ARGÉLIA: Papa Leão, “filho de Santo Agostinho”, visita Annaba num périplo africano que o vai levar a mais 3 países

O Papa Leão inicia hoje, na Argélia, um périplo africano que o vai levar ainda aos Camarões, Angola e Guiné Equatorial. Leão XIV, que é agostiniano de formação, visitará Argel e Hippo Regius – o nome histórico de Annaba – seguindo os passos de Santo Agostinho. Nesta entrevista com a Fundação AIS, o Bispo Michel Jean-Paul Guillaud, de Constantina-Hipona, fala sobre as expectativas da Igreja em relação à visita e como a Igreja persevera na Argélia, um país predominantemente muçulmano.

» Como é que os Argelinos estão a encarar a visita do Papa Leão XIV?

É, acima de tudo, uma fonte de grande alegria e encorajamento. E, embora a Igreja primitiva tenha tido três papas norte-africanos – Victor, Milcíades e Gelásio –, esta será a primeira visita de um papa à Argélia. Para os Cristãos, é mais do que uma pequena Igreja como a nossa poderia pedir, mas é uma grande graça! Ele já esteve aqui duas vezes como prior-geral da Ordem de Santo Agostinho, uma vez para uma conferência sobre Santo Agostinho e outra para marcar o restauro da basílica. Agora, vem para se encontrar com o próprio povo Argelino, o que é maravilhoso.

Muitas pessoas disseram-me que estão ansiosas por esta visita. Todo o país ficou profundamente comovido quando, após a sua eleição, ele se descreveu como um “filho de Santo Agostinho”. No início, alguns pensaram que ele se referia a um sentido geográfico, mas logo compreenderam que ele estava a falar de uma filiação espiritual. O facto de ele dedicar três dias ao Norte de África, num país de maioria muçulmana, é um sinal forte. Há também a sensação de que o Papa não está apenas ao serviço dos Católicos, mas de toda a humanidade.

» Qual é a importância de Santo Agostinho para a Argélia hoje?

Após a independência, o país não reivindicou verdadeiramente a sua herança, mas a situação começou a mudar, especialmente após a conferência de 2003, organizada pelo Conselho Superior Islâmico, em cooperação com a Universidade de Friburgo. Essa conferência, “Santo Agostinho: Africanidade e Universalidade”, foi um ponto de viragem. A Argélia começou a reconhecer Santo Agostinho como um dos seus e, desde então, houve outras publicações sobre o tema.

Actualmente, dezenas de milhares de pessoas visitam a Basílica de Santo Agostinho em Annaba todos os anos, e 99% delas são muçulmanas. O Estado contribuiu para o restauro da basílica. Santo Agostinho é visto como uma herança comum. Todos os anos, por volta da data do seu nascimento, 13 de Novembro, organizamos os dias agostinianos, com conferências, peças de teatro e palestras de autores cristãos e muçulmanos, para que as pessoas possam aprender mais sobre ele.

» Como é que o Cristianismo evoluiu na Argélia desde que o Senhor Bispo lá chegou?

Após a independência e o êxodo dos europeus, a Igreja diminuiu consideravelmente. Essa redução acelerou-se com as nacionalizações, a arabização e os conflitos na década de 90. Mas, desde os anos 80, uma nova realidade começou a surgir, com a chegada de estudantes subsaarianos com bolsas de estudo. Agora, cerca de 80% da nossa comunidade é composta por estudantes africanos subsaarianos de países como Uganda, Tanzânia, Zimbábue, Moçambique e Angola.

A presença de todas essas nacionalidades também representa um desafio linguístico para nós, mas estamos felizes por sermos uma Igreja jovem e dinâmica.

» Como é a sua diocese actualmente?

A Igreja está presente em sete locais no leste da Argélia, cada um separado por cerca de 100 km. A diocese cobre uma área de 110.000 km² e é assistida por cerca de 10 sacerdotes e aproximadamente o mesmo número de religiosas. Mas nem todas as comunidades são abrangidas. Isso obrigou-nos a redescobrir que a base de uma comunidade cristã é, acima de tudo, a presença de cristãos.

Béjaïa, por exemplo, só é visitada por um sacerdote duas vezes por mês, mas os fiéis reúnem-se todas as semanas para ler juntos as Escrituras. Ocasionalmente, os estudantes percorrem longas distâncias para participar na Missa e ficam durante o fim de semana para partilhar as refeições. Vimos a Igreja tornar-se um lugar familiar, fraterno e acolhedor.

» E o que fazem quando os locais pedem para ser recebidos na Igreja?

As autoridades estão plenamente informadas do que fazemos e respeitam a consciência individual, desde que não façamos proselitismo. Quando recebemos um pedido deste tipo, procedemos com um discernimento cuidadoso, sem nos precipitarmos, zelando pelo bem das pessoas e exigindo uma preparação minuciosa antes de serem baptizadas.

Muitas vezes, descobrimos que as dificuldades que surgem vêm mais das famílias do que das autoridades. Mudar de religião pode ser um processo doloroso numa sociedade profundamente ligada à sua herança.

» E como são as vossas relações com as Igrejas protestantes?

Em algumas das nossas paróquias, os Católicos são uma minoria entre os Cristãos. Eles podem não ter a oportunidade de celebrar a Eucaristia todas as semanas e, nesse caso, dedicam-se ao estudo da Bíblia. Em Constantine, por exemplo, organizamos encontros com uma igreja metodista, especialmente durante a semana anual de oração pela unidade dos Cristãos. Todo o ambiente é muito favorável a um ecumenismo concreto, centrado no essencial.

Amelie Berthelin | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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