UGANDA: “A Igreja estará sempre presente”, diz Padre Ubaldino Andrade

Graças ao trabalho dos missionários no campo de Palabek, no Uganda, os refugiados da guerra podem viver a sua fé e recuperar a sua dignidade.

O Uganda vive há vários anos uma crise migratória sem precedentes. Através das suas fronteiras chegam muitíssimas pessoas que fogem da violência, da fome e da morte. Perderam tudo e chegam sem nada a uma terra desconhecida.

E onde persiste um total abandono por parte da comunidade internacional, a Igreja permanece para socorrer os mais necessitados. Deste modo, foram criados assentamentos como o de Palabek. A este campo de refugiados, no norte do país, chegam milhares de pessoas que, depois de terem fugido da guerra no Sudão do Sul, não têm para onde ir. Ali recebem um tecto, alimentação, formação e acompanhamento espiritual.

Em conversa com a Fundação AIS, o Padre Ubaldino Andrade, um dos missionários salesianos neste campo, relatou como é a realidade no local e como a Igreja leva Cristo para o meio do sofrimento.

Qual é a situação dos cristãos no Uganda e, mais concretamente, no campo de refugiados de Palabek?

A Arquidiocese de Gulu confiou aos Salesianos o cuidado pastoral dos refugiados e das pessoas que vivem na zona de Palabek. Há nove anos que estamos presentes numa área muito extensa, de 20 km por 20 km, com uma população de 97 mil cristãos que participam na Eucaristia e na Liturgia da Palavra em 17 capelas, algumas das quais ainda estão em construção.

Celebramos os encontros sob as árvores, sentados nos ramos. Por vezes, reúnem-se até 400 pessoas para celebrar a Palavra. Também é muito comovente ver as Eucaristias repletas de cânticos, cores e oferendas. Como não há dinheiro, cada criança oferece aquilo que tem. Assim, o cesto das ofertas fica completamente cheio graças à generosidade das pessoas que, a partir da sua pobreza, também ajudam a Igreja.

Como é a fé dos Cristãos ugandeses e daqueles que chegam como imigrantes ou refugiados de outros países devido aos tantos conflitos e crises que assolam aquela região de África?

A fé, em geral, é muito forte, muito profunda. O refugiado tem geralmente, no coração e na mente, a consciência de que perdeu muitas coisas: casa, bens, móveis, roupa, comida… Tiraram-lhe tudo. Mas há uma coisa que não conseguem tirar-lhe, que permanece sempre e lhe pertence: a fé cristã. Isso ninguém lha pode tirar. E creio que é a fé que, no meio de tantas situações difíceis e onde há tanta escuridão, nos ajuda a abrir uma janela, uma porta por onde entra a luz no meio de tanta escuridão. A fé é muito forte, a oração é uma experiência muito profunda. O amor aos sacramentos, o amor à Virgem, o amor a Jesus Cristo… É uma experiência de fé muito profunda em geral, não apenas dos refugiados, mas também de todo o povo do Uganda.

A Fundação AIS apoia, através de diversos projectos, os Cristãos do Uganda. É testemunha desta ajuda que chega quando todas as outras organizações já partiram...

Bem, trata-se sobretudo de ajudar a que a Igreja esteja presente junto das pessoas, sejam cristãs ou não cristãs, ricas ou pobres, de uma tribo ou de outra. A Igreja faz-se presente no meio das pessoas que dela precisam, e isso é muito importante.

As pessoas apreciam muito isso porque, no contexto da vida dos refugiados, há muitas ONG e instituições a fazer coisas, levam, trazem… Mas há um grupo que estará sempre presente, e esse é o grupo da Igreja. Quando o dinheiro acaba, surge um problema noutro lugar, há uma epidemia, as agências abandonam os refugiados por razões de segurança e deixam-nos sozinhos. Mas a Igreja não, a Igreja permanece. Creio que isso é o mais valioso. As pessoas apreciam muito que, através da Igreja, Cristo Se faça presente no meio delas.

E, no meio desta situação de abandono que se vive no campo de Palabek, surgem diversos testemunhos de fé e caridade que nos enchem de esperança. Como se reflecte a fé na realidade que ali se vive todos os dias?

Há muitos momentos de profundo encontro. Por exemplo, a oração do terço: reúnem-se as mulheres, as crianças, os jovens; por vezes combinam encontrar-se numa determinada casa. Quando entram na casa, deixam os sapatos à porta, porque a simples presença da imagem ou do terço naquela casa, onde se reúnem para rezar, é uma presença santa.

Outra experiência bonita é a do grupo missionário, um grupo enorme de 120 jovens pertencentes a diferentes tribos que, no Sudão do Sul, seria impossível juntar. Mas em Palabek vêm, unem-se e rezam. Além disso, realizam um belo trabalho de evangelização: vão ler a Bíblia às pessoas e ajudam os necessitados, idosos que vivem sozinhos, mulheres que precisam de transportar água, lavar roupa ou trabalhar nas culturas…

Os jovens vão ajudar quem mais precisa. Por vezes, esse jovem que vai visitar um irmão pertence a um grupo cultural diferente. Mas o chamamento do Senhor para levar a Sua mensagem e a Sua obra, levando esperança a outros que são nossos irmãos, rompe essas barreiras. É um milagre diário saber que todos somos filhos de Deus, que nos ama profundamente e que, juntos, podemos construir o Seu Reino.

Que mensagem gostaria de deixar a todas as pessoas comprometidas que, através da Fundação AIS, apoiam com a sua oração e generosidade os refugiados de Palabek?

Primeiro, um profundo obrigado, de coração, por tudo o que fazem. Por vezes pensamos que aquilo que fazemos é muito pouco, que aquilo que damos é muito pouco. Com um tijolo não se constrói uma igreja, mas a união de muitos tijolos constrói uma igreja bonita. Cada um de nós, a partir da sua situação e das suas possibilidades, pode construir e dar o seu contributo para construir um mundo melhor, mais cristão, mais solidário, mais forte na fé.

E, em segundo lugar, pedir-lhes que continuem a rezar. A oração tem um poder enorme. Há muitos cristãos que vivem em situações de perigo porque a fé não é aceite, ou devido a conflitos, guerras e invejas. A sua oração ajuda-nos a continuar a missão da Igreja até aos últimos recantos do mundo.

Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

Relatório da Liberdade Religiosa

Embora os direitos humanos sejam garantidos e geralmente respeitados no Uganda, estes direitos, incluindo o direito à liberdade religiosa, enfrentam um futuro incerto devido aos ataques cada vez mais frequentes de grupos extremistas islâmicos. Muitos desses extremistas pertencem à Forças Democráticas Aliadas, um grupo sediado na República Democrática do Congo e ramo africano do autoproclamado Estado Islâmico. As perspectivas para a liberdade religiosa devem ser mantidas sob observação.

UGANDA

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *


The reCAPTCHA verification period has expired. Please reload the page.

918 125 574

Multibanco

IBAN PT50 0269 0109 0020 0029 1608 8

«Desde o início, a missão da Fundação AIS tem sido promover o perdão e a reconciliação, bem como acompanhar e dar voz à Igreja onde quer que ela se encontre em necessidade, onde quer que se sinta ameaçada, onde quer que sofra.»

PAPA LEÃO XIV

© 2024 Fundação AIS | Todos os direitos reservados.