VATICANO: Papa denuncia que 360 milhões de cristãos sofrem “perseguição e discriminação” por causa da sua fé

No encontro com o Corpo Diplomático creditado na Santa Sé, o Papa Francisco denunciou o aumento da perseguição e discriminação aos cristãos, que se tem acentuado “sobretudo nos últimos dez anos”. E defendeu, uma vez mais, a importância do diálogo inter-religioso “e o respeito pelas minorias”.

O tradicional discurso do Papa perante o corpo diplomático creditado na Santa Sé ficou marcado este ano, e uma vez mais, por um forte apelo à paz e ao fim dos conflitos existentes no globo, em que Francisco manifestou a sua profunda preocupação pelo destino de milhões de pessoas vítimas de violência, de guerras, de pobreza. Mas também foi uma oportunidade para o Papa recordar que os cristãos continuam a ser uma comunidade religiosa particularmente perseguida e discriminada no mundo.

Já na recta final do discurso de cerca de 40 minutos, o Santo Padre recordou a sua preocupação por esta situação que se tem vindo a agravar e que, sublinhou, afecta “mais de 360 milhões” de cristãos. “Preocupa o crescimento da perseguição e da discriminação contra os cristãos, sobretudo nos últimos dez anos”, disse o Papa no seu discurso perante os embaixadores.

“Embora de forma incruenta, mas socialmente relevante, tem a ver, não raro, com fenómenos de lenta marginalização e exclusão da vida política e social e do exercício de certas profissões, que acontecem mesmo em terras tradicionalmente cristãs.”

Globalmente existem no mundo mais de 360 milhões de cristãos que sofrem um alto nível de perseguição e discriminação por causa da sua fé, e cresce sempre mais o número daqueles que são forçados a fugir das suas terras de origem.”

A AMEAÇA TERRORISTA E O PAPEL DOS JOVENS

A preocupação do Papa estende-se a todas as vítimas da perseguição religiosa, particularmente as minorias que estão sujeitas, em tantos países, a situações dramáticas, nomeadamente por causa do terrorismo.

“As comunidades religiosas minoritárias encontram-se frequentemente numa situação cada vez mais dramática. Nalguns casos, correm o risco de extinção, devido a uma combinação de ações terroristas, ataques ao património cultural e medidas mais subtis, como a proliferação das leis anti-conversão, a manipulação das regras eleitorais e as restrições financeiras”, explicou o Santo Padre.

A questão do antissemitismo inquieta também Francisco. “Preocupa, particularmente, o aumento dos atos de antissemitismo verificados nos últimos meses; reitero mais uma vez que este flagelo deve ser erradicado da sociedade, sobretudo através da educação para a fraternidade e o acolhimento do outro”, disse ainda o Papa.

Perante esta realidade, Francisco voltou a destacar a importância da educação para a paz e lembrou a Jornada Mundial da Juventude, que se realizou no início de Agosto em Lisboa, como um sinal de que é possível superar sempre as diferenças.

“O caminho da paz passa pela educação, que é o principal investimento no futuro e nas gerações jovens. Permanece viva em mim a recordação da Jornada Mundial da Juventude realizada em Portugal no passado mês de agosto. Ao mesmo tempo que volto a agradecer às Autoridades portuguesas, civis e religiosas, o empenho posto na organização, conservo no coração aquele encontro com mais de um milhão de jovens, provenientes de todas as partes do mundo, cheios de entusiasmo e vontade de viver. A sua presença foi um grande hino à paz e o testemunho de que a unidade é superior ao conflito e que é possível desenvolver uma comunhão nas diferenças”, disse o Papa.

RISCO DE UMA TERCEIRA GUERRA MUNDIAL

No seu discurso, Francisco manifestou ainda a preocupação pelas guerras que estão a decorrer em vários países e para o risco de um conflito mais global. “O mundo é atravessado por um número crescente de conflitos que estão lentamente a transformar aquela que tenho repetidamente definido como ‘terceira guerra mundial aos pedaços’ num verdadeiro conflito global”, disse o Santo Padre, elencando, depois, alguns dos países ou regiões em guerra e que mais o inquietam.

É o caso do conflito na Palestina e Israel e que já se estende ao Líbano. Um conflito que “desestabiliza ainda mais uma região frágil e carregada de tensões”, disse o Papa sinalizando em particular o que se está a passar na Síria. “Não se pode esquecer o povo sírio, que vive na instabilidade económica e política, agravada pelo terramoto de fevereiro passado”, disse ainda o Santo Padre.

Mas houve outros conflitos e situações humanitárias preocupante e que foram referidos no discurso perante os embaixadores creditados na Santa Sé. Foi o caso de Myanmar, onde existe uma situação de “emergência humanitária” que afecta os Rohingya, a Ucrânia, que vive uma guerra que está quase a entrar no terceiro ano – “não se pode deixar continuar um conflito, que se está gangrenando cada vez mais, com dano para milhões de pessoas, mas é preciso que se ponha termo à tragédia em curso através da negociação, no respeito pelo direito internacional” –, e ainda lembrou a situação tensa que se vive, por exemplo, entre a Arménia e o Azerbaijão.

O DRAMA DOS DESLOCADOS EM MOÇAMBIQUE

O Papa referiu ainda “as fortes tensões” que se vivem nas Américas, com destaque para a Venezuela e Guiana, mas teve uma referência muito particular para África, lembrando o drama dos milhões de deslocados neste continente, vítimas de guerras, de terrorismo, de uma violência que parece não ter fim.

E lembrou mesmo Moçambique, que enfrenta, desde Outubro de 2017, uma insurgência islâmica na província de Cabo Delgado. “Quero recordar também os acontecimentos dramáticos no Sudão, onde infelizmente, depois de meses de guerra civil, ainda não se avista uma saída; bem como as situações dos deslocados nos Camarões, em Moçambique, na República Democrática do Congo e no Sudão do Sul”, disse Francisco. 

Em todos estes países, em todos estes lugares há pessoas que sofrem, há pessoas que são vítimas, há pessoas que precisam de ajuda. São, lembrou, as vítimas civis. Pessoas concretas que não podem ser vistos, sublinhou, como danos colaterais.

São homens e mulheres com nomes e apelidos que perdem a vida. São crianças que ficam órfãs e privadas do futuro. São pessoas que padecem a fome, a sede e o frio ou que ficam mutiladas por causa da potência das armas modernas. Se conseguíssemos fixar cada um deles nos olhos, chamá-los por nome e evocar a sua história pessoal, veríamos a guerra como ela é: nada mais que uma enorme tragédia e um massacre inútil, que fere a dignidade de toda a pessoa nesta terra.”

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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