Nove anos depois do início dos ataques terroristas na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, data que se assinalou ontem, 5 de Outubro, D. António Juliasse, Bispo de Pemba, fala num “sentimento de impotência muito grande”.
Numa mensagem enviada para a Fundação AIS em Lisboa, o prelado recorda o sofrimento do povo, denuncia novas “ondas de violência”, e apela às autoridades e à comunidade internacional para “que não se esqueçam de Cabo Delgado e das suas necessidades humanitárias”.
Nove anos depois de terem começado os ataques terroristas na província de Cabo Delgado, parece não haver fim à vista para o sofrimento das populações do norte de Moçambique. Em mensagem enviada para a Fundação AIS, em Lisboa, o Bispo de Pemba denuncia mesmo novas incursões dos homens armados que juraram fidelidade ao grupo jihadista Estado Islâmico.
“Entre 20 e 26 de Setembro, novas ondas de violência atingiram o sul do distrito de Mocímboa da Praia e o norte de Muidumbe, junto da bacia do rio Muera. Os dados confirmados apontam para pelo menos 7 mortos e 20 raptados, além de vítimas ainda não contabilizadas nas aldeias de Mgunde e Magaia”, diz D. António Juliasse. “O povo clama por socorro e pede a intervenção e mediação da igreja”, acrescenta.
Tem existido recentemente, em algumas partes de França, actos de fanatismo, actos de vandalismo das igrejas, houve igrejas incendiadas, houve sacerdotes que foram assassinados recentemente também, tem havido vários acontecimentos que nos deixam alguma preocupação.”
D. António Juliasse
A situação no terreno, quase uma década depois de ter começado a violência terrorista – o primeiro ataque, em Mocímboa da Praia, ocorreu a 5 de Outubro de 2017 – continua muito problemática. Ainda na última semana, esteve na Diocese de Pemba, cujo território corresponde ao da província de Cabo Delgado, uma delegação do Conselho Permanente, da IMBISA, a Comissão Inter-Regional dos Bispos da África Austral, precisamente com o objectivo de manifestar solidariedade para com a Igreja local e de despertar a atenção do mundo para os dramas das populações vítimas dos jihadistas que já causaram mais de 6.600 mortos e mais de 1,2 milhões de deslocados, pessoas que tiveram de fugir das suas aldeias por causa dos ataques armados.
D. Juliasse referiu a importância dessa visita que veio ajudar a denunciar “o absurdo da guerra” que está a atingir Moçambique. “Os Bispos do Conselho Permanente da IMBISA visitaram a nossa província para trazer conforto e ver de perto a realidade devastadora enfrentada por este povo de Cabo Delgado”, disse D. Jualisse, tendo destacado que os bispos se deslocaram a campos de reassentamento de deslocados, “que lembram a todos o absurdo da guerra”. “É quase uma década de sofrimento contínuo, de perdas de vidas inocentes e com milhares de famílias forçadas a abandonar os seus lares”, diz D. Juliasse na mensagem de voz enviada para Lisboa.
O povo pede ajuda à Igreja para a paz
A visita dos bispos da África Austral permitiu um conhecimento concreto das dificuldades que a Igreja enfrenta no apoio a todos os que perderam tudo o que tinham perante a violência dos grupos armados jihadistas. Como explica D. António Juliasse à Fundação AIS, ele próprio, como bispo, é interpelado pelas populações que se sentem ameaçadas.
“Muitas vezes, quando vou a visitas pastorais, o povo, nas suas mensagens, dirige-se a mim, pedindo que a igreja ajude a resolver a situação que vivemos, para que a paz aconteça. É um sentimento de impotência muito grande, quando vemos que nada desponta no horizonte, que mostra que esta guerra vai para o fim”, afirma. De facto, nada aponta para um abrandamento da violência.
Antes dos ataques referidos por D. António Juliasse, ocorreu um outro ataque, no início do mês de Setembro, em Niassa, província contígua a Cabo Delgado, em que o alvo foi um acampamento turístico pertencente ao treinador de futebol luso-moçambicano Carlos Queirós. Esse ataque causou um morto e um ferido grave, levou à fuga de cerca de 2700 pessoas e à evacuação, por helicóptero, de alguns turistas norte-americanos que se encontravam na coutada a praticar caça desportiva. O acampamento ficou totalmente destruído. E o padrão de violência tem-se mantido constante.
No mês de Agosto, segundo dados do Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), as incursões terroristas em Cabo Delgado provocaram 1.401 deslocados, e houve um aumento de 10% do número de incidentes registados ao longo do primeiro semestre deste ano, face ao período homólogo.
“Que a guerra não caia no esquecimento”
Face a este cenário, o Bispo de Pemba lança uma vez mais um forte apelo não só às autoridades moçambicanas para conseguirem conter as incursões terroristas como à comunidade internacional para não ignorar a situação dramática que se vive nesta região de África face à violência terrorista.
Diante de um cenário onde o fim do conflito ainda parece distante, o que posso fazer neste momento é só reforçar o apelo de sempre aos governantes, para que tomem medidas firmes e urgentes, com afinco, e à comunidade global, à comunidade internacional, para que não se esqueça de Cabo Delgado e das suas necessidades humanitárias. É urgente que este conflito, esta guerra e o sofrimento do povo não caia no esquecimento.”
D. António Juliasse
A mensagem termina com o prelado a dizer que durante todo o mês de Outubro, e “seguindo a convocação do Papa”, todas as comunidades locais vão rezar diariamente o Terço pela paz. “Que o caminho do diálogo desponte, que as matanças cessem de vez”, diz, a finalizar, D. António Juliasse.
Moçambique é, recorde-se, um país prioritário para a Fundação AIS. Exemplo disso, em Junho deste ano, a Fundação AIS lançou, aqui em Portugal, uma grande campanha de sensibilização da opinião pública e de solidariedade, em que se procura dar apoio à comunidade cristã que tem sido um dos principais alvos dos terroristas. O ataque, com a destruição total da histórica missão católica de São Luis de Montfort, na Diocese de Nampula, em Abril deste ano, é um cruel exemplo disso.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt







