A destruição, há uma semana, da Igreja de São Luis de Monfort e da missão católica em Meza, em Cabo Delgado, levou a comunidade islâmica de Moçambique a publicar um comunicado em que denuncia a tentativa de instrumentalização do Islão “para fins de violência e terror”. D. Juliasse já veio dizer que esse comunicado “é sinal de esperança”. Durante o ataque terrorista foram raptadas cerca de duas dezenas de pessoas sobre as quais não há ainda qualquer informação.
Continuam desaparecidos os cerca de vinte jovens que os terroristas raptaram no seguimento do ataque terrorista de há uma semana na missão católica de Meze, em que a igreja de São Luis de Monfort foi “reduzida a escombros”.
A primeira informação sobre o rapto destes civis foi dada pelo Bispo de Pemba na mensagem enviada para Lisboa, para a Fundação AIS, horas depois de os terroristas terem abandonado o local e já com a Igreja, que tinha sido construída em 1946, e que era um símbolo da presença católica na região, ter sido “totalmente queimada pelos insurgentes”.
Nessa mensagem breve, D. António Juliasse falava da destruição da igreja, do clima de medo que se vivia entre a comunidade e alertava para o facto de “civis terem sido capturados e usados como audiência em discursos de ódio”. Desde então, e passou já uma semana, não há qualquer informação sobre estes cerca de vinte jovens – há relatos de que serão 22 – levados pelos terroristas que reivindicam pertencer ao grupo jihadista Estado Islâmico.
O Padre Eduardo Roca, pároco em Mahate, e que lidera o Centro Inter-Religioso para a Paz, na Diocese de Pemba, confirma, à Fundação AIS, que os terroristas levaram os jovens e que “ninguém chegou para o impedir”.
Também o Padre Eduardo Paixão, director da Rádio Sem Fronteiras, a emissora diocesana de Pemba, confirma o rapto e diz que “não há notícias sobre eles”.
Questionado sobre como interpretar este silêncio, o sacerdote diz que “pode significar uma infinidade de situações”. “Pode significar que estarão a negociar com as famílias, ou então não terem interesse neste momento em negociações…”. A ausência de informação pode também indicar, acrescenta o Padre Eduardo Paixão, que os terroristas querem mesmo ficar com eles, para fazerem “trabalhos para o grupo”, por exemplo. “Como não sabemos, as possibilidades são muitas”, conclui.
Mensagem da comunidade islâmica “é sinal de esperança”
Toda esta incerteza vem acrescentar ainda mais dor e sofrimento à população local que viu a sua igreja e as infraestruturas construídas em Meza serem destruídas sem piedade pelos terroristas. Nem a escola primária, ali conhecida como “escolinha”, foi poupada.
Por isso, ganha ainda mais importância a tomada de posição da comunidade islâmica de Moçambique [CIMO] que ontem, quarta-feira, dia 6, publicou um comunicado em que condena o ataque terrorista e manifesta “a sua profunda preocupação” pelo que está a acontecer na província de Cabo Delgado.
No comunicado, a que a Fundação AIS teve acesso, a CIMO “condena de forma firme e inequívoca todos os actos de violência perpetrados contra populações civis, bem como a destruição de espaços religiosos, independentemente da sua filiação confessional”, e exprime também a sua “solidariedade para com a comunidade católica e todas as famílias afectadas”.
No texto, os responsáveis da CIMO reiteram que “nenhuma fé deve ser utilizada como justificação para a violência, o medo ou a divisão entre os muçulmanos”, e que os princípios do Islão levam a que tenham de rejeitar “qualquer tentativa de instrumentalização da religião para fins de violência ou terror”, e apelam à união de todos os moçambicanos, líderes religiosos e instituições, para fortalecerem as “mensagens de tolerância, coesão social e responsabilidade colectiva”.
Pouco depois de ter conhecido este comunicado, D. António Juliasse, Bispo de Pemba, afirmava na página oficial da diocese, que ele é “um sinal de esperança” e símbolo da “fraternidade humana que o Papa Francisco nos ensinou”.
A Sagrada escritura ensina-nos que Deus é Amor; [e que] devemos, portanto, amar Deus que nos criou e amar os nossos irmãos sem qualquer distinção”
D. António Juliasse
E refere-se mesmo aos responsáveis da CIMO como “irmãos”, agradecendo-lhes a mensagem, pois “ajuda-nos a distinguir, na prática, a religião islâmica daqueles que subtilmente querem se servir dela, radicalizando-a e espalhando mensagens de ódio, morte e destruição”.
D. Juliasse recorda ainda que, quando estudou “a religião islâmica enquanto seminarista”, aprendeu os princípios do Islão, ou seja, a promoção da paz, da justiça e da preservação da vida humana. “Esses princípios – acrescenta – são os mesmos que acreditamos e ensinamos como cristãos católicos.”. A concluir, D. António Juliasse pede que, em conjunto, se denuncie “a tentativa de instrumentalização da sagrada religião islâmica ‘para fins de violência e terror’”.
Paulo Aido
Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt







