudo parece estar a mudar. A violência jihadista já ceifou vidas no Benim e é possível que assim vá continuar até pela vizinhança com países como o Burquina Fasso ou a Nigéria onde o terrorismo é já uma realidade no dia-a-dia. “Desde a criação do Estado Islâmico – lembra o Padre Domingos Luís –, é que tem havido conflitos.” Conflitos que se traduzem em “assassinatos, destruição de igrejas, de aldeias… precisamente coisas que são deploráveis e que não devemos permitir”, afirma.
A concluir, o Padre Joaquim Domingos Luís faz questão de deixar uma palavra de agradecimento pelo apoio que a Fundação AIS tem dado permanentemente ao trabalho missionário da Igreja em todo o mundo. “Queria dizer uma palavra de agradecimento à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, pois ajudou muito os missionários do Verbo Divino nas nossas missões, não só nós, mas também outros missionários”, concluiu.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt




