VENEZUELA: Sobreviventes do terramoto recordam vítimas “não pela tragédia, mas pela luz que deixaram”

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Três meses após o devastador terramoto que assolou a Venezuela, os jovens da Diocese de La Guaira reuniram-se para rezar, cantar e recordar aqueles que faziam parte dos seus grupos, paróquias e actividades pastorais. “Eram pessoas cheias de luz e de vida”, disse à Fundação AIS uma jovem que perdeu as suas duas irmãs.

Três meses após o terramoto que causou milhares de mortos, os jovens da Diocese de La Guaira querem que os seus amigos sejam recordados não pela tragédia que lhes tirou a vida, mas pela forma como viveram. Jovens e famílias reuniram-se na Plaza Jerusalén, em Maiquetía, para celebrar a Eucaristia, cantar e recordar os jovens católicos que faleceram a 24 de Junho. “Eram pessoas cheias de luz e de vida”, explica Crystal Olivo, membro da Pastoral Juvenil e do Secretariado Diocesano para a Pastoral Juvenil de La Guaira, à Fundação pontifícia AIS.

Crystal conhece essa dor de uma forma profundamente pessoal. No terramoto, perdeu as suas duas irmãs — Chantal, de 17 anos, e Clara, de 8 anos —, bem como amigos e colegas da Pastoral Juvenil. “As minhas irmãzinhas eram um reflexo vivo da santidade”, afirma. Chantal estava profundamente envolvida com a Igreja. Cantava no coro, participava no grupo de jovens e na catequese e demonstrava uma curiosidade especial por tudo o que se relacionasse com a fé.

Crystal recorda que, durante um encontro de Páscoa da Juventude, os animadores procuravam nomes de jovens santos para os diferentes grupos. “Chamaram Chantal e, num instante, ela deu-lhes uma lista de 16 nomes de jovens santos. Ela adorava investigar a sua fé e gostava tanto disso que queria reflecti-la e mostrá-la ao mundo.”

A sua irmã mais nova, Clara, era muito diferente, mas partilhava essa mesma alegria. Clara nasceu em 2017, no meio de uma grave crise económica e social na Venezuela que também afectou directamente a sua família. “Ela chegou, literalmente, para trazer alegria à vida de todos”, recorda Crystal. “Era uma criança de luz, cor e risos”, recorda Crystal.

A menina tinha superado vários problemas de saúde desde muito cedo. “Ela sempre foi uma sobrevivente”, diz a irmã. Era curiosa, ousada e não tinha medo de experimentar coisas novas. A 24 de junho, pouco antes do terramoto, Clara tinha participado na Missa vestida de Nossa Senhora da Candelária na igreja de Caraballeda. “Ela estava tão bonita. Irradiava luz”, recorda Crystal. “A Clara sempre fora muito activa, fazia tudo e nunca ficava quieta. Mas naquele dia estava serena. Ouvia a Missa, estava cheia de luz, tinha o cabelo bem arranjado e foi assim que partiu.”

Jovens que deixaram uma marca indelével

As irmãs de Crystal não foram as únicas vítimas entre os jovens da Igreja de La Guaira. “O grupo de jovens mais afectado pelo terramoto foi o meu. Vivíamos mesmo no epicentro, e muitos dos nossos jovens estavam naqueles edifícios naquele momento”, conta ela à Fundação AIS. O grupo perdeu oito dos seus membros. Entre eles estava Nayra, de 18 anos, a melhor amiga de Chantal. As duas não se viam há algum tempo devido aos estudos e, precisamente naquele dia, tinham decidido encontrar-se. Crystal tinha saído de casa apenas alguns minutos antes. “Eu estava fora do edifício há cinco minutos, precisamente quando Nayra entrou em minha casa para ver a minha irmã”, conta. “As suas almas eram tão puras, tão ligadas, que todos dizem que não se encontravam almas gémeas como elas”, recorda. “Tanto que partiram juntas.”

Ela também se lembra de Alejandro, “um jovem muito perseverante e carinhoso que deu a vida para salvar a namorada”, e de Juan — Juancho para os amigos —, um jovem que chegou à Igreja quase por acaso, depois de ver fotos de actividades pastorais no WhatsApp.

No início, Juancho queixava-se da quantidade de actividades para as quais era convidado e de como raramente iam à praia. «Ele dizia sempre: “Amanhã não vou, não vou, não vou”», recorda Crystal. No entanto, acabava sempre por aparecer. Quando ficava sem luz em casa, ligava para perguntar que actividade se realizava na igreja naquele dia e dirigia-se para lá. Com o tempo, acabou por se tornar acólito.

Eduarlys conhecia em primeira mão as dificuldades que o país enfrentava. Trabalhava todos os dias para sobreviver e ajudar a criar o seu irmão Miguel, mas Crystal lembra-se dele, acima de tudo, pela sua alegria: “Ele tinha um sorriso lindo e estava sempre pronto para dar um abraço. Era um verdadeiro lutador e muito perseverante.” Ambos os irmãos morreram no terramoto. “Tal como conto a história do meu grupo, poderia falar-vos de milhões de jovens que perderam a vida”, diz Crystal.

Ela também se lembra de José, de Maiquetía, que estava sempre pronto a servir: “Esse tipo de energia, essas pessoas que dizem sim a tudo — mesmo que isso signifique partir em missão para a montanha mais remota — são as pessoas que, na pastoral juvenil, valem o seu peso em ouro”, afirma Crystal. “Eles fazem-no com um coração pronto para conhecer Deus.”

Recordá-los tal como eram

Esse é também o significado que os jovens quiseram dar ao encontro realizado no sábado em Maiquetía. O apelo à participação resumia o espírito do evento: “Não os recordamos pela tragédia, mas pela luz infinita das suas almas.” Para Crystal, descrever quem eram as suas irmãs e amigas também faz parte do caminho que tem pela frente. “O que fazemos para transmitir a fé em Deus é o que deixamos no coração dos outros”, diz ela. “Foi isso que elas fizeram: deixaram as suas almas gravadas no coração de todos à sua volta.”

Desde o terramoto de 24 de Junho, a Fundação AIS tem acompanhado a Igreja Venezuelana na sua resposta de emergência, particularmente em La Guaira e Caracas, apoiando padres, religiosas e agentes pastorais que trabalham com as comunidades afectadas.

Maria Lozano | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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