FRANÇA: Comunidade portuguesa, especialmente em Paris, aguarda com muita expectativa a visita do Papa

Começa amanhã, dia 25, a visita de quatro dias do Papa Leão XIV a França. Uma visita que, naturalmente, está a gerar muita expectativa entre a numerosa comunidade portuguesa, especialmente na região de Paris.

Dois sacerdotes, um deles frade dominicano e o outro o capelão da paróquia portuguesa em Gentilly, falaram à Fundação AIS sobre a importância desta visita e também sobre o enorme dinamismo de fé que existe actualmente entre os migrantes, que estão atentos também ao que se passa no mundo no que diz respeito à perseguição aos Cristãos.

Dois sacerdotes portugueses projectam a visita do Papa a França, visita que se inicia já amanhã, sexta-feira, dia 25. Durante quatro dias o Santo Padre vai visitar Paris, com destaque para a celebração na renovada Catedral de Notre-Dame, vai ao Santuário de Lourdes e à cidade de Metz, a terra natal de Robert Schuman, um dos pais fundadores da União Europeia.

O frade dominicano Luís Almeida Monteiro, e o Padre Rui Manuel Silva Pedro, que é capelão da paróquia portuguesa do Sacre-Coeur, em Gentilly, conhecem particularmente bem o país e a comunidade portuguesa e falam, à Fundação AIS, da expectativa desta visita histórica, sublinhando o dinamismo das comunidades migrantes, mas sem nunca esquecer que a França tem assistido também, nos últimos anos, a uma onda de incidentes, de profanações de igrejas…

Calcula-se que, em toda a França vivam, actualmente, cerca de 1,7 milhões de portugueses ou luso-descendentes. Só na região de Paris serão mais de 200 mil. A paróquia do Sacre-Couer, em Gentilly, é o ponto de encontro dos católicos portugueses que vivem na capital francesa. O Padre Rui Manuel Silva Pedro é, actualmente, o capelão desta paróquia, mas toda a sua vida tem sido, de certa forma, dedicada ao serviço dos migrantes lusos.

Antes, este padre scalabriniano que nasceu em Peniche, esteve no Luxemburgo e até já foi Director Nacional da Obra Católica Portuguesa das Migrações. Hoje, em Gentilly, ele prepara com os portugueses, e com muito entusiasmo, o acolhimento ao Santo Padre, dando resposta, aliás, aos apelos da própria Diocese de Paris.

“O primeiro, foi o apelo a voluntários, e temos portugueses inscritos no voluntariado, o apelo também ao dom, e num destes fins de semana dedicámo-nos a recolher dons para as despesas do Papa, e também nos inscrevemos ‘online’ nos vários momentos de oração e de encontro”, diz o sacerdote à Fundação AIS. “Temos 20 jovens inscritos para a Vigília dos Jovens no Estádio de França, temos 60 cristãos da comunidade inscritos para a missa com o Papa na praça da Concórdia, e os religiosos que estão na paróquia, eu e o Irmão Nuno, dehoniano, vamos participar nas Vésperas na Catedral de Notre-Dame, em Paris”, acrescenta.

Comunidades vivas e fundamentais

A comunidade portuguesa, como de alguma forma todos os migrantes, aguardam com entusiasmo esta visita e tudo o que o Papa, o sucessor de Pedro, vai dizer.

“Esperamos que ele venha confirmar-nos na fé e na fé como imigrantes, isto é, sendo de facto Paris uma diocese com 25 comunidades de imigrantes, esperamos que haja uma palavra também para nós, para que nós continuemos o nosso processo de participação na Igreja local, para que nos integremos serenamente, para haver um enriquecimento recíproco entre nós e também os franceses, de modo a que tomemos esta consciência, e a diocese igualmente, que as comunidades de imigrantes são comunidades vivas e importantes para o futuro da igreja e também do seio delas estão a surgir muitos catecúmenos”, observa o Padre Rui Silva Pedro.

Também o frade dominicano Luís Almeida Monteiro destaca o dinamismo de fé das comunidades migrantes. Actualmente a viver em Zurique, na Suíça, onde é capelão da missão católica francesa, o religioso português acompanha tudo o que se passa neste país e já desempenhou cargos de enorme relevo. Foi secretário-geral da província dominicana francesa, director da biblioteca da congregação e chegou a ser o capelão-adjunto da comunidade portuguesa em Auteil.

“Será interessante para nós observarmos as palavras que o Papa vai dirigir aos católicos, aos cristãos franceses para daí recebermos algo também para as nossas comunidades. Aqui, particularmente em Zurique – diz o frade dominicano –, onde recebo quotidianamente cristãos franceses, vejo uma efervescência da vida cristã, com jovens que batem também aqui à porta da Igreja, particularmente vindos de França”, diz.

O que esperar da visita do Papa Leão?

Para este dominicano, a visita do Papa a França é muito significativa, até porque há 18 anos que formalmente este país não acolhe o sucessor de Pedro. O que esperar, então, de Leão XIV? “Ele vem encorajar a igreja a reavivar a fé dos fiéis e manifestar a alegria de sermos crentes, de acreditarmos em Jesus. O tema desta viagem é para que o mundo tenha vida e haverá também uma etapa muito importante na cidade de Metz”, sublinha o religioso português.

“Metz fica na Lorena, no leste da França, e é uma cidade que foi uma região muito martirizada durante as duas últimas Guerras Mundiais, e nesta cidade viveu Robert Schumann, que foi um dos grandes obreiros da reconciliação franco-alemã. Portanto, creio que a mensagem que será dita a partir da Catedral de Metz, na Lorena, será importante no quadro de tudo aquilo que vivemos actualmente na Europa, como a guerra na Ucrânia e outros conflitos. O Papa também quer ajudar os cristãos de França a serem cristãos convictos e felizes para partilharem a fé e recordar também que a França tem um papel a desempenhar no quadro europeu e no quadro da Igreja Universal”, conclui.

Profanação e vandalização de igrejas em França

A visita do Papa, ao longo de quatro dias – termina na segunda-feira, 28 – terá, pois, diversos momentos muito significativos. Para Frei Luís Monteiro, estes quatro dias vão permitir “colocar os projectores sobre aquilo que se está a viver no país e também as dificuldades, as grandes dificuldades que se vivem em França, dificuldades de ordem económica, dificuldades de ordem social”, refere o dominicano, lembrando que esta visita de Leão XIV ocorre também num tempo em que há um “fenómeno recorrente de profanação de igrejas em França, não apenas em França, mas particularmente em França”.

O Padre Rui Pedro assinala também essa onda de violência que muitas vezes tem passado despercebida aos olhos da maioria das pessoas.

Tem existido recentemente, em algumas partes de França, actos de fanatismo, actos de vandalismo das igrejas, houve igrejas incendiadas, houve sacerdotes que foram assassinados recentemente também, tem havido vários acontecimentos que nos deixam alguma preocupação.”

“Também connosco, em Chantilly, se passa a mesma coisa. De facto, não temos igreja aberta se não haver vigilantes e esta insegurança paira no ar em várias partes da cidade de Paris. Mas não só na igreja, também no metro, também nos transportes, tem havido de facto cenas desagradáveis que nos levam a ter muita cautela nas nossas deslocações também”, explica o sacerdote.

Uma paróquia de Paris atenta à Fundação AIS

Mas, à parte a violência, é significativa a vida da comunidade migrante. Tal como o frade dominicano tem observado na sua comunidade, no coração de Paris a vida religiosa está muito activa. Em Gentilly, explica o Padre Rui Pedro, a missa dominical é participada por cerca de 1200 pessoas, oriundas de várias zonas de Paris, e há ainda cerca de 300 crianças na catequese. “E, nos últimos tempos, de ano para ano, têm aumentado os pedidos de adultos para serem baptizados”, sublinha o sacerdote que espera uma palavra do Papa para as diversas comunidades migrantes que vivem em França. 

“O que nós esperamos é uma palavra sobre a migração, pois este é um país feito de tantos povos, de tantas realidades, um país onde está em jogo a dimensão laica da sociedade, mas também a liberdade religiosa… Vamos ver também o que o Papa nos diz sobre o diálogo inter-religioso, a inter-culturalidade, de modo que nós possamos continuar o nosso caminho, integrado na igreja local”, referiu. 

Quando o Papa estiver em Paris, poderá, ou não falar da questão da perseguição religiosa, da perseguição aos cristãos no mundo. Um tema que, contudo, é já discutido na Paróquia do Sacre-Couer de Gentilly, onde o trabalho da Fundação AIS é acompanhado com muita atenção.

“Temos acesso ao relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, da Fundação AIS, e nós procuramos sensibilizar os nossos cristãos para o que se passa na Nigéria, em tantos países onde, de facto, hoje acontece a perseguição aos cristãos, de modo a que os nossos cristãos portugueses, lusófonos, que felizmente não vivem em estado de perseguição, possam ter esta dimensão missionária, serem informados do que se está a passar em algumas partes do mundo, serem solidários também na oração e em donativos e ter esta consciência de que, de facto, hoje há irmãos nossos no mundo que são fiéis ao Evangelho, resistem às dificuldades em países onde não há liberdade religiosa e também temos irmãos que são perseguidos, acusados injustamente e estão presos”, refere o sacerdote à Fundação AIS.

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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