O grupo Estado Islâmico de Moçambique tem vindo a intensificar os seus ataques na província de Cabo Delgado, provocando, com isso, uma nova onda de deslocados. Segundo a Organização Internacional para as Migrações, da ONU, pelo menos 4.445 pessoas fugiram desde o mês de Setembro devido à ameaça dos terroristas. Isto representa aproximadamente 1500 famílias. Estes dados vêm reforçar as palavras de D. António Juliasse que, recentemente, em mensagem enviada à Fundação AIS, fala num “sentimento de impotência muito grande” por parte das populações locais.
Pelo menos 4.445 pessoas fugiram desde Setembro de várias localidades da província moçambicana de Cabo Delgado devido a ataques de grupos armados, segundo dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM). De acordo com esta agência das Nações Unidas, a fuga destas populações, que correspondem a cerca de 1500 famílias, ocorreu essencialmente nos distritos de Nangade, Macomia, Muidumbe e Mocímboa da Praia.
Segundo a OIM, de todos os deslocados, cerca de 54% são crianças, tendo sido identificadas ainda, neste grupo de pessoas em fuga, 85 mulheres grávidas, 73 idosos, 31 crianças desacompanhadas e 40 pessoas com deficiência ou com doenças crónicas. Neste momento, para todos eles, o acesso a comida e abrigo são as necessidades mais urgentes.
Os dados agora divulgados pela agência da ONU vêm reforçar as palavras do Bispo de Pemba que, em mensagem enviada para a Fundação AIS, a propósito dos nove anos de insurgência terrorista em Cabo Delgado – data que se assinalou no dia 5 de Outubro –, alertou para “o sentimento de impotência muito grande” das populações locais face à contínua ameaça dos grupos terroristas.
Novos ataques terroristas
E de facto, só nos últimos dias, houve diversos incidentes graves. Numa aldeia na zona de Mocímboa, 7 pessoas foram raptadas no dia 8 de Outubro, no sábado, 10, um ataque terrorista em Chai provocou três feridos e já esta segunda-feira, dia 12, há o relato de que um grupo de insurgentes – como os terroristas são também chamados localmente – incendiaram e saquearam uma aldeia também em Mocímboa.
Estes acontecimentos vêm corroborar as palavras de D. António Juliasse que alertou, em mensagem para a AIS, em concreto para uma série de ataques ocorridos entre o sul do distrito de Mocímboa da Praia e o norte de Muidumbe, junto da bacia do rio Muera.
Bispo de Pemba lembra “absurdo da guerra”
Segundo o prelado, houve pelo menos 7 mortos e 20 pessoas foram raptadas, entre os dias 20 e 26 de Setembro, “além de vítimas ainda não contabilizadas nas aldeias de Mgunde e Magaia”. Ao fim de praticamente uma década de ataques terroristas, já com mais de 6.600 mortos contabilizados, a situação no norte de Moçambique continua muito grave.
“O povo clama por socorro e pede a intervenção e mediação da igreja”, diz o Bispo de Pemba à Fundação AIS, pedindo a intervenção das autoridades e a atenção da comunidade internacional, face ao “absurdo da guerra”. “É quase uma década de sofrimento contínuo, de perdas de vidas inocentes e com milhares de famílias forçadas a abandonar os seus lares”, diz D. Juliasse na mensagem de voz enviada para Lisboa.
Diante de um cenário onde o fim do conflito ainda parece distante, o que posso fazer neste momento é só reforçar o apelo de sempre aos governantes, para que tomem medidas firmes e urgentes, com afinco, e à comunidade global, à comunidade internacional, para que não se esqueça de Cabo Delgado e das suas necessidades humanitárias. É urgente que este conflito, esta guerra e o sofrimento do povo não caia no esquecimento.”
D. António Juliasse
Santa Sé alerta para o drama dos deslocados
A situação em Cabo Delgado, foi também assinalada por D. Paul Richard Gallagher numa sessão, na passada segunda-feira, dia 12, do Comité Executivo do Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados. Na reunião, que decorreu em Genebra, na Suíça, o secretário para as Relações com os Estados e as Organizações Internacionais da Santa Sé alertou para “as circunstâncias extremamente graves” que se estão a viver face à questão dos deslocamentos forçados das populações, sinalizando que, hoje em dia, nada menos do que 117 milhões de pessoas são “forçadas a deixar as suas casas”.
Isto significa que “uma em cada 70” pessoas é deslocada no mundo, com todos os dramas que isso acarreta, desde crianças separadas das famílias, mulheres e raparigas expostas a violência e exploração, e minorias religiosas e étnicas que são “perseguidas por causa da sua fé ou identidade”.
Um cenário trágico que, segundo o Arcebispo Paul Richard, se desenrola à frente dos nossos olhos na Ucrânia, aqui na Europa, mas também na região do Sahel, em África, no Sudão e Sudão do Sul, na República Democrática do Congo, em Mianmar, e em Cabo Delgado, Moçambique. A amplitude do problema e a “dimensão do sofrimento” dos refugiados “evidenciam a necessidade urgente de uma resposta colectiva, guiada pela humanidade comum, pela solidariedade e pelo senso de responsabilidade”, disse ainda o secretário para as Relações com os Estados e as Organizações Internacionais da Santa Sé.
Campanha da Fundação AIS em Portugal
A situação em Moçambique é acompanhada com preocupação pela Fundação AIS que lançou, em Junho deste ano, uma grande campanha de ajuda de emergência aqui em Portugal. Um dos objectivos desta iniciativa é sensibilizar os portugueses para a necessidade da ajuda à sobrevivência das famílias deslocadas.
Desde 2017 que cerca de 1 milhão e 200 mil pessoas foram forçadas a fugir, abandonando casas e campos agrícolas, vivendo agora apenas da caridade. A ajuda a estas famílias – com 45€ é possível alimentar uma família durante 1 mês – é uma prioridade para a Fundação AIS. Tal como o apoio à Igreja local.
Mas são vários os projectos lançados pela Fundação AIS. Desde o reforço da segurança das casas de religiosas na cidade de Pemba, pois já ocorreram assaltos graves a algumas comunidades, à formação de seminaristas e ao desenvolvimento do programa de acompanhamento espiritual aos deslocados, há várias iniciativas que os portugueses são convidados a apoiar, através da Fundação AIS.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt







