MOÇAMBIQUE: “Precisamos de socorro”, diz sacerdote após os mais recentes ataques terroristas em Cabo Delgado

Poucas horas depois de o Papa Francisco ter alertado o mundo para a violência terrorista em diversas aldeias no norte de Moçambique, com casas e igrejas queimadas, o padre Kwiriwi Fonseca, um dos sacerdotes que melhor conhece a realidade neste país dos grupos armados que afirmam pertencer ao “Estado Islâmico”, diz, em mensagem enviada para Lisboa, que é preciso agir sem demora em socorro “do povo inocente”. Neste momento, garante o sacerdote à Fundação AIS, “o povo precisa de comida, precisa de cobertores, precisa de abrigo…”

Várias vezes ao dia, o padre Kwiriwi Fonseca espreita o telemóvel para ver se aconteceu alguma coisa em Cabo Delgado, se tem alguma notícia do norte de Moçambique.

Responsável, durante anos, pela comunicação da Diocese de Pemba, o sacerdote está agora em Curitiba, no Brasil, a preparar uma tese de doutoramento na Universidade Pontifícia do Paraná. E as últimas notícias que tem recebido sobre os ataques terroristas em diversas aldeias, com casas e igrejas queimadas, só aumentam a angústia de quem vê o seu povo a sofrer outra vez às mãos de grupos armados que reivindicam pertencer ao Daesh, o “Estado Islâmico”.

O ataque à missão católica de Nossa Senhora de África, em Mazeze, cuja igreja foi incendiada e que o Papa Francisco denunciou este domingo, 18 de Fevereiro, no Vaticano, logo após a oração do Angelus, levou o padre Fonseca a lançar um grito de socorro para que o mundo não esqueça o drama humanitário que se está a viver no seu país.

Numa curta mensagem enviada para a Fundação AIS em Lisboa, o sacerdote diz que “o povo está a sofrer” com esta nova onda de violência que, de certa forma, apanhou toda a gente de surpresa. “No ano passado, parecia que as coisas estavam a melhorar, mas fomos surpreendidos já este ano com uma nova onda séria, terrível e cruel de ataques. Muita gente morrendo, e de modo especial muitos militares, jovens”, diz o padre Kiriwi Fonseca.

AGIR SEM DEMORA

Face à dimensão da violência registada nos mais recentes ataques ao longo das últimas semanas, é preciso auxiliar as populações que estão outra vez em fuga, reclama o sacerdote.

Este não é o momento de nos calarmos, não é o momento de cruzar os braços, é o momento de gritar alto que precisamos de socorro em Cabo Delgado, queremos ajuda imediata para se resolver este problema.”

“Neste momento, o povo precisa de comida, o povo precisa de cobertores, o povo precisa de abrigo, porque esses ataques como vimos, com a ocupação do posto administrativo de Mucojo, do posto de Macomia, dos ataques recentes de que até o Papa Francisco falou no Angelus [de domingo, dia 18 de Fevereiro], na missão de Nossa Senhora Mãe de África, de Mazeze. Isso tudo teve lugar no distrito de Chiúre para onde muita gente fugiu para ter abrigo. Agora, o medo aumenta, o povo está desesperado e não sabe em que local se poderá esconder”, explica o padre Fonseca.
Com esta mensagem, o sacerdote passionista procura sensibilizar, através da Fundação AIS, a comunidade internacional para se auxiliar o povo “inocente” de Moçambique que enfrenta a insurgência terrorista deste Outubro de 2017 e que já causou mais de cinco mil mortos e mais de 1 milhão de deslocados.
“Não nos abandonem”, diz ainda o padre Fonseca, lembrando que, com toda a violência que está a ocorrer na região, “o ano de 2024 será de muita fome”. Agradecendo “à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre [AIS] que tem apoiado de modo especial a Diocese de Pemba, em Cabo Delgado”, o padre Fonseca pede as orações de todos, para que os terroristas “se convertam” e também para que os benfeitores da Fundação AIS “abram o seu coração apoiando os inocentes, o povo que sofre” em Moçambique. A ajuda de todos, diz a finalizar a mensagem, é essencial “para resgatarmos a dignidade do povo de Cabo Delgado”.

O ALERTA DO PAPA FRANCISCO

O antigo responsável de comunicação da Diocese de Pemba enviou a sua mensagem à Fundação AIS no seguimento do alerta do Santo Padre no passado domingo, dia 18, para o regresso da violência a Cabo Delgado. O Papa disse que a “violência contra populações indefesas, a destruição de infraestruturas e a insegurança estão novamente desenfreadas na província de Cabo Delgado”, e referiu concretamente o caso de um ataque a uma estrutura da Igreja em Mazeze, lembrando que foi até “incendiada a missão católica de Nossa Senhora da África”.

O Papa pediu aos milhares de peregrinos que o escutavam na Praça de São Pedro que rezassem para que a paz possa “regressar a essa região martirizada”, mas lembrou outros países e regiões do globo que precisam também das orações de todos pois, tal como Moçambique, são igualmente palco de ataques terroristas, de guerras, de violência.

Por favor, não esqueçamos os muitos outros conflitos que ensanguentam o continente africano e muitas partes do mundo, na Europa, na Palestina, na Ucrânia. Rezemos sem cessar, porque a oração é eficaz e peçamos ao Senhor o dom de mentes e de corações que se dedicam, concretamente, à paz.”

O Papa insistiu ainda no facto de que a guerra é sempre uma derrota. “Onde quer que haja combates, as populações estão esgotadas, cansadas da guerra que, como sempre, é inútil e inconclusiva, traz apenas morte e destruição, nunca trará a solução do problema”, acrescentou.

A CÁRITAS ESTÁ SEM RECURSOS

A situação de enorme dificuldade em que se encontram as populações de Cabo Delgado e que refere o padre Fonseca, foi já confirmado pela Fundação AIS junto dos responsáveis da Cáritas Diocesana de Pemba. De facto, a estrutura de ajuda humanitária da Igreja Católica está sem recursos para acudir a esta nova emergência no território.

“Actualmente, a Caritas está a passar por uma situação de crise financeira comparando com os anos passados em que, se calhar, ocupávamos o segundo lugar depois do PMA [Programa Mundial de Alimentação, das Nações Unidas] na área da assistência humanitária, e nós respondíamos a todas as áreas”, explicou à Fundação AIS Betinha Ribeiro, gestora de projectos da Cáritas diocesana.

A responsável disse que seriam necessários pelo menos cerca de 200 mil euros – “esse seria o valor mínimo” – para dar resposta às necessidades mais prementes dos novos deslocados. Esta realidade vem aumentar ainda mais a importância do apelo do padre Fonseca para que a comunidade internacional se mobilize na ajuda às populações de Cabo Delgado, vítimas do terrorismo.

PAÍS PRIORITÁRIO PARA A AIS

Moçambique é um país prioritário para a Fundação AIS no continente africano. A solidariedade dos benfeitores da Ajuda à Igreja que Sofre tem permitido levar a este país, especialmente à região de Cabo Delgado, diversos projectos de assistência pastoral e de apoio psicossocial às populações vítimas do terrorismo, mas também fornecimento de materiais para a construção de dezenas de casas, centros comunitários e ainda a aquisição de veículos para os missionários que trabalham junto dos centros de reassentamento que abrigam as famílias fugidas da violência.

Desde que começaram os ataques em Cabo Delgado, em Outubro de 2017, calcula-se que já  tenham morrido mais de cinco mil pessoas e mais de um milhão foram forçadas a fugir da violência dos grupos terroristas que reivindicam, cada vez com mais frequência, pertenceram ao Daesh, a organização jihadista estado Islâmico.

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

Relatório da Liberdade Religiosa

Embora os líderes cristãos e muçulmanos continuem a denunciar a violência e a promover o diálogo inter-religioso, num esforço de deslegitimação do jihadismo, tal será insuficiente se não forem abordadas as desigualdades sociais e económicas subjacentes que afectam os jovens, especialmente nas regiões mais pobres. As perspectivas para a liberdade religiosa continuam a ser desastrosas.

MOÇAMBIQUE

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