Enquanto o Papa Leão XIV se prepara para iniciar hoje a visita de dois dias aos Camarões, a Fundação AIS entrevistou o Bispo Emmanuel Dassi, de Bafia, sobre a realidade da Igreja local, o seu papel social e político e os desafios que o país enfrenta – particularmente na região anglófona, marcada por um conflito separatista. Em entrevista à Fundação AIS, o bispo camaronês afirmou que a visita do Papa Leão XIV poderá ser um sinal de paz e destacou o crescimento da Igreja, apesar da violência e dos desafios pastorais.
» Como descreveria a Igreja nos Camarões que o Papa Leão XIV vai visitar?
A nossa é uma Igreja vibrante e dinâmica! Celebramos muitos baptismos e há também um número significativo de vocações sacerdotais. Na minha diocese, há 77 sacerdotes e 30 seminaristas, por isso não estou excessivamente preocupado com o futuro. Além disso, recebi pedidos para abrir dez novas paróquias num futuro próximo. Isto demonstra o crescimento da nossa Igreja, embora eu não saiba se teremos os recursos para responder favoravelmente a todos estes pedidos.
Enfrentamos dificuldades em estar presentes onde somos necessários, especialmente nas zonas rurais. Alguns paroquianos percorrem quilómetros de mota apenas para assistir à Missa dominical!
» De uma perspectiva social, a sua Igreja desempenha um papel importante?
Certamente! Obviamente, através das escolas e hospitais católicos, mas também garantindo que a Igreja tenha uma voz em muitos assuntos. No que diz respeito à família, em particular, os nossos jovens têm dificuldade em comprometer-se com o casamento, seja através da Igreja ou de acordo com o costume tradicional. Muitos optam por viver juntos como casal sem um compromisso definitivo. Fazem-no devido à influência da sociedade moderna, mas também por causa do costume do dote.
Na nossa cultura, o noivo deve pagar um dote à família da noiva para que esta lhe conceda a mão. Por isso, salientamos a importância do Sacramento do Matrimónio, que deve prevalecer sobre estas considerações.
» Diria que também desempenha um papel nos assuntos políticos?
Um papel de observador, por assim dizer. Durante as eleições do ano passado, a Conferência Episcopal alertou os candidatos para os desafios que os esperavam. Da mesma forma, a Comissão Justiça e Paz dos Camarões organizou a observação eleitoral para alertar os nossos concidadãos para os riscos de fraude. Infelizmente, só recebemos acreditação para realizar este trabalho de observação num terço das mesas de voto do país. Os nossos observadores detectaram várias irregularidades durante as eleições, mas não dispomos de dados suficientes para afirmar que o novo Governo não é legítimo.
» O clero camaronês desempenha também um papel de mediador no conflito na região anglófona?
Somos os únicos actores locais que gozam de alguma credibilidade junto de ambas as partes. Desde que a violência eclodiu entre separatistas e forças de segurança em 2017, nunca hesitámos em criticar as falhas do Governo e mantemos uma presença nas áreas disputadas. O clero está a pagar o preço! Padres e bispos são frequentemente raptados. Até o nosso Cardeal Tumi – que descanse em paz – foi raptado, transportado como um embrulho numa mota e mantido em cativeiro durante dois dias na selva, apesar de ter 90 anos na altura.
O conflito continua, embora, felizmente, já não seja tão violento como antes. Acredito que a visita de Leão XIV faz parte deste trabalho de construção da paz da Igreja.
» De que forma?
Esta visita papal é um sinal de paz. Na quinta-feira, 16 de Abril, ele viajará para Bamenda, o epicentro da crise separatista anglófona. Estradas que se tinham tornado intransitáveis devido a grupos armados locais foram reabertas. As empresas tinham-se recusado anteriormente a mantê-las porque as suas máquinas tinham sido incendiadas! Nos últimos meses, colocaram a cidade novamente em funcionamento.
O avião do Papa vai até aterrar no aeroporto da cidade, que estava fora de serviço há anos devido ao conflito. Isto demonstra que os líderes locais aceitaram uma trégua e iniciaram conversações com o Governo. Talvez este seja o início de um caminho rumo à paz?
» Não está a ser demasiado optimista?
Lembre-se do que o Anjo Gabriel disse a Maria! “Porque nada é impossível a Deus.” Tudo é possível com Deus… Os separatistas deram um passo na direcção certa ao facilitar esta visita; agora espero que o Governo promova um avanço democrático.
Sylvain Dorient | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt







