O Papa Leão XIV esteve na Argélia numa visita histórica que vem dar relevo à pequena mas dinâmica Igreja local, e ao papel do diálogo entre cristãos e muçulmanos. O Santo Padre esteve em Argel, visitou Hipona (actual Annaba) incluindo locais ligados a Santo Agostinho. A Argélia foi o primeiro país de um périplo africano que o leva aos Camarões, onde está hoje, e depois a Angola e Guiné Equatorial.
Representantes da Fundação AIS que se encontram actualmente na Argélia a visitar projectos apoiados pela fundação pontifícia, destacam o significado simbólico e espiritual da viagem do Santo Padre a este país do norte de África. Há anos que a AIS acompanha esta Igreja discreta, mas dinâmica, que se define pelo testemunho, pelo diálogo e pela fraternidade.
Fontes da instituição salientam o forte impacto da visita, explicando que a capital argelina acolheu o Papa com uma impressionante exibição de bandeiras do Vaticano ao lado das argelinas, bem como imagens oficiais do Presidente Abdelmadjid Tebboune com o Pontífice, reflectindo a importância que o país atribui a esta viagem histórica. Durante as suas primeiras intervenções, o Papa Leão XIV centrou a sua mensagem em três pilares principais: oração, caridade e unidade.
Os representantes da AIS salientam que o Santo Padre desejava sublinhar particularmente a oração como fundamento para o encontro entre cristãos e muçulmanos, citando o discurso histórico de São João Paulo II em Casablanca, em 1985.
Outro momento significativo foi a referência do Papa a Tibhirine, onde monges trapistas foram martirizados em 1996. O Santo Padre evocou especificamente a figura do Irmão Luc, o médico da comunidade, destacando o seu testemunho de serviço e proximidade com a população local. Segundo membros da AIS no terreno, este gesto reflecte uma visão do diálogo inter-religioso centrada na vida partilhada e no testemunho concreto.
Os 19 mártires da Argélia
Além disso, durante o seu discurso na Catedral de Nossa Senhora de África, o Papa ofereceu uma reflexão profunda sobre São Carlos de Foucauld, depois de o Bispo de Ghardaïa lhe ter oferecido relíquias do santo. Este momento sublinha o interesse do Pontífice pela história espiritual da Igreja no Norte de África.
Na basílica, o Papa acendeu uma vela e rezou perante o ícone dos 19 mártires da Argélia, mortos entre 1994 e 1996 e canonizados em 2018. Entre eles encontram-se – para além dos sete monges de Tibhirin – o Bispo Claverie, antigo Bispo de Oran e figura de destaque no diálogo inter-religioso, e também o seu motorista muçulmano, Mohamed Bouchikhi, que é retratado junto a uma mesquita. Ambos foram assassinados a 1 de Agosto de 1996.
Este gesto poderoso sublinha a importância vital da liberdade religiosa num contexto que continua tenso até hoje. A visita foi marcada por desafios ao nível da segurança, tendo as autoridades frustrado dois potenciais ataques.
Uma Igreja pequena, mas viva
Os cristãos constituem uma minoria muito pequena na Argélia. A visita do Papa tem um significado particular para a Igreja Católica do país – uma comunidade pequena, mas dinâmica. Na Diocese de Oran, por exemplo, o Bispo Davide Carraro disse à AIS Internacional que existem apenas entre 400 e 500 cristãos numa população de aproximadamente 10 milhões de habitantes, provenientes de 20 a 30 nacionalidades diferentes. Esta diversidade cria uma “Igreja mosaico” e uma “Igreja em trânsito”, composta em grande parte por migrantes e estudantes africanos.
O Bispo Carraro descreveu ainda esta realidade como uma “Igreja jovem”, caracterizada pela diversidade cultural, pela fraternidade e pelo testemunho quotidiano no seio de uma sociedade muçulmana. Segundo o Bispo Nicolas Lhernould, de Constantine-Hippo, cerca de 80% dos fiéis são estudantes subsaarianos, o que torna a Igreja local uma comunidade dinâmica, embora itinerante e multicultural.
Uma Igreja ao serviço de toda a sociedade
Para além da visita papal, a Igreja na Argélia continua a desenvolver numerosas iniciativas sociais e culturais abertas a todos. Em Oran, por exemplo, o Centro Pierre Claverie oferece actividades educativas, ‘workshops’ para mulheres, assistência aos necessitados e eventos culturais – a maioria dos quais ao serviço da população muçulmana. Este trabalho discreto reflecte o papel da Igreja na fraternidade e no diálogo, uma missão que o Papa Leão XIV pretendia destacar com a sua visita.
A Fundação AIS apoia a Igreja na Argélia através de projectos de formação, ajuda pastoral e renovação de infraestruturas. Na Diocese de Laghouat-Ghardaïa, a fundação contribuiu para a renovação da casa dos Padres Brancos em Adrar. A AIS está também a apoiar a aquisição de veículos para as Dioceses de Constantina e Oran, bem como a prestar ajuda de subsistência. Em Oran, a fundação contribuiu para a renovação da residência episcopal, onde o Bispo Pierre Claverie, uma figura icónica do diálogo inter-religioso, foi assassinado em 1996.
Maria Lozano | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt







