MOÇAMBIQUE: Centenas de fiéis recordaram os dois padres jesuítas martirizados em Chapotera, durante a guerra civil

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Os padres jesuítas João de Deus e Sílvio Alves foram assassinados há 41 anos na Diocese de Tete durante a terrível guerra civil moçambicana. O que aconteceu no dia 30 de Outubro de 1985 nunca mais foi esquecido. Sinal disso, centenas de fiéis voltaram este ano a reunir-se para lembrar a memória destes dois sacerdotes que ficaram conhecidos como os Mártires de Chapotera, e cujo processo de beatificação e canonização está a decorrer no Vaticano. O Bispo de Tete lembra que Moçambique continua a viver tempos duros, “e que o martírio faz parte ainda da experiência eclesial” e dá como exemplo disso a perseguição aos cristãos em Cabo Delgado.

Centenas de fiéis participaram nas cerimónias em memória dos padres João de Deus e Sílvio Alves, que decorreram na sexta-feira, 30 de Outubro, na Paróquia de São Francisco de Xavier de Lifidzi, na Diocese de Tete. Muitos dirigiram-se para o local durante o dia anterior e estiveram de vigília, em oração e evocação da memória da vida e missão destes dois sacerdotes cujo processo de beatificação e canonização está a decorrer no Vaticano.

E foi precisamente no local onde o sangue destes dois mártires foi derramado, em Chapotera, que se celebrou a Eucaristia que foi presidida por D. Diamantino Antunes, Bispo de Tete, e concelebrada por um número elevado também de sacerdotes. Os dois missionários jesuítas, João de Deus Kamtedza, moçambicano, e Sílvio Alves Moreira, português, foram mortos num ataque muito violento ainda durante a longa guerra civil entre o governo da Frelimo e os guerrilheiros da Renamo, conflito que durou 16 anos e que só terminaria em 1992. Uma guerra civil que provocaria directa ou indiretamente cerca de 1 milhão de mortos e que deixaria o país arruinado.

O martírio dos dois jesuítas

Nesse dia 30 de Outubro de 1985, como recorda o Bispo de Tete em mensagem enviada para a Fundação AIS em Lisboa, “homens armados invadiram a casa dos missionários jesuítas, sequestrando-os, e a poucos metros da residência torturaram-nos e mataram-nos a golpe de baioneta e de arma de fogo”. Foi um ataque premeditado, diz ainda D. Diamantino Antunes. Ambos os sacerdotes não calavam as enormes injustiças que então se faziam sentir neste país africano de língua oficial portuguesa. E pagaram com a vida essa ousadia.

Ambos sentiam como seus os sofrimentos e as esperanças do povo, no meio do qual viviam como missionários. A situação era particularmente delicada. A guerra, que nunca tem dono, semeava feridas profundas no povo. As injustiças, de bradar aos céus, sucediam-se como contas de um mistério doloroso interminável. ‘Quem cala consente’, diz o povo. E eles falaram, alto e bom som, na paz, contra as injustiças, vinganças e arbitrariedades, em defesa do povo inocente.”

E foram ameaçados de morte várias vezes. “Eles sabiam claramente que a sua vida corria perigo”, acrescenta o bispo de Tete. “Fizeram o discernimento necessário e decidiram ficar. Nas horas difíceis é que as ovelhas precisam de pastor. ‘O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas’. E eles deram-na até ao fim”, acrescenta o prelado, na mensagem enviada para a AIS em que evoca a história e o martírio dos padres João de Deus e Sílvio Alves Moreira.

Quarenta anos depois, a ameaça do terrorismo

Passaram muitos anos, mais de quarenta. Moçambique mudou. A guerra civil terminou, graças, em grande parte, ao esforço diplomático da Igreja Católica, nomeadamente da Comunidade de Santo Egídio, mas o país continua a viver tempos muito duros e exigentes. O conflito causado pelo grupo Estado Islâmico, no norte do país, em especial na província de Cabo Delgado, é disso o exemplo maior.

Desde 2017 que grupos armados jihadistas sobressaltam esta região que corresponde à Diocese de Pemba, mas também já ocorreram ataques em territórios das dioceses de Nampula, Nacala e Niassa. O balanço desses ataques é também aterrador: mais de 6.600 mortos e mais de 1 milhão e 200 mil deslocados. A Igreja, incluindo o próprio Vaticano, tem denunciado ao mundo esta situação que parece não ter fim à vista e que faz prolongar a miséria deste país que é considerado um dos 10 mais pobres em todo o mundo.

A importância da ajuda da Fundação AIS

D. Diamantino Antunes recorda também esta situação e lembra que os cristãos têm sido um dos alvos dos jihadistas. “Moçambique, hoje, é um país diferente em relação a 1985: há paz e liberdade religiosa. Todavia, o martírio ainda faz parte da experiência eclesial moçambicana: basta recordar a perseguição e morte de cristãos em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, ou então o bárbaro assassinato, em sua casa, do Bispo de Quelimane, D. Osório Citora, no passado 4 de Junho. Um acto inaudito, de grande gravidade”, refere o Bispo de Tete.

Um crime que permanece ainda sem solução do ponto de vista policial. As autoridades, ao fim de quase 5 meses, continuam sem indicar os autores materiais e morais do assassinato do bispo. Na mensagem enviada para Lisboa, D. Diamantino Antunes assinala ainda a importância da ajuda que a Fundação AIS tem dado à Igreja deste país africano.

“Agradecemos todo o apoio dado pela Fundação Ajuda à Igreja que sofre à Igreja Católica e à população em Moçambique, de modo particular na Diocese de Tete. Reconhecemos e apoiamos o empenho da Fundação AIS em ajudar as comunidades cristãs perseguidas, sofridas e necessitadas de apoio espiritual e material. Rezamos por todos os amigos e benfeitores da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre por todo o apoio que dão”, disse, a concluir, D. Diamantino Antunes.

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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