Um país, uma única diocese, 13 padres, cerca de 30 religiosas e aproximadamente 6 mil fiéis, todos estrangeiros. Neste cenário, sendo a Mauritânia um país africano marcado pela emigração ilegal e com uma população em trânsito, são inúmeros os desafios que se colocam à Igreja. D. Victor Ndione, Bispo de Nouakchott, fala disso à Fundação AIS e deixa o alerta de que se começa a notar “o crescimento do Islão salafista, que está a infiltrar-se no país e não vê com bons olhos a Igreja Católica nem os muçulmanos moderados”…
“Na Mauritânia, não há perseguição aberta por parte do Islão, que é tradicionalmente moderado e marcado pelo sufismo. No entanto, estamos a notar o crescimento do Islão salafista, que está a infiltrar-se no país e que não vê com bons olhos a Igreja Católica nem os muçulmanos moderados”, adverte D. Victor Ndione, Bispo de Nouakchott, a única diocese em todo o país.
Em entrevista à Fundação AIS Internacional, o prelado faz um retrato da vida da Igreja neste país africano que é essencialmente uma rota de passagem de migrantes ilegais que sonham com uma vida melhor noutras zonas do globo, nomeadamente na Europa. Ao todo, o bispo considera que a Igreja tem, neste momento, cerca de 6 mil fiéis, “exclusivamente estrangeiros” e oriundos na sua esmagadora maioria de países vizinhos, o Senegal, a Gâmbia, o Mali e a Guiné-Bissau.
“A diocese tem dois bispos (um deles emérito), 13 padres – dos quais apenas dois são incardinados, sendo todos os outros religiosos ou fidei donum – e cerca de 30 religiosas, todas estrangeiras”, relata. É uma Igreja especial para uma missão também muito particular.
Por ali as pessoas estão quase sempre de passagem. “A Mauritânia é uma paragem na rota para aqueles que sonham estar noutro lugar. No decorrer da emigração clandestina, perdem-se regularmente vidas no mar, e ninguém fica feliz com isso. Às vezes, há problemas na nossa pequena comunidade, especialmente em Nouadhibou, no oeste. As pessoas têm de estar bastante desesperadas para ignorar os perigos de naufragar”, reconhece.
E é neste contexto que a Igreja actua. É com estas pessoas que procura estar próxima, ser mão amiga, ser solidária. “A Igreja procura demonstrar caridade a todos, com base na fé em Jesus Cristo, sejam mauritanos ou não, sem distinção de religião ou posição social. Isto consiste, em primeiro lugar, em responder às necessidades básicas: alimentação, saúde, educação e alojamento”, explica o bispo.
“Todos os padres são estrangeiros…”
De facto, a questão da migração, dos que se fazem ao caminho em busca de uma vida melhor e passam pela Mauritânia, marca o dia-a-dia da Igreja. “A vida na nossa diocese é marcada pelo fenómeno da migração, porque a Mauritânia é um país de trânsito”, diz D. Victor Ndione. “Muitas vezes, os migrantes tentam deixar África porque não têm oportunidades nos seus países de origem ou durante o seu trânsito pela Mauritânia, devido à falta de educação. É por isso que trabalhamos muito na formação profissional dos migrantes em Nouakchott, através de um centro de formação profissional que acolhe não só migrantes, mas principalmente mauritanos”, explica.
“Em Nouadhibou, a nossa actividade centra-se nas áreas da panificação, carpintaria, electricidade e alfabetização” descreve, aproveitando a entrevista com a Fundação AIS para deixar um apelo aos governos dos países de onde partem os migrantes que atravessa a Mauritânia: “se certos sectores [de actividade] forem desenvolvidos localmente nos países subsaarianos, isso limitaria o drama da emigração clandestina”. No contexto actual, na realidade concreta do país, a mobilidade surge como o desafio principal do ministério de D. Victor Ndione.
E não é um desafio fácil. “Comparo-me a Sísifo, que constantemente recomeça a empurrar a rocha montanha acima”, diz. E isso significa “formar líderes comunitários, catequistas, professores e pessoas para trabalhar com crianças, sabendo perfeitamente que eles podem não estar lá daqui a seis meses”
O desafio da mobilidade também diz respeito aos agentes pastorais. “Todos os padres são estrangeiros: a maioria são missionários e, de um dia para o outro, podem ser chamados de volta pela sua congregação. O mesmo se aplica às religiosas. Embora já fôssemos muito poucos, uma comunidade religiosa feminina acaba de fechar na nossa diocese. É uma preocupação real, definitivamente uma dificuldade”, confessa o prelado.
A ajuda da Fundação AIS à Mauritânia
Neste contexto, e por esta ser uma Igreja muito pobre, que serve uma comunidade também muito pobre, a ajuda da Fundação AIS, graças à generosidade dos seus benfeitores e amigos espalhados pelo mundo, ganha uma importância acrescida. “Mesmo que os cristãos contribuam e coloquem dinheiro na colecta, eles são pobres e o seu número está a diminuir”, diz.
“A Mauritânia adoptou recentemente medidas para combater a imigração e muitos tiveram que deixar o país, o que reduziu as contribuições. As intenções de missa fornecidas pela AIS são uma importante fonte de rendimento para nós. A solidariedade da Igreja Universal e o apoio de organizações como a AIS são um bálsamo reconfortante e uma lufada de ar fresco, seja no acompanhamento dos migrantes e mauritanos – com educação, alimentação, saúde, etc.. – seja na vida da Igreja. A Fundação AIS ajudou-nos a reconstruir um centro pastoral em Nouakchott com capacidade para acolher 200 pessoas; jovens e casais podem vir e reunir-se, receber catequese, preparar-se para o casamento e fazer retiros espirituais. Isso é algo fundamentalmente importante”, afirma.
No que diz respeito às questões de subsistência, não temos meios para sustentar o pessoal ministerial, e a AIS presta ajuda às religiosas. Por tudo isso, só podemos continuar a expressar a nossa gratidão e rezar para que a Fundação AIS encontre os meios necessários para apoiar o nosso trabalho pastoral e o de outras igrejas necessitadas.”
D. Victor Ndione
Christophe Lafontaine e Paulo Aido
Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt





