SÍRIA: “Estão a deixar o povo morrer à fome”, denuncia religiosa portuguesa que vive num mosteiro na vila de Qara

“As pessoas só comem uma vez por dia”, os preços estão altíssimos a tal ponto que as famílias “nem roupa conseguem comprar” e até o aquecimento das casas é agora um problema. Estas palavras da irmã Maria Lúcia Ferreira à Fundação AIS, muito semelhantes ao alerta do Arcebispo de Homs ao Vatican News, não permitem uma segunda leitura. A Síria está à beira de uma profunda crise humanitária agravada agora, desde 1 de Janeiro, com a interrupção do Programa Alimentar Mundial, da responsabilidade da ONU.

É um grito de alerta face à situação dramática em que se encontram milhões de sírios. A crise no país, resultado de uma guerra que persiste há 12 anos e às sanções económicas impostas ao regime de Damasco, está a arrastar a população para a miséria.

A irmã Maria Lúcia Ferreira, mais conhecida como irmã Myri, da Congregação das Monjas de Unidade de Antioquia, alerta para a degradação acentuada das condições de vida das famílias. “Há pessoas que só comem uma vez por dia”, relata a religiosa, que vive no Mosteiro de São Tiago Mutilado, na vila de Qara, perto da fronteira com o Líbano. A irmã diz que “não é de admirar” que assim seja dado o aumento do custo de vida.

Vendo os preços altíssimos, nomeadamente da comida, de tudo, mesmo o [preço do] pão teve de subir, não admira nada que haja pessoas que só comem uma vez por dia. As pessoas guardam o que têm só para comer, nem roupa podem comprar… Sim, pode-se dizer que estão a deixar o povo morrer à fome… É verdade.”

“TUDO É CARÍSSIMO, CARÍSSIMO…”

Além da fome, os sírios enfrentam também o problema do frio. O Inverno no país é normalmente muito rigoroso, com temperaturas muito baixas, e as famílias recorrem ao “mazout”, um óleo para o aquecimento das casas. No entanto, os preços tornaram isso quase impossível, e como a electricidade falha constantemente, o único recurso é agora a lenha.

Mas os preços são incomportáveis para a maior parte da população. “O Inverno até tem sido menos rigoroso do que noutros anos, mas as pessoas têm menos electricidade e têm menos ‘mazout’. Este ano, as pessoas estão a aquecer-se com lenha, mas tudo é caríssimo, caríssimo, caríssimo. Isso é o maior problema. Muita gente só consegue sobreviver por causa da diáspora, por causa daqueles que vivem fora e que conseguem enviar dinheiro… nem sei como”, diz ainda a irmã Maria Lúcia Ferreira à Fundação AIS.

O ALERTA DE D. JACQUES MOURAD

As palavras da religiosa portuguesa coincidem com o alerta do Arcebispo de Homs que, em declarações reproduzidas na semana passada pelo Vatican News, afirma algo de muito semelhante após a interrupção, decidida a partir de 1 de janeiro, da ajuda do Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas. A suspensão desta assistência alimentar, por “ausência de fundos”, coloca em situação de risco cerca de 12 milhões de sírios. E D. Jacques Mourad diz que, com esta decisão – “terrível e injusta” – “o povo sírio está condenado a morrer sem poder dizer nada”.

O Arcebispo reconhece, nas declarações ao Vatican News, o trabalho realizado pela Igreja e por organizações não-governamentais no apoio às populações nos últimos anos. Mas essa é uma ajuda insuficiente face à dimensão das carências em tantos sectores da sociedade.

A Igreja, assim como as organizações não-governamentais, não podem cobrir todas as necessidades do povo sírio – continua D. Mourad - a sua capacidade de financiamento é limitada. Além disso, é impossível levar o dinheiro para a Síria devido às sanções impostas pelos Estados Unidos e pela ONU. Então, o que fazemos? Como pode o povo sírio viver? Muitas famílias sírias já comem uma vez por dia, apenas uma vez por dia. Esquecemos o que significa aquecimento, porque não podemos comprar diesel ou lenha, esquecemos o que é água quente, esquecemos o que é uma sociedade. E vivemos na escuridão total, as cidades da Síria estão sem luz, certamente os bairros ricos que representam apenas 5% da população não são representativos da situação do povo sírio.”

O APOIO DA FUNDAÇÃO AIS

A Fundação AIS tem procurado auxiliar a Igreja da Síria nesta altura tão exigente da sua história. No Natal, a fundação pontifícia lançou mesmo uma campanha internacional de apoio aos cristãos deste país. Inúmeros projectos têm sido apoiados e são expressão da solidariedade dos benfeitores e amigos da Ajuda à Igreja que Sofre em Portugal e em todo o mundo.

É o caso, por exemplo, da Paróquia de São Youssef, no bairro de Tabbaleh, em Damasco, a capital do país.  Foi aí que nasceu o projecto “refeições solidárias”, uma iniciativa local que tem o apoio da Fundação AIS. Entre os mais pobres foram detectadas cerca de 300 pessoas. Para preparar as refeições quentes para estas centenas de pessoas, foi criado um refeitório a que se chamou muito apropriadamente de ‘Beital eileh’, ou seja, Casa de família.

Assim, através deste projecto da Fundação AIS, a Igreja não só apoia os funcionários e as suas famílias, mas também proporciona refeições quentes três vezes por semana a todas as pessoas necessitadas. Além disso são também entregues refeições aos idosos que, devido às suas condições de saúde, não conseguem sair de casa.

Além disso, a Fundação AIS tem estado a promover também a distribuição de roupa quente para mais de 27 mil crianças na Síria. Uma forma simples de minorar o sofrimento causado pelo frio rigoroso do Inverno neste país. Uma campanha que tem vindo a registar um interesse significativo por parte dos benfeitores portugueses da AIS.

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

Relatório da Liberdade Religiosa

Mais de 11 anos após o início da guerra na Síria, o país continua a ser fortemente afectado. Embora os combates tenham diminuído significativamente e o autoproclamado Estado Islâmico tenha sido expulso como força territorial, a Síria continua dividida a nível regional, o que afecta profundamente a liberdade religiosa.

SÍRIA

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