A Santa Sé anunciou na passada quarta-feira as primeiras viagens apostólicas do Santo Padre para este ano de 2026. Na agenda está uma deslocação a África, Mónaco e Espanha. O périplo africano, o maior de todos, de 13 a 23 de Abril, inclui a Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial. O Padre Tony Neves, missionário espiritano que integra o Conselho Geral a nível mundial da congregação, e que conhece bem o continente africano, fala à Fundação AIS da importância desta viagem, em especial a Angola, que será o primeiro país de língua portuguesa a receber Leão XIV…
Já se sabia que o Papa ia a Angola, pois no início de Janeiro isso foi revelado pelo Núncio Apostólico deste país africano num encontro com os jornalistas. Desconhecia-se era a data da viagem, e se Leão XIV iria visitar também, ou não, outros países africanos.
Nesta quarta-feira, dia 25, surgiu a resposta a tudo isso. Vai ser uma viagem de dez dias à África, a que se juntam duas viagens à Europa – uma, de um único dia, ao Principado de Mónaco, e uma outra, de seis dias, a Espanha e às Ilhas Canárias. A viagem mais longa, de 13 a 23 de Abril, será ao continente africano, que o levará a seguir os passos de Santo Agostinho na Argélia – Argel e Annaba –, e depois à República dos Camarões, Angola, e, finalmente, à Guiné-Equatorial.
Para o Vaticano, esta é “uma viagem complexa”, que foi pensada “em memória do Santo de Hipona, a quem o sucessor de Pedro é ligado”, e que inclui outros países em que Leão XIV irá dar “particular atenção aos mais vulneráveis, aos pobres e àqueles que cuidam deles”, assim como às questões da paz.
Argélia, a memória de santo Agostinho
O périplo africano do Santo Padre está a suscitar muito entusiasmo. O Padre Tony Neves, missionário espiritano e actualmente membro do Conselho Geral, que governa esta congregação a nível mundial, é um conhecedor profundo da realidade africana e muito concretamente de Angola, país onde viveu num dos períodos mais difíceis da vida deste país, durante a longa e dolorosa guerra civil após a independência, em 1975.
Para a Fundação AIS, o sacerdote – que é também jornalista – faz uma análise dos pontos principais desta viagem e do que ela significará para os respectivos países.
“Tudo vai começar no dia 13 de Abril, quando o Papa aterrar na Argélia. E o Papa vai lá por razões que já se sabiam. Leão XIV é agostiniano. Santo Agostinho foi o grande Bispo de Hipona, que actualmente está em território argelino. E a cidade hoje chama-se Annaba. O Papa vai lá no fundo como um peregrino à procura das raízes do seu pai espiritual, que é seu e é nosso, porque Santo Agostinho é muito importante para todos nós. Será um encontro marcado também pelo diálogo inter-religioso, porque a Argélia é um dos países que se afirma 100% muçulmano, onde as comunidades cristãs são reduzidíssimas, muito controladas, e apenas um exclusivo para os estrangeiros que ali trabalham”, explica o Padre Tony Neves.
Camarões, “uma viagem de coragem”
Da Argélia, o Santo Padre vai até à República dos Camarões. Para Tony Neves, esta é uma “viagem de coragem”, pois este é um país assombrando por uma guerra de independência que opõe a região onde predomina a língua inglesa à parte francófona, ligada ao poder.
O sacerdote português destaca precisamente esta questão como “um vulcão de violência”, mas que não é o único problema grave em matéria de segurança. No norte do país ganha relevo, quase de dia para dia, também a violência terrorista. “Eu tive a oportunidade de estar não há muitos dias nessa região, que é atacada com frequência pelos fundamentalistas islâmicos do Boko Haram”, recorda o Padre Tony Neves.
Dos Camarões, o Papa segue para Angola e terminará o périplo africano na Guiné Equatorial, país que pertence à CPLP, a comunidade de países de língua portuguesa, embora por lá se fale o espanhol. É mesmo o único país de língua espanhola neste continente africano, “um país que tem o mesmo presidente [Teodoro Obiang Nguema Mbasogo] desde há muitos anos, desde 1979, e em que as questões dos direitos humanos não têm sido muito respeitadas, segundo algumas organizações internacionais”, recorda o missionário espiritano.
A desejada visita a Angola
Desde Janeiro que já se sabia que o Papa iria a Angola este ano, desconhecia-se era a data da viagem. Agora sabe-se que Leão XIV deve aterrar em Luanda a 18 de Abril e que vai ficar por Angola até dia 21. A visita – a primeira do Santo Padre a um país de língua oficial portuguesa – inclui passagens pelo Santuário da Muxima, um dos mais importantes locais de peregrinação do país, e também pela cidade de Saurimo.
A passagem pelo santuário mariano envolve alguma polémica, diz o missionário português, pois é uma estrutura antiga, “ainda do tempo colonial”. A questão é que, de ano para ano, tem aumentado o número de peregrinos e quando o Papa Bento XVI foi a Luanda, em Março de 2009, o então presidente do país, José Eduardo dos Santos, “mostrou uma maquete, dizendo que o governo ia construir uma grande basílica”, recorda Tony Neves. “Só que isso não aconteceu.”
Passaram, entretanto, 17 anos sem que alguma construção tenha acontecido, apesar de o actual presidente, João Lourenço, ter também já prometido fazer a edificação. Pode ser que esta viagem de Leão XIV desbloqueie este processo. Para Tony Neves, “o povo que ali vai merece”.
De facto, o santuário de Nossa Senhora da Conceição da Muxima é não só o maior centro de peregrinação católica em Angola como em toda a região da África Austal, atraindo anualmente centenas de milhares de fiéis. “E como vemos em Fátima, em Lourdes, na Nossa Senhora da Aparecida ou na Senhora da Guadalupe, como vemos em todo o lado, o povo, sendo numeroso, precisa de estruturas, precisa, sobretudo, de um grande lugar para as celebrações”, explica o missionário português.
Uma visita que traga mais paz e justiça
Também significativa é a deslocação do Papa à cidade de Saurimo, situada no norte interior. “É a primeira vez que um Papa se desloca a esta região de Angola”, sublinha Tony Neves. “Esta é a área diamantífera, que faz fronteira com a República Democrática do Congo”, explica.
O facto de Saurimo ser uma arquidiocese e de o presidente da Conferência Episcopal Angolana ser o Arcebispo local, “pode ter pesado na decisão” de incluir a cidade na visita do Papa. “Depois, claro, Leão XIV estará em Luanda, mas vai celebrar no Kilamba, que é um dos novos bairros residenciais, e que é, neste momento, o sítio onde há espaço para acolher uma multidão grande”, diz o missionário espiritano.
Eu reconheço a importância das viagens papais, convenço-me, e sei que os católicos destes países que vão ser visitados estão muito felizes com esta visita, e só espero que esta visita ajude a Igreja e os governos e as instituições a trabalharem por mais justiça, mais paz, mais liberdade e mais fraternidade, e que no plano católico seja um grande momento de evangelização.”
Padre Tony Neves
Desde há muitos anos que a Fundação AIS apoia activamente a Igreja em Angola, através da ajuda à sobrevivência de padres e religiosas, ao apoio para a distribuição de Bíblias e material catequético, mas também, por exemplo, com a distribuição de veículos para a mobilidade de sacerdotes, catequistas e seminaristas, a construção ou reconstrução de capelas, igrejas e de espaços paroquiais.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt










