GUINÉ EQUATORIAL: Papa denuncia exclusão social e “colonização” de recursos naturais, no arranque da visita ao país

A Igreja local espera que possa haver um “antes e um depois” desta visita, que termina amanhã, dia 23, e que ocorre mais de quatro décadas depois de São João Paulo II ter estado na Guiné Equatorial. O primeiro dia da visita ficou marcado também pela mensagem enviada para Roma em que Leão XIV recordou o Papa Francisco, falecido há um ano, e em que lembrou o seu legado de “misericórdia a todos, todos, todos”, e o seu testemunho “corajoso”.

Começou ontem a visita histórica de Leão XIV à Guiné Equatorial com a denúncia pelo Papa da exclusão social e da “colonização” dos recursos minerais. No seu primeiro discurso neste país africano, o Santo Padre referiu que nos dias de hoje “mais do que há alguns anos, é ainda mais evidente que a proliferação dos conflitos armados tem entre os seus principais motivos a colonização de jazidas petrolíferas e minerais, sem qualquer respeito pelo direito internacional e pela autodeterminação dos povos”, disse o Papa, em espanhol, no Palácio Presidencial de Malabo, perante o presidente da República, autoridades locais, sociedade civil e corpo diplomático. “É dever inalienável das autoridades civis e da boa política remover os obstáculos ao desenvolvimento humano integral, do qual a destinação universal dos bens e a solidariedade são princípios fundamentais”, disse ainda, citado pela Agência Ecclesia.

No dia em que se assinalou o primeiro aniversário da morte de Francisco, Leão XVI recordou o seu antecessor reforçando a denúncia de uma economia que “mata”. “A vertiginosa evolução tecnológica a que assistimos acelerou uma especulação ligada à necessidade de matérias-primas, que parece fazer esquecer exigências fundamentais como a salvaguarda da criação, os direitos das comunidades locais, a dignidade do trabalho e a proteção da saúde pública”, referiu.

Mas o Papa evocou também o legado de “misericórdia” e o testemunho “corajoso” de Francisco, numa mensagem enviada para o Vaticano e lida na Basílica de Santa Maria Maior. “O seu magistério foi vivido como discípulo-missionário, como gostava de dizer. Permaneceu discípulo do Senhor, fiel ao seu Baptismo e à consagração no ministério episcopal, até ao fim. Foi também missionário, anunciando o Evangelho da misericórdia a ‘todos, todos, todos’, como teve ocasião de dizer várias vezes”, escreveu Leão XIV. O documento foi dirigido ao cardeal Giovanni Battista Re, decano do Colégio Cardinalício, que presidiu à celebração eucarística em sufrágio do pontífice argentino, na tarde de ontem, terça-feira.

Visita aguardada com muita expectativa

A visita do Papa Leão à Guiné-Equatorial, que começou ontem, terça-feira, e terminará amanhã, dia 23, estava a ser aguardada com muita expectativa, até porque coincide com as celebrações do 170.º aniversário da primeira evangelização no país, em 1855. Mais de 40 anos após a visita do Papa São João Paulo II, em 1982, os fiéis tiveram agora uma intensa preparação para acolher o Santo Padre. No entanto, as duas viagens são muito diferentes.

“Enquanto a visita apostólica de 1982 fazia parte de uma viagem mais ampla por África e foi mais uma paragem, esta foi pensada especificamente para a Guiné Equatorial, o que destaca a relevância simbólica e pastoral do evento para o país”, afirma o Padre Sebastián Mba Nguema Mokuy, reitor do seminário maior interdiocesano “La Purísima”, em Bata. “Naquela ocasião, São João Paulo II deixou uma mensagem que ficou realmente gravada na minha memória: ‘Guiné Equatorial, levanta-te.’ Hoje, esse apelo ressoa com ainda maior força. É esse o espírito que temos de recuperar”, explica à Fundação AIS.

Todas as dioceses do país organizaram encontros de formação, sessões de catequese e actividades pastorais. “Este fim de semana passado, falei numa conferência para a preparação espiritual de cerca de 500 a 600 fiéis, em Mongomo, todos provenientes de grupos e associações apostólicas, para ajudar a preparar os seus corações para a chegada do Papa”, explicou o sacerdote.

Encontro com jovens, famílias e os mais vulneráveis

O lema desta viagem papal é “Cristo, luz da Guiné Equatorial, rumo a um futuro de esperança”, o que constitui um convite a redescobrir a fé como guia moral e fonte de transformação social. A Guiné Equatorial tem uma população de cerca de 1,5 milhões de pessoas, das quais mais de 97% se identificam como cristãs, sendo 85% delas católicas baptizadas. No entanto, ainda há muitos casos em que a fé se mistura com práticas de religiões tradicionais. Tudo isto torna a visita do Papa especialmente significativa.

Segundo o Padre Sebastián, a visita surge num contexto de desafios pastorais, tais como o crescimento das seitas, a secularização e certas tensões sociais.

O povo tem vindo a perder parte do impulso espiritual que recebeu em 1982, pelo que a chegada do Papa deve ser um momento de ‘aggiornamento’, de profunda transformação. (...) Deve haver um antes e um depois desta visita. É um momento de profunda renovação interior, de encontro com Cristo e de fortalecimento da nossa fé como comunidade.”

A agenda da viagem inclui alguns momentos pastorais marcantes. Um dos mais significativos é o grande encontro com jovens, famílias e movimentos apostólicos, no estádio de Bata, amanhã, dia 23, antes do regresso a Itália. Este evento coincide com uma iniciativa recente da Igreja local.

O Encontro Nacional da Juventude teve a sua primeira edição em 2024, com o apoio da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre. Encorajada pela Jornada Mundial da Juventude, na qual participou o Papa Francisco, a Igreja na Guiné Equatorial decidiu tornar este evento regular, a realizar-se de dois em dois anos. O evento previsto para 2026 iria inicialmente realizar-se em Malabo, mas foi transferido para Bata para não coincidir com a visita do Santo Padre, tornando-o ainda mais um evento eclesial e nacional.

O Papa visitará também um centro psiquiátrico, levando consigo uma mensagem de esperança para os mais vulneráveis, e presidirá a um momento de oração pelas vítimas das explosões de 7 de Março de 2021, em Bata, quando uma série de explosões num quartel militar matou mais de 100 pessoas e feriu cerca de 500. A tragédia, causada pela detonação acidental de explosivos armazenados, deixou uma marca profunda na sociedade e continua a ser um símbolo de dor colectiva.

O papel essencial da Fundação AIS para a Igreja local

A Fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre tem sido uma companheira constante da Igreja na Guiné Equatorial, apoiando a formação de seminaristas, a construção de infraestruturas e o trabalho pastoral num contexto de recursos muito limitados.

O principal seminário interdiocesano, que acolhe 76 estudantes, sofre de falta de materiais importantes. “Estamos muito felizes por receber ajuda, porque torna a nossa missão possível”, salienta o Padre Sebastián. “Não é apenas a ajuda material, mas o sinal concreto da caridade da Igreja universal.” “Deus está próximo do nosso povo”, conclui o Padre Sebastián. “Esperamos que esta visita reavive a nossa fé e nos ajude a erguer-nos com esperança no futuro.”

A mensagem do sacerdote é clara: “Não devemos encarar as dificuldades como uma fatalidade, mas como uma oportunidade para reconstruir. Hoje, tal como em 1982, continuamos a ouvir o forte apelo: Guiné Equatorial: levanta-te!”

Maria Lozano e Paulo Aido

Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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