Sete anos depois dos brutais ataques terroristas de Domingo de Páscoa, que causaram 279 mortos em três igrejas e ainda em vários hotéis na capital do Sri Lanka, a Igreja reafirma o seu compromisso pela justiça e pela busca da verdade.
O dia 21 de Abril de 2019, Domingo de Páscoa, ficou marcado no Sri Lanka por brutais ataques terroristas quase simultâneos em três igrejas lotadas de fiéis e ainda em diversas unidades hoteleiras na capital do país. O balanço foi trágico: 279 mortos, incluindo famílias inteiras que estavam reunidas para a celebração da Páscoa, assim como centenas de feridos. Dos mortos, 171 eram fiéis católicos que participavam na Missa da Ressurreição nas Igrejas de São Sebastião de Negombo e Santo António de Kochchikade – extremamente popular. Houve também vítimas mortais na igreja evangélica de Sião de Batticaloa.
Todas as explosões ocorreram num espaço de tempo relativamente curto o que levou de imediato as autoridades a concluírem que se teria tratado claramente de um atentado coordenado. No entanto, apesar de o Daesh ter assumido a autoria dos ataques, as autoridades do Sri Lanka atribuíram a responsabilidade a um grupo radical local, conhecido como National Thowheeth Jama’ath, que teria recebido apoio do exterior.
Desde o primeiro momento que para a Igreja é absolutamente crucial o apuramento da verdade sobre os terríveis acontecimentos que enlutaram do Domingo de Páscoa de há sete anos, tendo pedido às autoridades uma investigação completa ao que aconteceu.
Esta semana, em declarações ao portal de notícias do Vaticano, o chefe do Centro para a Sociedade e a Religião [CSR] disse que as principais questões levantadas pela Igreja ainda “não foram atendidas”. O Padre Rohan Silva explicou que tinha sido prometida a nomeação de um procurador especial independente para a acompanhar as investigações, uma pretensão “há muito solicitada”, mas que ainda não foi concretizada. “Sentimos que é muito importante e devemos continuar a pressionar o governo”, disse ao Vatican News.
“Não queremos perder a esperança”
Mas tem havido alguns progressos. No início deste ano, por exemplo, foi detido o major-general Suresh Sallay, por alegada ligação à conspiração e cumplicidade nos ataques, e vários processos judiciais estão em andamento. O caso principal – movido contra 25 acusados e envolvendo mais de 23 mil acusações – está a ser analisado por um painel de três juízes do Supremo Tribunal de Justiça. As vítimas também começaram a depor, o que, explica o Vatican News, marca “uma etapa importante no processo judicial”.
Em paralelo a isto, as investigações foram ampliadas para se poderem examinar revelações feitas em 2023 que sugeriam uma conspiração mais ampla por trás dos ataques. Ou seja, os atentados não teriam sido apenas obra de extremistas, mas também podem ter envolvido actores políticos que procuraram gerar caos e tensões na sociedade. Segundo o Padre Rohan, essa linha de investigação levou a um escrutínio renovado e já resultou em prisões. No entanto, o sacerdote afirma que esses avanços não ocorreram sem resistência.
“Há forte oposição de certos sectores”, diz, pois para muitos as acusações equivalem a uma “caça às bruxas” contra indivíduos considerados como heróis da guerra civil. “Isso gerou agitação, não apenas contra o governo e os investigadores, mas também contra a Igreja, com alegações de que somos nós que estamos a fomentar tudo isso”, acrescentou.
Paralelamente ao processo judicial, a Igreja continua a exigir a publicação das conclusões de inquéritos anteriores, documentos que ainda não foram tornados públicos apesar das garantias dadas anteriormente. “Temos pedido, e continuaremos a pressionar o governo para que divulgue esses documentos”, disse o Padre Rohan. “Mas esse pedido ainda não foi totalmente atendido.” Apesar dessas dificuldades, o sacerdote insiste que a esperança deve ser preservada. “Não queremos perder a esperança”, disse ele. A Igreja assinalou a data de 21 de Abril como um dia nacional de oração.
Processo beatificação em curso
Em 2024, quando se assinalaram os cinco anos dos atentados terroristas, a Igreja Católica do Sri Lanka fez arrancar o processo para a canonização dos 171 fiéis católicos que morreram nesse Domingo de Páscoa.
Desde o primeiro momento que a Fundação AIS expressou a sua total solidariedade para com a comunidade católica local, o que foi reconhecido pela Igreja do Sri Lanka. No ano seguinte aos atentados, em 2020, o Cardeal Malcolm Ranjith fez questão de gravar até uma mensagem de agradecimento por tudo o que estava a ser feito, por toda a solidariedade dos benfeitores e amigos da Ajuda à Igreja que Sofre em todo o mundo para com a pequena comunidade local, especialmente as vítimas dos atentados e seus familiares:
Foi difícil enfrentar os desafios que se seguiram imediatamente aos atentados, principalmente ajudar estas pessoas a reconstruir as suas vidas. Não foi difícil reconstruir as igrejas, tarefa em que o nosso Governo participou generosamente, mas foi mais difícil para nós reconstruir as vidas das pessoas afectadas por esta violência. Por isso, a vossa ajuda, a vossa oração, a vossa proximidade connosco constituiu uma enorme ajuda, pelo que agradeço a cada um de vós. Gostaria de vos pedir que continuem a ajudar-nos através da vossa oração e generosidade, mesmo no futuro. Desejo a todos as bênçãos de Deus.”
Cardeal Malcolm Ranjith
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt







