NIGÉRIA
Onde a violência mata, o Amor socorre
A perseguição não pode ter a última palavra
“Deus não nos abandona”
Os Cristãos da Nigéria enfrentam uma situação de vida ou morte. Nos últimos meses, a violência, os raptos e os ataques contra as comunidades multiplicam-se perante a impassividade do Estado. Por detrás desta escalada de terror há diversos factores, mas um denominador comum cada vez mais evidente: uma agenda religiosa extremista crescente que ameaça fazer desaparecer a presença cristã no país. Mas os Cristãos não estão sós.
Há noites que deixam feridas impossíveis de esquecer. Na Nigéria, a noite de 13 para 14 de Junho de 2025 foi uma delas. Em Yelwata, na Diocese de Makurdi, no centro do país, homens armados invadiram a aldeia e espalharam o terror. Durante horas, o fogo e a violência tomaram conta da comunidade, sem que ninguém conseguisse travar o massacre.
“Arrombaram a porta, destruíram a casa e regaram tudo com combustível”, recorda uma das testemunhas desta tragédia. Quando os atacantes partiram, ficaram as cinzas e uma dor difícil de descrever. Muitas vítimas morreram queimadas, juntamente com as suas colheitas. “Nem sequer era possível distinguir o que era o quê”, relata outra testemunha.
Foram assassinados 259 cristãos naquela noite. Um dos ataques mais mortíferos contra a comunidade cristã na Nigéria. Como recorda o sacerdote que acompanha estas pessoas: “Toda a sociedade, a própria comunidade ficou traumatizada.” Para os sobreviventes, a tragédia não terminou quando o fogo se apagou. Ficaram as perdas irreparáveis, as casas destruídas e o medo de que tudo pudesse voltar a acontecer. Uma comunidade inteira teve de encontrar forças para continuar a viver depois de uma violência que ninguém deveria conhecer.
O Padre Jonathan Ukuma, de 40 anos, estava há pouco mais de um ano à frente da Paróquia de Yelwata quando aconteceu o massacre. Perante uma comunidade devastada, sabe que não pode apagar o sofrimento nem devolver a vida a quem morreu. Mas pode permanecer junto dos sobreviventes, escutá-los e ajudá-los a encontrar forças para continuar.
O meu dever é encorajar as pessoas, dizer-lhes que, apesar da situação, Deus não nos abandona.”
É na fé que o sacerdote encontra forças para consolar quem perdeu quase tudo. E insiste nesta certeza, mesmo perante tanto sofrimento: “Ele fortalece-nos sempre, encoraja-nos”, lembrando que nada devemos temer, porque “Deus está connosco”. Estas palavras não apagam as feridas de Yelwata. São, porém, um sinal de esperança para quem precisa de acreditar que a vida pode continuar para lá da tragédia.
Uma violência com várias faces Yelwata não é um caso isolado. Na Nigéria, os Cristãos enfrentam uma violência crescente, motivada por diferentes factores: os ataques de grupos jihadistas, como o Boko Haram, que querem impôr um califado, e que têm a comunidade cristã como um dos seus principais alvos e a actuação de pastores fulani, que atacam comunidades sob o pretexto de disputas de terras e pastagens. Tudo isto decorre num contexto de discriminação religiosa e da acção de bandos criminosos que raptam para exigir resgates avultados.
Sacerdotes e outros membros da Igreja estão entre os alvos destes ataques: na última década, em 70% das dioceses do país, mais de 200 sacerdotes foram raptados. Uma violência que destrói vidas e comunidades, mas não impede a Igreja de permanecer junto do seu povo.
Apesar da perseguição, muitos continuam a reunir-se para celebrar a Eucaristia. Os sacerdotes permanecem junto daqueles que sofrem, acompanham as famílias enlutadas e procuram devolver esperança a quem foi atingido pela violência.
Apesar dos desafios, apesar da perseguição, devemos manter viva a nossa fé. É por isso que as pessoas ainda vêm à igreja e continuam a lutar para seguir em frente.”
A tragédia de Yelwata não pode ser compreendida sem olharmos para a crise profunda que atravessa a Nigéria. A fragilidade das instituições, a corrupção e a má gestão dos recursos agravam as dificuldades de uma população já duramente atingida pela pobreza e pela insegurança.
Nigéria à beira do colapso
Apesar da riqueza em recursos naturais, milhões de pessoas vivem em condições precárias. Com mais de 227 milhões de habitantes, a Nigéria enfrenta ainda um crescimento demográfico acelerado, prevendo-se que ultrapasse os 400 milhões de habitantes em 2050. Neste cenário de instabilidade, a insegurança e a impunidade permitem que grupos jihadistas e redes criminosas continuem a actuar.
D. Ignatius Kaigama, Arcebispo de Abuja, alerta para a gravidade desta ameaça: “Há uma estratégia para frustrar o Cristianismo na Nigéria. Se isto continuar, estaremos em perigo de perder a nossa fé.”
Mas a Igreja não abandona o seu povo. Onde há famílias enlutadas, sacerdotes raptados, comunidades deslocadas e cristãos que vivem com medo, a Igreja continua presente.
Reze com os que sofrem, sustente a fé dos que estão desanimados e ajude quem precisa de reconstruir a vida.
PADRE FÉLIX
“Fui espancado com violência. Mas o pior foi quando me alvejaram”
Na Nigéria, permanecer junto do povo pode custar a vida. O Padre Félix foi raptado, torturado e alvejado, mas, depois de 40 dias em cativeiro, regressou à sua missão. Porque as comunidades feridas precisam de sacerdotes que não as abandonem.
Desde Novembro de 2016, o Padre Félix Fidson servia na Paróquia de Santa Ana, na Diocese de Zaria. Das oito capelas da paróquia, seis tinham sido alvo de ataques violentos. Enquanto muitos fugiam, ele decidiu ficar. Sabia que as pessoas não tinham para onde ir e precisavam de um sacerdote que permanecesse ao seu lado.
Como recorda: “Se o meu povo está aqui… porque haveria eu de partir?” Ficaram porque acreditavam em Cristo e não tinham para onde ir. A 24 de Março de 2022, foi raptado. Durante 40 dias, esteve acorrentado, foi espancado e torturado. “Os raptores exigiam cerca de 62 mil euros. Mas a Igreja não paga resgastes, porque os padres como eu entregam a vida a Cristo.” Por isso, alvejaram-no no pé esquerdo. Mas nem esse sofrimento o fez renegar a fé. Quando lhe pediram que renunciasse ao Cristianismo, respondeu simplesmente: “Sou feliz por ser cristão”.
Libertado a 3 de Maio, foi levado para um hospital católico em Wusasa. A experiência deixou-lhe feridas físicas e psicológicas. Mas não lhe roubou a vontade de continuar a sua missão. Hoje, o Padre Félix serve na Paróquia do Sagrado Coração, em Wusasa, e acompanha a comunidade. A sua própria história tornou-se também uma forma de consolar quem vive com medo e dor. “Os padres são necessários para curar e consolar as comunidades feridas.”
Embora tenha sido ferido, posso ajudar outros a curar as suas feridas, contando a minha própria história. Às vezes, as pessoas vêm ter comigo profundamente traumatizadas e com dúvidas sobre Deus. Digo-lhes que também passei por isso, mas que a fé e a esperança me mantiveram firme. Se eu não desisti, elas também não devem desistir.”
Todos os dias, sacerdotes como ele acompanham a sua comunidade sofrida e celebram a Santa Missa, por vezes em pequenas capelas, outras vezes ao ar livre, em lugares distantes onde os fiéis caminham durante horas para participar. No meio do medo e da dor, a presença de Cristo lembra-lhes que não estão sozinhos.
IRMÃS CARMELITAS
A oração que sustenta a Nigéria
Há uma força silenciosa que sustenta a Igreja na Nigéria: esta é a história das Irmãs Carmelitas de Abuja, que rezam diariamente pelo seu país e por todos os que sofrem. Numa região marcada pela violência, a sua missão é levar a Deus a dor de um povo ferido e interceder pela paz e pela Igreja. “A oração é a nossa vida. Tudo o resto nasce dela”.
Durante anos, viveram numa casa pequena e precária, sem condições para a vida contemplativa, nem um espaço adequado para a Eucaristia. Mudaram-se finalmente para um novo mosteiro, ainda inacabado, numa zona perigosa de Abuja, onde os riscos de segurança são reais. Apesar do risco, escolheram permanecer, conscientes de que a sua presença é particularmente necessária onde o sofrimento mais se faz sentir.
Oferecemos o nosso sofrimento por aqueles que não têm ninguém que cuide deles”.
Um lugar de oração que cura Muitas pessoas, traumatizadas pela violência, procuram consolo junto das Carmelitas. Mas falta um espaço para as acolher e ajudar a encontrar paz na oração. Como explicam as Irmãs: “Muitas pessoas estão traumatizadas. Mas, ao aproximarem-se de nós, procuramos sempre dar-lhes esperança. Queremos construir uma capela e uma casa de retiros onde as pessoas possam ficar e rezar, passar alguns dias com as Irmãs”.
Para as Carmelitas, a capela é o centro da sua vida, o lugar onde confiam a Deus a Igreja e o povo Nigeriano. Concluí-la permitirá fortalecer a sua missão, acolher novas vocações e oferecer à comunidade um espaço de oração e encontro com Deus.
CATEQUISTAS
“Não vou desistir. Hei-de servir a Deus até ao fim”
Peter é catequista na Diocese de Zaria, na Nigéria, onde a violência e a insegurança fazem parte do quotidiano. Um dia, ao regressar de uma aldeia onde tinha ido anunciar o Evangelho, foi surpreendido por um grupo de criminosos armados que saiu do mato e o rodeou. Foi brutalmente espancado. A recordação daquele ataque continua a assombrá-lo todos os dias, mas não o fez abandonar a sua missão.
Apesar dos perigos, Peter continua a visitar comunidades, a dar catequese às crianças e a levar a Palavra de Deus a lugares onde cada deslocação pode significar arriscar a vida. “Apesar dos desafios, o nosso papel como catequistas é curar a Nigéria e continuar a pregar o Evangelho”.
A missão dos catequistas é essencial para manter viva a fé nas comunidades mais isoladas da Nigéria. As motas oferecidas aos catequistas permitem-lhes chegar com maior segurança a estas comunidades.
Estas motas que nos ofereceram permitem-nos chegar ao interior sem medo. Muito obrigado aos benfeitores da Fundação AIS pela sua generosidade.”
Peter acredita que a cura das feridas deste povo exige coragem e oração. Por isso, pede que não abandonemos os Cristãos perseguidos. A sua determinação resume-se numa promessa: “Enquanto viver, hei-de continuar a servir todos os dias da minha vida”.
Obrigado por permitir que os catequistas continuem a levar o Evangelho às comunidades que mais sofrem.
CURAR AS FERIDAS
“A cura terá a última palavra”
A violência deixa marcas que não se vêem. Sobreviver a um ataque, a um rapto ou à perda de familiares não significa que o sofrimento tenha terminado. O Padre George quer formar quem possa ajudar estas vítimas a sarar as feridas que ninguém vê. Mas precisa urgentemente da nossa ajuda.
Todos os dias, na Nigéria, há notícias de pessoas assassinadas, raptadas e obrigadas a fugir. Para muitos Cristãos, a perseguição ameaça vidas, destrói famílias e mergulha comunidades inteiras no medo. E o sofrimento continua mesmo depois dos ataques. Como voltar a dormir depois de um rapto? Como encontrar paz depois de assistir à morte de alguém da família? Como recuperar a confiança quando a violência destruiu tudo aquilo que tinham?
Há feridas que não se vêem, mas que não deixam esquecer o que aconteceu. O medo, a angústia, a depressão e o luto acompanham muitos sobreviventes, que precisam de alguém que os escute, compreenda a sua dor e os ajude a recuperar forças para continuar.
“O povo da Nigéria está traumatizado”, afirma o Padre George. Perante uma população tão profundamente marcada pela violência, o sacerdote sabe que não basta socorrer quem está em perigo. É também necessário cuidar daqueles que sobreviveram, mas continuam a sofrer por dentro.
Muitas vezes, eles não podem mudar o que lhes aconteceu. Mas o que podem mudar é a forma como encaram o que aconteceu.”
É para ajudar estas pessoas que o Padre George decidiu avançar com uma missão urgente: criar, em Abuja, o maior centro de formação em tratamento do trauma de África.
Ninguém tem de sofrer sozinho
O projecto pretende formar sacerdotes e leigos capazes de acompanhar vítimas de perseguição, de ataques violentos, de raptos e de perdas traumáticas. Preparados para intervir nas paróquias, nas escolas e nas comunidades, estes homens e mulheres poderão levar apoio a pessoas que, muitas vezes, não encontram quem as ajude a lidar com o que viveram.
“Queremos formar um grande número de pessoas para irem para o terreno e ajudar a curar milhares de pessoas que estão traumatizadas e que precisam de apoio, precisam de ajuda”, explica o sacerdote. Para o Padre George, “as pessoas precisam de um cuidado para além do físico, para curar o espírito, a alma e o corpo”.
Uma casa para curar as feridas
Para concretizar esta missão, foi adquirido, em Janeiro de 2025, um antigo edifício inacabado, em Abuja, que está a ser remodelado para acolher o centro de formação. O objectivo é criar um espaço com salas de formação e um lugar de oração, onde a preparação profissional e a fé caminhem lado a lado. Mas as obras têm de avançar. Cada ajuda conta para acompanhar as vítimas da violência, as famílias enlutadas e as pessoas marcadas pelo trauma da perseguição, ajudando-as a recuperar a paz e a vontade de recomeçar.
O Padre George quer que este centro seja o início de uma resposta capaz de chegar a milhares de pessoas. Para isso, precisa de nós. “Todos juntos, podemos curar a Nigéria”, afirma, dirigindo-se a quem pode ajudar a tornar este sonho realidade. E deixa uma promessa que é também um grito de esperança para todos os que sofrem: “A perseguição não terá a última palavra. A cura terá a última palavra.”
APOIO AOS DESLOCADOS
“Já não tenho razões para viver”
É preciso que o mundo acorde para o que está a acontecer e compreenda que na Nigéria há milhões de pessoas em sofrimento. E muitos destes homens, mulheres e crianças em sofrimento são cristãos.
Enquanto fugiam dos ataques, viram familiares serem mortos. Deixaram para trás as suas casas, as terras e os meios de subsistência. Hoje, muitos cristãos deslocados no estado de Benue, na região central da Nigéria, continuam a reviver o horror da violência. Há quem já não consiga dormir e quem tenha perdido a vontade de viver.
“Algumas pessoas acordam e dizem: ‘Já não tenho razões para viver. A minha família morreu toda’”, conta-nos o Padre Philip, da Diocese de Makurdi. Para estas pessoas, a violência não terminou quando conseguiram escapar. O medo e a dor continuam presentes, mesmo longe dos ataques.
Fugir para sobreviver, reaprender a viver
No Estado de Benue há um número gigantesco de pessoas que precisam de ajuda. São milhões os que perderam tudo o que tinham, vítimas de ataques de grupos armados, incluindo pastores fulani, e de organizações terroristas como o Boko Haram, que querem impor um califado no norte da Nigéria, obrigando os Cristãos à servidão ou forçando-os a fugir.
Em campos de deslocados, enfrentam condições de vida difíceis. “As pessoas estão profundamente traumatizadas”, explica o Padre Philip. Algumas continuam presas às recordações dos familiares que morreram enquanto fugiam. Outras não conseguem falar sobre o que viveram. A perda de tudo aquilo que lhes dava sustento agrava ainda mais o trauma.
Mesmo nessa situação, não perderam a sua dignidade humana.”
Que pode fazer a Diocese perante tanta miséria, perante uma avalanche tão grande de pessoas que se amontoam nos campos de deslocados, com fome e frio, que não têm recursos, não têm campos para cultivar, não têm trabalho?
Eles vivem num ciclo de desespero. O que a Diocese procura fazer é dar-lhes esperança. As pessoas sem esperança não conseguem existir durante muito tempo. Não é fácil ser-se sacerdote numa situação assim. Para onde quer que vão, escutam-se sempre os mesmos lamentos, as mesmas histórias de violência e dor. Para onde quer que vão, há sempre o mesmo sentimento de impotência de quem não consegue também dar resposta a tanta angústia.
Para concretizar esta missão junto destes milhares de famílias deslocadas, o Padre Philip apela à generosidade dos benfeitores da Fundação AIS: “Com a vossa ajuda, podemos curar o nosso povo”. São pessoas que perderam tudo. Pais que choram os filhos, crianças que cresceram no meio da violência e famílias que já não sabem quando poderão regressar a casa. A sua dor não desaparece de um dia para o outro.
Mas, com o seu apoio, podem voltar a sentir-se acompanhadas, recuperar forças e acreditar que a vida ainda lhes reserva um futuro.
Ajude a socorrer os Cristãos na Nigéria apoiando projectos como estes:
Apoio aos sacerdotes
Em 2025, foi possível apoiar 1.397 sacerdotes com 653.471€. A necessidade de ajuda continua a ser urgente, para que estes sacerdotes possam permanecer junto das comunidades cristãs perseguidas, levando-lhes apoio espiritual, alimentos, abrigo e bens essenciais.
Um lugar de oração para as Irmãs Carmelitas
Ajude a concluir a capela e a casa de retiros do mosteiro, em Abuja, onde as Irmãs poderão também acolher e acompanhar as pessoas que as procuram.
> 29.000 €
Protecção contra os raptos
Instalação de um sistema de segurança no centro pastoral da Diocese de Zaria, para proteger os sacerdotes e comunidades cristãs dos constantes raptos, permitindo à Igreja continuar a servir o seu povo em segurança.
> 40.000 €
Centro de recuperação de traumas
Contribua para criar um centro de formação de profissionais preparados para acompanhar e tratar milhares de pessoas traumatizadas pela guerra e pela violência, ajudando-as a superar as feridas psicológicas e a reconstruir as suas vidas, em Abuja.
> 159.550 €
Educação para as crianças
Construção de quatro blocos de salas de aula na Escola Primária de Santo Atanásio, para que as crianças deslocadas pela violência possam aprender em condições dignas, em Katsina-Ala, no Estado de Benue.
> 68.000 €
Ajuda de emergência
Ajuda com cabazes alimentares, kits de higiene, garrafas de água potável, colchões, cobertores, redes mosquiteiras e acompanhamento psicológico e espiritual, ajudando milhares de deslocados em Makurdi, no Estado de Benue.
> 22.000 €
