SUDÃO SUL: Irmã comboniana descreve violência sobre raparigas como “realidade triste que faz sofrer muito”

A violência física, verbal e também sexual sobre meninas, raparigas e jovens do Sudão do Sul é muito inquietante. Quando o Papa Francisco visitou o mais novo país do mundo, em Fevereiro, a chefe da missão da ONU alertava para a situação “extremamente vulnerável” em que elas se encontram. Beta Almendra é uma religiosa comboniana portuguesa a viver na Diocese de Wau e que lida directamente com esta realidade. Ela diz, à Fundação AIS, que toda esta violência “é muito triste”, mas que a Igreja está presente para ajudar.

Aproximadamente, cerca de oito em cada dez raparigas no Sudão do Sul terá já sofrido alguma forma de violência física, verbal ou sexual durante a sua vida. Estes dados foram divulgados recentemente, a 11 de Outubro, Dia Internacional da Rapariga, pela Entreculturas, uma ONG da Companhia de Jesus que aposta na educação para a melhoria das condições de vida das populações mais vulneráveis.

A Irmã Beta Almendra, religiosa portuguesa em missão neste país africano, confirma estes números e diz mesmo que “a maior parte das meninas sofre violência”. “Por isso – acrescenta – é tão importante estar com elas, escutá-las, e dizer que realmente podem contar connosco e que isso ajuda a superar os problemas.”

Numa mensagem vídeo enviada para a Fundação AIS em Lisboa, a Irmã Beta Almendra, de 53 anos, natural da Ericeira, fala mesmo num ‘bullying’ quase generalizado, causado muitas vezes pela pobreza extrema, e que provoca situações traumáticas nas raparigas e jovens sul-sudanesas.

Este ‘bullying’ pode ser físico, sexual, ou verbal. Todas as meninas aqui têm um bocadinho este trauma porque sofrem. Sofrem porque não têm dinheiro para a escola, vão tentar arranjar dinheiro – os pais mandam até – para os cafés, para os bares, para as estradas, tentando arranjar alguém que lhes pague as propinas para a escola, e trazer [ainda] algum dinheiro para casa para comer…”

GUERRAS, PANDEMIAS…

Esta é uma realidade que ganha um contorno muito específico nesta vasta região de África onde os confrontos armados são muito frequentes. As pessoas, explica a irmã Almendra, “fogem de um lado para o outro com as guerras”. Isso leva homens e mulheres, mais jovens ou mais velhos, “a viverem todos juntos, uns com os outros…”

“Isto é muito, muito normal”, esclarece a religiosa portuguesa. Como pano de fundo a tudo isto está a pobreza, situação que se agravou ainda mais durante os anos da pandemia do coronavírus. “A pobreza é tão grande que fazem tudo para tentar algo melhor… e o Covid19 foi também um problema muito sério, pois em 2020, 2021, 2022 não foram para a escola… E muitas jovens, muitas meninas de 15, 16… 14 anos, ficaram grávidas e [agora] têm os seus filhos…” Esta realidade tem também de ser vista numa perspectiva cultural.

Em África, uma mulher sem filhos pode ser olhada pela sociedade com algum desprezo. Quando surgiu a pandemia, e com o medo da morte, esta questão agigantou-se. “Não sabiam se iam viver, se iam morrer, se o mundo acabava ou não…, e era melhor ficarem grávidas antes que o mundo acabasse.  Houve aqui um grande, grande número de meninas que ficaram grávidas e que deixaram as escolas, e agora têm os seus filhos. São mães solteiras, pois os pais não assumem, o homem não assume esta realidade.” Mas, apesar disso, são bem acolhidas em casa, diz ainda a Irmã Beta Almendra. “Os filhos são normalmente muito bem acolhidos e nesta região, pode dizer-se que praticamente não existe aborto.”

AJUDAR ESTAS MENINAS

O Sudão do Sul é a segunda experiência missionária em África de Beta Almendra. Antes, durante seis anos, esteve no Quénia. Chegou a Wau no início de 2021, em plena pandemia do coronavírus, e é ainda nesta diocese que se encontra, sempre envolvida em projectos relacionados com jovens raparigas, sempre a lidar com este tipo de problemas. 

“Esta é uma realidade que me apaixona”, confessa. “Eu trabalho quase dia e noite com estas jovens, tentando arranjar um projecto aqui, um projecto ali, tentando fazer com que elas estejam juntas, dando formação, criando consciência para que realmente estas situações possam não acontecer. E se acontecem, que nos falem, que nos falem…”, descreve na mensagem enviada para Lisboa.

A pobreza que gera toda esta violência tenderá infelizmente a agravar-se ainda mais com o conflito armado no vizinho Sudão. Desde 15 de Abril que neste país os combates não dão tréguas, provocando uma gigantesca onda de refugiados e uma nova crise humanitária.

“NÃO TÊM COMIDA NEM ÁGUA…”

Syephen Ameyu Mulla, 59 anos, Arcebispo de Juba, e desde 30 de Setembro Cardeal da Igreja Católica, falou desta situação numa entrevista, no Vaticano, à Fundação AIS/Agência Ecclesia.

O prelado pede mesmo que as organizações internacionais façam alguma coisa com urgência. “Venham em ajuda destas pessoas deslocadas, que não têm comida, não têm água, não têm tendas nem bens de primeira necessidade”, pede o prelado. “Deixaram tudo para trás, fugindo para salvar a vida”, acrescenta. Muitos destes refugiados encontram-se em Juba – a capital do Sudão do Sul –, onde estão a ser instalados campos de acolhimento. A fuga das populações é generalizada.

O Arcebispo adverte para o risco enorme para a estabilidade regional e para as populações, caso o conflito armado no Sudão ultrapasse as fronteiras e venha a alastrar para os outros países da região, nomeadamente o Sudão do Sul. D. Stephen diz mesmo, em jeito de alerta, que “a guerra é contagiosa”.

Esperamos que se possa conter esta guerra, dentro do Sudão, porque se o conflito se espalhar para o nosso país, vai haver um segundo deslocamento interno de pessoas.”

Se isso acontecer, certamente que irá fazer aumentar a pobreza entre a população local, dando origem a muita da violência que afecta muitas das meninas e raparigas sul-sudanesas que tanto preocupam a irmã portuguesa.

A Fundação AIS apoia Igreja do Sudão do Sul no seu trabalho pastoral com os refugiados, auxilia a formação de religiosas e catequistas, tal como suporta a sobrevivência do clero com estipêndios de missas, ajudando também na sua própria formação pastoral e espiritual. A Fundação AIS tem contribuído também para a construção e renovação de instalações da Igreja em cidades como Wau, Juba e Yirol.

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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