Durante os próximos dias, de sábado a terça-feira, Angola vai estar no centro do mundo com a visita do Papa. São esperadas multidões. Só em Kilamba, nos arredores de Luanda, calcula-se que cerca de 1 milhão de fiéis irão assistir à missa campal. Os Bispos de Luanda e de Benguela garantem, à Fundação AIS, que esta vai ser uma visita inesquecível. E importante também, pois o país libertou-se da guerra civil há 24 anos, mas continua a enfrentar uma profunda crise económica, com muita pobreza.
Como diz D. António Jaca – que sublinha e agradece a ajuda dada pela Fundação AIS à Igreja angolana, as armas calaram-se há 24 anos, mas a paz é muito mais do que isso…
Angola é um paradoxo. País profundamente rico, com grandes reservas de petróleo, diamantes, ferro, cobre, ouro, prata e tantos outros minerais, grande parte da sua população vive em pobreza extrema. Estudos apontam para dados alarmantes. Calcula-se que 31% dos quase 38 milhões de angolanos vivem hoje com menos de 2€ por dia, e esse número tem vindo a aumentar ao longo dos últimos anos. A Igreja Católica tem denunciado mesmo o “escândalo da fome”.
Ainda no ano passado, a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé publicava um retrato inquietante da crise social no país em que se falava na “angústia visível” das populações que não conseguem “suportar a carestia de vida”, e que têm vindo a ser arrastadas para a “condição de indigência”. É esta Angola que se prepara, com entusiasmo, para acolher este sábado, dia 18, o Papa Leão XIV.
A viagem a Angola, num périplo africano que já levou o Santo Padre à Argélia e Camarões, e que o levará ainda à Guiné Equatorial, promete ser inesquecível. D. António Jaca, Bispo de Benguela, e D. Nascimento Vieira Dias, Arcebispo de Luanda, explicam à Fundação AIS que há um enorme entusiasmo e também uma enorme expectativa em torno desta visita, a terceira de um Papa a Angola, depois de São João Paulo II, em 1992, e de Bento XVI, em 2009.
Anos de muito sofrimento
O Santo Padre vai a Angola como peregrino da esperança, da reconciliação e da paz. Três palavras que dizem muito a este país profundamente cristão. Mais de 90% dos angolanos são cristãos e destes mais de metade são católicos.
“Para nós, a paz é muito cara”, diz D. António Jaca à Fundação AIS, referindo-se aos quase trinta anos de guerra civil, entre 1975 e 2002, uma guerra que causou mais de 500 mil mortos e mais de 1 milhão de deslocados. “Foram anos e anos de sofrimento”, sublinha o Bispo de Benguela, lembrando que as armas se calaram há 24 anos, mas que a paz é mais do que isso. “A paz é também desenvolvimento e paz social. Portanto, ainda há um caminho longo a percorrer”, diz.
A pobreza é um flagelo que está presente no quotidiano de milhões de famílias e isso corrói a tranquilidade de um país. “A paz social resulta do clima de tranquilidade nas famílias, quando as famílias têm o necessário para viver”, diz ainda o prelado. Mas a situação económica “é ainda muito, muito difícil, temos um índice grande de desemprego e um índice elevado de criminalidade, que é consequência, certamente, também do desemprego e da falta de ocupação da juventude. A maioria das famílias vive de rendas precárias e de comércio informal”, explica D. António Jaca.
O primeiro bispo negro
Por tudo isto, aguarda-se com expectativa as palavras de Leão XIV, visita que coincide com as celebrações dos 450 anos da cidade de Luanda, marco que permite também perceber a já longa história de evangelização de Angola, iniciada com a chegada dos portugueses nesse século XV.
Aliás, D. António Jaca sublinha mesmo que “é importante recordar essa história”, pois Angola teve “o primeiro bispo negro, D. Henrique, filho de D. Afonso I, Rei do Congo”, e foi também de Luanda que partiu, no contexto ainda do reino do Congo, “o primeiro embaixador à Santa Sé, que está imortalizado na Basílica de Santa Maria Maior, no Vaticano, como ‘o Negrita’”, explica o prelado à Fundação AIS. “Portanto, a história da evangelização de Angola é longa, está cheia de momentos áureos, também de momentos de alguma dificuldade, certamente, mas hoje ela tem uma expressão muito forte”, acrescenta.
Sinal dessa vitalidade, é o número crescente de vocações à vida consagrada, à vida sacerdotal. É assim em todo o país, mas D. António Jaca gosta de dar o exemplo da sua diocese de Benguela. “Este ano, estamos com 515 seminaristas, tanto nos nossos 3 seminários, médio, de Filosofia e de Teologia, mas é assim também nos [outros] seminários de Angola, com um grande número de vocações, de formandos. O mesmo acontece com os noviciados, para a formação de religiosos”, diz.
Um desafio para os jovens
Angola é também um país jovem. É mesmo um dos mais jovens do mundo, pois cerca de 60% da população tem menos de 25 anos de idade. Isto representa, claro, um potencial enorme, mas também um grande desafio. Um grande desafio também para a Igreja. Isso mesmo é explicado por D. Filomeno Nascimento, Arcebispo de Luanda, que não esconde também o entusiasmo pela vinda de Leão XIV a Angola, e da forma como a juventude o vai acolher.
Uma mensagem que é dirigida aos próprios jovens através da Fundação AIS. “É o Papa que visita Angola neste período em que sois jovens, cheio de energia, cheio de sonhos, cheio de entusiasmo. Abraçai o Santo Padre, acolhei-o com toda essa energia que é própria dos jovens. Mostrai como é forte, como é bela, como é sonhadora a juventude angolana. Como a fé molda, dinamiza a vossa vida, ajuda-vos a remar contra a corrente, contra as dificuldades da vida e a acreditar que com esforço, com disciplina, com sacrifício, pode-se construir para cada um de vós e para os outros jovens um futuro diferente”, disse o Arcebispo de Luanda.
O prelado destaca mesmo como um dos momentos essenciais nesta visita do Papa, a peregrinação ao santuário mariano de Muxima, desejando que entre os milhares de fiéis vão estar certamente muitos jovens. “Vamos lá, vamos de carro, vamos de táxi, vamos de cupapata [motocicleta], vamos a pé, vamos a correr até Muxima. Vamos lá, estaremos lá a dizer ‘bem-vindo Papa Leão’, com a energia de leão e a ternura de um pai que é pastor, que é amigo e que é irmão”.
“Muito obrigado, Fundação AIS…”
Tudo se prepara para três longos dias de festa com o Papa em Angola. Uma visita que poderá ficar memorável também pelas multidões que deverão acolher Leão XIV nos vários locais por onde vai estar, em Luanda, na Muxima e na Lunda Sul. Todas as atenções estão viradas para Domingo, dia 19, e para a Missa campal que vai ser celebrada na cidade de Kilamba, nos arredores de Luanda. A Igreja espera entre 800 mil a 1 milhão de fiéis.
Nesse mesmo dia, à tarde, milhares de fiéis vão estar também a rezar o Terço com Leão XIV no Santuário mariano de Muxima, um dos mais importantes centros de peregrinação católica em toda a África subsaariana. E depois, na segunda-feira, dia 20, o Papa vai ao leste de Angola, uma região recente de evangelização, onde há também uma enorme expectativa sobre quantas centenas de milhares de fiéis vão estar presentes.
Independentemente do número, serão dias de festa, de alegria, de celebração de fé. Uma alegria que inclui também a Fundação AIS, que desde há muito colabora activamente com a Igreja angolana no esforço de evangelização. O Bispo de Benguela sublinha isso e agradece toda a solidariedade da fundação pontifícia.
Muito obrigado à AIS, Ajuda à Igreja que Sofre, por todo o apoio, toda a ajuda que concede, que tem concedido já há vários anos à nossa Igreja de Angola, seja para os seminários, seja para as casas de formação religiosa…. enfim, para tudo aquilo que tem a ver com a evangelização. Obrigado a todos, e que Deus vos abençoe.”
D. António Jaca
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt







