A região leste da República Democrática do Congo, onde desde o final de 2024 se tem registado uma ofensiva por parte de grupos armados, tem sido palco de enorme sofrimento para as populações civis, nomeadamente as mulheres e as crianças. O Padre Marcelo Oliveira, missionário comboniano a viver há vários anos neste país, denuncia, em mensagem enviada para a Fundação AIS em Lisboa, a situação complicada que se vive na região, “em que as mulheres são usadas para violências sexuais, e mesmo para escravidão”.
No dia 26 de Março deste ano, o Conselho de Segurança da ONU analisou um relatório sobre a situação no leste da República Democrática do Congo. A sessão ocorreu horas depois de a vice alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos, Nada Al-Nashif, ter revelado que tinham sido registados 2.560 casos de abusos afectando 6.760 vítimas, especialmente nas províncias do Kivu Norte, Kivu Sul e Ituri.
Apenas nos últimos cinco meses, foram documentadas cerca de 600 execuções sumárias que provocaram a morte de mais de 1.300 pessoas. Estima-se que 1.500 foram sequestradas durante o mesmo período. A violência incluindo casos de tortura, violação e outros tratamentos desumanos fizeram outras 1.200 vítimas.”
ONU News
Para as Nações Unidas, “o uso persistente da violência sexual como táctica de guerra inflige sofrimento indescritível” às mulheres e meninas congolesas. Desde Outubro do ano passado, houve mesmo “uma escalada de casos contra crianças”, diz ainda a ONU. Uma realidade que é também denunciada pelo Vaticano.
“Violações durante os ataques a aldeias, estupros colectivos, por vezes públicos, actos de violência cometidos na presença de familiares, sequestros nas estradas ou nos campos, cativeiro e escravidão sexual, invasões nocturnas de residências, abusos durante a detenção”, pode ler-se no portal de notícias do Vaticano num artigo no final de Março intitulado precisamente “o estupro como arma de guerra”. Um artigo em que se escreve que “a lista de horrores” da guerra na parte oriental da República Democrática do Congo não pára de crescer e em que são referidas as províncias de Kivu do Sul e do Norte e de Ituri, como estando no epicentro dos confrontos entre o exército congolês e os grupos paramilitares, em sua maioria ligados ao movimento armado M23, confrontos que estão na origem da violência sexual contra mulheres e meninas congolesas.
“São obrigadas a gerar as crianças”
Para Marcelo Oliveira, sacerdote comboniano a viver há vários anos na República Democrática do Congo, esta é uma realidade dramática que tem mesmo de ser denunciada. Em mensagem enviada para a Fundação AIS em Lisboa, o missionário português explica que grande parte desta violência ocorre de facto nas províncias do Kivu Norte e Kivu Sul, e que é “fruto da guerra” na região.
Recorde-se que desde o final de 2021, o Movimento 23 de Março (M23), com o apoio de Ruanda, começou a tomar o controlo de grandes extensões de território no leste da República Democrática do Congo, que é uma região particularmente rica em recursos naturais, como o ouro, diamantes e colton, essencial para a produção de ‘smarthones’ e computadores, por exemplo.
O grupo rebelde assumiu no ano passado o controlo de grande parte das províncias de Kivu Norte e Kivu Sul, incluindo as respectivas capitais, as cidades de Goma e Bukavu, no âmbito de uma ofensiva militar que agravou as tensões entre Kinshasa e Kigali. Toda esta ofensiva militar está a provocar, sublinha o Padre Marcelo, uma onda de violência de carácter sexual contra mulheres e crianças, lembrando o sacerdote que esta questão foi também apresentada recentemente em Nova Iorque, na Comissão da Condição da Mulher, da ONU, pela responsável do governo da República Democrática do Congo.
Como descreve o sacerdote na mensagem enviada para a Fundação AIS, os “grupos armados continuam a usar mulheres, seja para violências sexuais, e mesmo para escravidão, e com a consequência de [haver] crianças que nascem fruto das violações”. Para o sacerdote, esta é “uma realidade triste, com pessoas que sofrem, com mulheres que são obrigadas a gerar crianças e que não optam pelo aborto, mesmo que seja uma gravidez forçada”. E muitas destas mulheres, acrescenta o Padre Marcelo Oliveira, ficam com traumas para o resto das suas vidas. “Vão continuar a sofrer por falta de apoio, por falta de atenção, e o silêncio é aquilo que reina”, diz.
Referindo a intervenção da chefe do executivo no dia 9 de Março na ONU, onde Judith Suminwa Tuluka referiu que “as violências infligidas às mulheres não podem, de algum modo, ser banalizadas, nem colocadas no invisível”, o padre português reconhece que pouco ou nada, no entanto, vai ser feito para resolver este problema. “Foi um apelo que ela lançou ao mundo, nas tribunas da ONU, mas depois fica o silêncio. É uma realidade triste”, diz, pedindo as orações a todos, através da AIS, para a inversão desta situação. “Continuemos a rezar por estas mulheres, tantas vezes perseguidas, sofredoras, mas que continuam a acreditar num valor fundamental, que é o valor da vida humana”, diz a concluir.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt




