TERRA SANTA: “Ficámos sem paz e sem pão”, alerta Nicolas Ghobar, cristão de Belém que está em Lisboa a vender artesanato

Chegou a Lisboa há semanas, carregado com peças de artesanato dos cristãos de Belém, e cheio de angústia pelas notícias da guerra. A crise que já se fazia sentir na Terra Santa, com a diminuição brutal do número de peregrinos, e que já estava a afectar a sobrevivência das famílias cristãs, agravou-se agora com os combates entre Israel e os militantes do Hamas na Faixa de Gaza. Uma guerra que afecta toda a população. No passado fim-de-semana, a paróquia de Gaza foi atingida e “só um milagre” impediu que tivesse ocorrido uma catástrofe.

Estilhaços resultantes dos ataques do exército israelita a edifícios situados perto da Igreja da Sagrada Família destruíram tanques de água e painéis solares nos telhados das estruturas paroquiais durante o último fim de semana. Também foram danificados veículos e outras partes do complexo.

A estrutura paroquial ficou sem combustível, privando a comunidade de electricidade e de comunicações estáveis. “Só um milagre impediu que nos acontecesse uma grande catástrofe”, relatou uma fonte local à Fundação AIS Internacional. Poucas horas depois, já na madrugada de terça-feira, 12 de Dezembro, foi descoberto um míssil por explodir mesmo nos limites da paróquia. “Imaginem o nível de trauma das crianças e de todas as pessoas que ali se encontram no caso de o míssil explodir, pois agora é impossível desmantelá-lo, a não ser que o próprio exército israelita intervenha”, relatou uma fonte local à Fundação AIS.

É neste ambiente de tensão causado pela guerra, que Nicolas Ghobar está em Lisboa a procurar vender peças de artesanato produzidas em madeira de Oliveira pelos artesãos de Belém. Artesanato que, neste momento, com a vida económica na região em suspenso, nomeadamente o turismo, é praticamente a única fonte de rendimento das famílias cristãs. A responsabilidade é muita. A angústia também.

“ESTOU MUITO PREOCUPADO”

Ghobar, 40 anos, descreve o ambiente que se vive em Belém em meia dúzia de palavras. “Nós, como comunidade cristã de Belém, vivemos dos peregrinos e ficámos sem peregrinos, ficámos sem paz e ficámos sem pão.”

Neste momento, explica, o futuro já não está nas mãos das famílias cristãs. Sem peregrinos, sem turistas, a cidade transforma-se num lugar vazio, quase fantasma, com as lojas sem ninguém, as igrejas sem fiéis, as famílias sem rendimentos. Sobra a fé. Apenas. “Estamos com fé que a situação melhore pois sem peregrinos a situação vai ficar difícil para nós, os Cristãos da terra que viu nascer o Príncipe da Paz…”

Desde que chegou, Nicolas não tira os olhos do telemóvel, sempre à procura de notícias da sua terra, sempre a falar com a família e amigos, sempre preocupado com o evoluir da situação.

A guerra, neste momento, desenrola-se na Faixa de Gaza, mas há relatos de incidentes junto à fronteira com o Líbano e ninguém pode garantir que os combates não venham a alastrar para outras zonas, para outras cidades na Terra Santa.

Nicolas Ghobar, que vai estar na Rua Anchieta, junto à Basílica dos Mártires, ao Chiado, pelo menos até ao Natal, não esconde a preocupação. “Na verdade, estou muito preocupado, estou triste com as explosões, os mortos, a pobreza, a emigração. Nada disto é bom para a Terra Santa, para os peregrinos, para a economia… Queremos paz, queremos que haja pontes, que haja amor entre o povo da Terra Santa”, explica, à Fundação AIS.

Além da aquisição das peças de artesanato, Nicolas espera dos portugueses o conforto da oração. Parece pouco, mas ele garante que é muito, que é o mais importante.

Na verdade, o mais importante agora é a oração, e que se divulgue pelo mundo inteiro que há forma, que há caminho para o povo se entender para haver paz na terra que viu nascer o Príncipe da Paz.”

O APOIO DA FUNDAÇÃO AIS

De facto, embora a Cisjordânia, onde se situa a cidade de Belém, tenha sido poupada à devastação em grande escala que se abateu sobre Gaza, a guerra teve já enormes consequências.

De acordo com informações recebidas pela Fundação AIS, mais de 3.000 cristãos palestinianos perderam os seus empregos devido à paralisação total dos negócios relacionados com o turismo. Além disso, cerca de 800 cristãos palestinianos, incluindo médicos, enfermeiros e professores, perderam os seus empregos devido ao cancelamento das autorizações de entrada em Israel.

Na Cisjordânia, a assistência prestada pela Fundação AIS assumiu sobretudo a forma de cupões de alimentos que podem ser trocados em alguns supermercados por uma selecção de bens essenciais. “O objectivo deste apoio não é apenas responder às necessidades imediatas de subsistência, mas também ajudar a manter a dignidade das famílias cristãs na Terra Santa”, afirma Marco Mencaglia, director de projectos da Fundação AIS Internacional.

A grande maioria dos Cristãos que vivem em Jerusalém são árabes palestinianos e, quando começou a última guerra, muitos ficaram também desempregados devido ao congelamento do sector do turismo, enquanto outros, segundo informações enviadas à Fundação AIS, foram despedidos por ódio.

“Em Jerusalém, os encargos económicos das famílias cristãs atingiram proporções assustadoras, especialmente para aqueles que ficaram abruptamente desempregados devido à interrupção do turismo. O impacto agravou-se quando alguns trabalhadores cristãos foram sujeitos a despedimentos pelos seus empregadores israelitas, apenas por serem palestinianos. Esta forma de retaliação acrescentou um acréscimo de dificuldades às famílias que já estavam a lutar contra as consequências do conflito. As preocupações vão para além dos problemas económicos; as famílias que residem perto ou dentro dos colonatos são assombradas por preocupações com a sua segurança. A atmosfera volátil, agravada pelas notícias da guerra, deixou estas famílias numa existência precária”, afirma Mencaglia.

CRISTÃOS QUE PERDERAM TUDO

Se em Belém, como relatou Nicolas Ghobar, os cristãos vivem dias de aflição, imagine-se os que estão na Faixa de Gaza, onde a guerra está a acontecer com todo o vigor desde que se deu o ataque terrorista contra Israel a 7 de Outubro por militantes do Hamas.

A Fundação AIS Internacional recebeu relatos do choque que alguns destes cristãos sentiram quando as suas próprias casas foram atingidas e destruídas pelos bombardeamentos. É o caso de G.A. Quando foi declarado o cessar-fogo, após 48 dias de guerra, ele saiu da Igreja onde estava abrigado e conseguiu ir até à sua casa, para ver como estavam as coisas. Ficou em choque.

“Foi devastador ver que o nosso apartamento, no último piso de um prédio familiar de quatro andares, estava completamente destruído, restando apenas um quarto! Recolhemos alguns objectos e regressámos para a segurança do complexo da Igreja, à espera do fim desta guerra feia para podermos começar o processo de reconstrução das nossas vidas”.

O mesmo aconteceu com J.M., outro cristão de Gaza. “No 27º dia de guerra, recebemos a notícia de que o nosso bairro tinha sido atacado. Esperei que os bombardeamentos abrandassem um pouco e fui ver o nosso prédio – onde também habitavam outras famílias cristãs – para descobrir que todo o edifício residencial tinha sido completamente demolido e que não restava nada. Tudo o que possuíamos, incluindo todas as minhas recordações de infância, passou à história. Regressei à igreja e dei a notícia aos meus pais e às outras famílias cristãs que se tinham refugiado connosco. No dia seguinte, retirei a chave do meu porta-chaves, porque já não preciso dela para ir para casa!”

Ninguém sabe quando esta situação de guerra irá terminar. À medida que a situação se torna mais dramática a cada dia que passa, milhares de cristãos na Terra Santa já beneficiaram do apoio prestado pela Fundação AIS, incluindo refeições, cupões de alimentos, pagamento de rendas ou de contas de serviços públicos e material médico.

Paulo Aido com Filipe d’Avillez e Maria Lozano

Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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