A reabertura das aulas na escola do Patriarcado Latino, em Gaza, após uma interrupção de quase três anos, por causa da guerra, foi um sinal de esperança. O jornalista Josué Villallon, do secretariado espanhol da AIS, integrou uma equipa da fundação pontifícia que esteve em visita de trabalho à região e relata o esforço da Igreja no apoio às populações da Terra Santa.
Mas a situação continua muito difícil. Ainda neste último sábado, um ataque de Israel à cidade de Gaza causou a morte a 5 civis, entre os quais duas mulheres, mãe e filha, da comunidade cristã.
Nas primeiras horas deste sábado, dia 3 de Outubro, um ataque aéreo israelita causou a morte a 5 civis e feriu várias pessoas. Entre as vítimas, estão duas mulheres, mãe e filha, da comunidade cristã. Ao saber da notícia, o Papa Leão XIV enviou uma mensagem de solidariedade ao pároco da paróquia da Sagrada Família, em Gaza.
“Bom dia, Padre Gabriel. Desde que tomei conhecimento da dolorosa notícia da morte de Maysa e Mary, rezo a Deus por elas, pelas suas famílias e por toda a comunidade de Gaza. Até quando, Senhor?”, lê-se na mensagem do Santo Padre, enviada ao Padre Gabriel Romanelli, e citada pelo portal ‘online’ do Vaticano. “Obrigado pelo apoio à paróquia e a tantas pessoas que desejam viver em paz. Bênçãos e um abraço afectuoso”, acrescentou Leão XIV, na referida mensagem.
O complexo da Paróquia da Sagrada Família, em Gaza, tem sido o lar de centenas de pessoas desde que teve início a guerra entre Israel e o grupo Hamas. Trata-se da única paróquia católica do enclave palestiniano.
Sinal de grande esperança
“Este é um território marcado pela guerra, pela violência e pela divisão que cresceu nos últimos três anos, após os acontecimentos de 7 de Outubro de 2023, e da guerra em Gaza”, descreve Josué Villallon, jornalista do secretariado espanhol da Ajuda à Igreja que Sofre, que integrou uma equipa da fundação pontifícia que esteve recentemente de visita à Terra Santa. Uma visita que ficou marcada pela reabertura oficial, em Gaza, a 22 de Setembro, da escola do Patriarcado Latino. Uma reabertura muito festejada, pois a escola esteve fechada durante quase três anos por causa da guerra que tomou conta do enclave.
Para Villallon, falar disto, dessa reabertura, é dar, apesar de todas as circunstâncias, uma notícia “de grande esperança”.
Foi o primeiro colégio a reabrir depois de três anos de guerra, e como nos comentava o Padre Romanelli, Pároco da Paróquia Católica da Sagrada Família de Gaza, a única paróquia nesta região, a reabertura da escola é um sinal de grande alegria, de grande esperança, pois foi um esforço muito grande para a Igreja local reabrir este colégio, mas que era importante fazê-lo, e fazê-lo neste momento.”
Josué Villallon
“Era importante fazê-lo agora”, acrescenta, “para transmitir às famílias católicas, mas também aos vizinhos dessa zona da cidade velha de Gaza, que há um futuro para os seus filhos”.
Milhões de toneladas de escombros
Não é fácil, porém, falar-se de futuro num território que ficou profundamente marcado pela guerra, pela destruição. Segundo dados da semana passada do portal de notícias do Vaticano, mais de metade da Faixa de Gaza permanece sob controlo das forças de Israel e há, em todo o lado, sinais da tragédia da guerra. Diz o Vatican News que em Gaza há cerca de 61 milhões de toneladas de escombros que será necessário remover, escombros que “escondem munições não detonadas e, segundo estimativas das Nações Unidas, ainda entre 8 mil e 10 mil corpos”.
A reabertura da escola, para cerca de mil alunos, é, pois, neste contexto, um evento extraordinário. Diz Villallon, numa mensagem enviada para a AIS em Portugal, que “esses novos mil alunos são crianças que têm neste momento um futuro, uma esperança”, e que é, por isso também muito importante, a solidariedade do mundo e de instituições como a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre.
A Igreja é uma instituição muito respeitada
Mas a viagem da equipa da Fundação AIS esteve também em Jerusalém, na Cisjordânia, e no norte de Israel. E por todo o lado, se escutou quase sempre a mesma mensagem, o mesmo lamento por parte dos cristãos.
“Transmitiram-nos como é o seu dia-a-dia hoje, as grandes necessidades, o isolamento económico, o aumento dos preços dos bens básicos, de primeira necessidade, e também a enorme insistência da Igreja local no apoio à educação, porque a Igreja tem muitos colégios na região, são cerca de 70 centros educativos, desde escolas de infância até universidades… Eles valorizam muito a educação, pelo que se está a transmitir a fé às novas gerações e também o que se está a conseguir fazer para que estas novas gerações sejam abertas ao diálogo, ao encontro, à paz.”
“Em muitos destes centros – esclarece ainda Josué Villallon – estudam também muçulmanos. É uma forma de se entrar em diálogo com esta comunidade, também muito presente na Terra Santa, que depois também vê a Igreja como uma instituição de respeito, como uma instituição que favorece toda a sociedade”, afirma.
“Uma enorme experiência espiritual”
Mas a guerra teve também uma consequência desastrosa ao nível do turismo e na polarização da sociedade. “Eles pediram, por favor, que as pessoas voltem a peregrinar à Terra Santa. É verdade que, em certas ocasiões, as situações de segurança não são as melhores, mas já se pode voltar a peregrinar à Terra Santa e todos estão de braços abertos desejando receber-nos”, afirma o jornalista espanhol da Fundação AIS.
“Os cristãos dependem muito do turismo, muitos deles trabalham neste sector, e hoje vêem os seus meios de subsistência em perigo por falta de turistas e de peregrinos”, diz, acrescentando que trouxe da viagem também uma experiência espiritual muito forte. “O que mais me impactou desta viagem, em que também tivemos a oportunidade, obviamente, de visitar lugares de peregrinação muito importantes para o cristianismo, como é o Santo Sepulcro, em Jerusalém, ou a Basílica da Natividade, em Belém, o que mais me impactou foi testemunhar o vazio que há nesses lugares, ver que há pouquíssimas pessoas a visitar esses lugares… Para nós, foi um momento de oração forte e importante, uma enorme experiência espiritual”, concluiu.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt







