SUDÃO SUL: “O país tem campos petrolíferos, mas os lucros não chegam ao povo”, denuncia Arcebispo de Juba

SUDÃO SUL: “O país tem campos petrolíferos, mas os lucros não chegam ao povo”, denuncia Arcebispo de Juba

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SUDÃO SUL: “O país tem campos petrolíferos, mas os lucros não chegam ao povo”, denuncia Arcebispo de Juba

Quarta-feira · 15 Dezembro, 2021

“Existem apenas algumas boas estradas… tudo é escasso. As pessoas buscam, de manhã à noite, por comida e água para beber. Este ano, a situação foi agravada por uma grande seca. Continuamos a debater-nos com os efeitos dos conflitos locais…” As palavras são de D. Stephen Ameyu Martin Mulla, Arcebispo de Juba, em entrevista à Fundação AIS. São palavras de denúncia, mas também de esperança de que melhores tempos virão para o mais jovem país do mundo que continua a ser, também, um dos mais pobres.

O futuro é incerto. Ao fim de dez anos de independência – assinalados no dia 9 de Julho – houve mais tempo em conflitos e guerras do que em paz. A crise humanitária é brutal. Os números, na sua frieza, dizem tudo. O Sudão do Sul é um dos países com a maior crise de deslocados e refugiados do continente africano. Actualmente, estão cerca de 2,2 milhões de sul-sudaneses refugiados em países da região, nomeadamente a Etiópia, Sudão e Uganda. Dentro de fronteiras, como deslocados internos, serão 1,6 milhões. Cerca de 60 por cento da população do país sofre, segundo as Nações Unidas, de “insegurança alimentar”.

SUDÃO SUL: “O país tem campos petrolíferos, mas os lucros não chegam ao povo”, denuncia Arcebispo de Juba
Existem apenas algumas boas estradas… tudo é escasso.

Maldição da riqueza

D. Stephan Ameyu fala da “maldição “da riqueza quando se refere à pobreza extrema do povo. O Sudão do Sul tem vastos recursos naturais, mas a riqueza parece apenas beneficiar as elites. “Há alturas em que as riquezas provam ser uma maldição. O Sudão do Sul tem campos petrolíferos, mas os lucros não chegam até o povo. Foi iniciado um diálogo entre os bispos e o presidente e outras autoridades. Esperamos poder efectuar uma mudança de mentalidade através deste diálogo”, diz o Arcebispo.

O papel mediador da Igreja pode vir a revelar-se essencial. Os líderes do Sudão do Sul começaram como guerrilheiros. É preciso mudar a mentalidade. “Aqueles que detém responsabilidades estão gradualmente a perceber que não é do seu interesse continuar a agir de forma irresponsável. Como Igreja, podemos torná-los mais conscientes da sua responsabilidade. O presidente Salva Kiir Mayradit disse-nos que não tenciona regressar à guerra. Espero que nos tenha dito a verdade…”

Reconciliação e diálogo

Não voltar à guerra é essencial para haver paz no país, mas a verdadeira paz só se conquistará com reconciliação. Uma vez mais, a Igreja assume um papel chave no futuro do sudão do Sul. “Nós criamos departamentos separados para a justiça e paz em todas as dioceses. Tentamos educar as pessoas em unidade e colaboração”, explica o Arcebispo, acrescentando que o problema “é a mentalidade tribal, ou o tribalismo, que destruiu o nosso tecido social”. Por isso, disse ainda, “estamos a trabalhar arduamente para conseguir uma mudança no nosso povo através da reconciliação e do diálogo para ajudar o povo a entender que somos todos irmãos e irmãs”.

A unidade entre os Bispos do Sudão e os do Sudão do Sul é um modelo a seguir por todos. “Esta unidade”, diz D. Stephen, “permite juntar as nossas cabeças e as nossas ideias sobre como resolver os problemas mais prementes no Sudão e no Sudão do Sul. Estamos a tentar exercer pressão sobre os nossos governos. Eles têm de mudar a sua atitude em relação às pessoas.” A forma como os Bispos olham para os problemas do país, acima das querelas tribais e dos interesses de grupos, sempre na defesa apenas das populações, permite a D. Stephen dizer que “a Igreja é um sinal de paz e esperança para o povo do Sudão do Sul”.

“A fé é forte…”

Uma esperança que passa pela educação e saúde, duas das áreas em que a Igreja está mais empenhada. “A Igreja foi e é um líder nos sectores da educação e da saúde. Fazemos o nosso melhor para garantir que as pessoas tenham comida e água para beber. Tentamos encorajar as pessoas a cultivar para que possam cuidar de si mesmas. Estamos a ensinar as pessoas a serem confiantes e a defenderem os seus direitos…”

As palavras do prelado são mais do que uma carta de boas intenções. Traduzem a certeza de que o único caminho para a paz passa também pelo combate à pobreza, ao subdesenvolvimento. Nestes dez anos de independência dolorosa, a comunidade cristã tem passado também por muitas dificuldades. “Os cristãos sofrem muito. Os nossos padres também estão a passar por muitas dificuldades. Nas paróquias apenas existem choupanas, sem electricidade ou água… Nos lugares onde não há igrejas, as pessoas reúnem-se para rezar à sombra das árvores. Mas as pessoas chegam em grande número, a fé é forte…”

O futuro passa pela paz e pela educação. Na entrevista a André Stiefenhofer, D. Stephen agradece a ajuda que a Fundação AIS tem dado ao seu país. E pede para que essa ajuda continue. “Apelo urgentemente a um apoio contínuo no domínio da educação. A educação é da maior importância. O país encontra-se actualmente afectado por uma escassez alimentar severa. Até mesmo um pouco de ajuda financeira, por exemplo, para construir casas nas nossas paróquias. Agradeço à Ajuda à Igreja que Sofre por nos dar uma plataforma para falar sobre as nossas dificuldades e preocupações. Agradeço a todos os benfeitores pela sua ajuda!”

PA | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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