VATICANO: Papa denuncia violência terrorista em Cabo Delgado e pede paz para esta “região martirizada” de Moçambique

O Santo Padre lembrou ontem que Cabo Delgado está de novo a ser alvo de ataques terroristas e que na última semana foi “incendiada a missão católica de Nossa Senhora de Fátima, em Mazeze”. O Papa pediu as orações de todos para que a paz possa regressar a esta “região martirizada” de Moçambique.

Foi um dos alertas do Santo Padre, ontem, domingo, 18 de Fevereiro, após a oração do Angelus. Desde a janela do apartamento pontifício, o Papa Francisco lembrou que a região de Cabo Delgado, situada a norte de Moçambique, voltou a ser sobressaltada por uma série de ataques terroristas.

O Papa disse que a “violência contra populações indefesas, a destruição de infraestruturas e a insegurança estão novamente desenfreadas na província de Cabo Delgado”. Francisco referiu concretamente o caso de um ataque a uma estrutura da Igreja em Mazeze, lembrando que nesta localidade foi “incendiada a missão católica de Nossa Senhora da África”.

O Papa pediu aos milhares de peregrinos que o escutavam na Praça de São Pedro que rezassem para que a paz possa “regressar a essa região martirizada”, mas lembrou outros países e regiões do globo que precisam também das orações de todos pois, tal como Moçambique, são igualmente palco de ataques terroristas, de guerras, de violência. “Por favor, não esqueçamos os muitos outros conflitos que ensanguentam o continente africano e muitas partes do mundo, na Europa, na Palestina, na Ucrânia”, disse Francisco, insistindo no facto de que a guerra é sempre uma derrota. “Não o esqueçamos: a guerra é sempre uma derrota. Sempre.”

ATAQUES A MISSÕES DA IGREJA

Os ataques terroristas que referiu o Papa Francisco têm ocorrido nas últimas semanas, mas ganharam uma dimensão preocupante a partir essencialmente de 9 de Fevereiro, com incursões armadas quase em simultâneo em várias aldeias, como a Fundação AIS noticiou na ocasião.  Só na sexta-feira, dia 9, os terroristas que reivindicam pertencer ao Daesh, o grupo jihadista Estado Islâmico, atacaram três povoações em Mazeze, no distrito de Chiúre, provocando o pânico nas populações que se puseram em fuga, ou escondendo-se nas matas.

Como a AIS publicou, citando um missionário – cuja identidade foi preservada por questões se segurança – “as igrejas foram queimadas assim como as casas da população”. E os ataques prosseguiram para outras localidades provocando uma nova onda de deslocados.
Um dos locais visados pelos terroristas foi a Missão de Nossa Senhora de África, em Mazeze. No dia 12 de Fevereiro, além da destruição da Igreja Católica – que o Papa Francisco referiu ontem –, dos edifícios da Missão e da secretaria paroquial, foi também atacado e destruído o edifício-sede do Posto Administrativo local, assim como o Centro de saúde e a escola.

CÁRITAS DE PEMBA SEM RECURSOS

Todos estes ataques estão a agravar a já muito difícil situação que se vive na região norte de Moçambique. Como a Fundação AIS também já noticiou, neste momento a Cáritas de Pemba Católica está sem recursos para acudir a esta nova emergência humanitária no território.

Betinha Ribeiro, gestora de projectos da Cáritas diocesana, reconhece a delicadeza da situação pois, como explicou à Ajuda à Igreja que Sofre, não existe neste momento forma de “ajudar esses nossos irmãos que estão a sofrer estes últimos ataques”. A responsável disse que seriam necessários pelo menos cerca de 200 mil euros – “esse seria o valor mínimo” – para dar resposta às necessidades mais prementes dos novos deslocados.

“Neste momento, a Caritas tem vindo a receber muitos pedidos para poder ajudar essas famílias que chegam, e outras que vão para as suas zonas de origem”, reconhece Betinha Ribeiro, mas, “por falta de recursos financeiros”, não tem sido possível dar a resposta necessária. “Actualmente, a Caritas está a passar por uma situação de crise financeira comparando com os anos passados em que, se calhar, ocupávamos o segundo lugar depois do PMA [Programa Mundial de Alimentação, das Nações Unidas] na área da assistência humanitária, e nós respondíamos a todas as áreas”, acrescentou a responsável.

CNJP FALA EM “TRAGÉDIA”

A nova onda de violência no norte de Moçambique tem vindo a desencadear alertas por parte de responsáveis da Igreja em Portugal. Ainda na última semana, a Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP), organismo da Igreja Católica em Portugal, falou da “tragédia” que se vive em Cabo Delgado, denunciando o aumento de ataques terroristas na região.

Chegaram-nos recentemente notícias de que a situação não melhorou (apenas se deixou de falar dela): intensificaram-se os ataques terroristas a várias aldeias, com destruição de casas, igrejas e mesquitas e o número (superior a um milhão) de pessoas forçadas a deixar as suas terras não para de aumentar.”

Também o Arcebispo de Braga, em entrevista à agência de notícias da Igreja Católica em Portugal e à Rádio Renascença reconhecia que a comunidade internacional “tem sido indiferente, tem assobiado para o lado, não quer saber [do que se passa em Cabo Delgado], porque há muitos interesses em jogo”. Vive-se este momento de um novo temor na insegurança, que parece que volta a aproximar-se por esses grupos fundamentalistas e mais radicais, que não têm nenhum sentido de humanidade”, disse.

PAÍS PRIORITÁRIO PARA A AIS

Moçambique é um país prioritário para a Fundação AIS no continente africano. A solidariedade dos benfeitores da Ajuda à Igreja que Sofre tem permitido levar a este país, especialmente à região de Cabo Delgado, diversos projectos de assistência pastoral e de apoio psicossocial às populações vítimas do terrorismo, mas também fornecimento de materiais para a construção de dezenas de casas, centros comunitários e ainda a aquisição de veículos para os missionários que trabalham junto dos centros de reassentamento que abrigam as famílias fugidas da violência.

Desde que começaram os ataques em Cabo Delgado, em Outubro de 2017, calcula-se que já  tenham morrido mais de cinco mil pessoas e mais de um milhão foram forçadas a fugir da violência dos grupos terroristas que reivindicam, cada vez com mais frequência, pertenceram ao Daesh, a organização jihadista estado Islâmico.

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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