Com a guerra a entrar hoje, dia 24, no quinto ano consecutivo, o Padre Lucas Perozzi, que vive na Ucrânia há mais de duas décadas, fala de um país que resiste contra tudo e contra todos. Com o Inverno em força, e temperaturas muito negativas e sem electricidade na maior parte dos dias, por causa dos impiedosos bombardeamentos russos, as pessoas resistem “em condições desumanas”. Até o custo de vida não pára de subir, empobrecendo ainda mais as famílias.
Neste contexto, a Igreja tenta ser sinal de esperança apesar de “já ninguém acreditar numa paz justa”…
Em Kiev, em toda a região, a falta de electricidade significa que falta tudo, porque nos edifícios altos tudo funciona à base de electricidade. E aqui onde eu moro também é a mesma coisa.”
Padre Lucas Perozzi
O Padre Lucas Perozzi está em Bila Tserkva, uma pequena cidade com pouco mais de 280 mil habitantes a cerca de uma centena de quilómetros da capital. A distância para Kiev é, de alguma forma, um seguro de vida.
Por ali também há bombardeamentos, também há ataques de drones, sim, mas nada que se compare com a intensidade do que se acontece em Kiev. Mas todo o país está sob ataque, pois as forças russas têm sido impiedosas a alvejar as centrais termoeléctricas, deixando a Ucrânia sem aquecimento, sem luz, durante o longo Inverno em que as temperaturas descem muitos graus abaixo de zero.
Sobreviver assim é extremamente difícil. “Se não tem electricidade, nada funciona… e lá fora a temperatura é muito baixa”, diz o sacerdote brasileiro do caminho Neocatecumenal. “Às vezes chegamos aos 15, 18 graus negativos fora de casa. Já chegou, nuns povoados aqui perto, a menos de 30 graus… O frio é muito difícil”, diz. “É bem depressivo”, acrescenta.
Às vezes nem é preciso que as bombas acertem no alvo, basta esperar que o general Inverno faça o seu trabalho. “Em Kiev, por exemplo, houve casos em que o frio congelou todos os tubos, todos os canos, e isso tornou os prédios inabitáveis. Essas pessoas já não têm onde morar, porque as suas casas estão inabitáveis…”
Locais para as pessoas se aquecerem
Face a tudo isto, a Igreja tem procurado ser esperança e dar ajuda concreta às populações em maior dificuldade. “O nosso bispo convocou todos os párocos da região de Kiev e também de outras regiões, para organizarmos aquilo que, traduzido do ucraniano, se chama de ‘pontos indestrutíveis’”, explica o sacerdote. São locais, às vezes tendas, colocados no meio das cidades e onde há geradores que oferecem tudo aquilo que mais falta. A começar pela luz e o aquecimento.
“Aí, nesses lugares, é possível ter água potável para beber, para lavar as mãos, água quente para fazer um chá, possivelmente é possível ter algum fogão para cozinhar, carregar os telemóveis, os ‘power banks’, tudo isso”, explica o sacerdote.
Alguns destes geradores, destes pontos indestrutíveis, foram fornecidos à Ucrânia graças à generosidade dos benfeitores e amigos da Fundação AIS espalhados pelo mundo. “A maioria das paróquias da minha região, da minha província de Kiev, fizeram isso. Nós também fizemos isso aqui, em Bila Tserkva. E com isso estamos vivendo. O maior problema agora é o frio, que continua. Estão temperaturas baixo de zero agora mesmo”, diz o padre, interrompendo a gravação para ir confirmar o que diz o termómetro. Uns segundos depois, volta para dizer que “estão menos 9 graus…”
Paroquianos na linha da frente
A situação é muito grave, especialmente em Kiev e nas grandes cidades. A tal ponto que o Padre Lucas diz que, “agora, é a própria natureza que está a combater contra nós”. Depois da onda constate de ataques russos às centrais de energia, e com o país praticamente às escuras durante longos períodos de tempo e debaixo de temperaturas geladas, sobreviver é já um acto de heroísmo.
A acrescentar a isso há que lidar com problemas concretos. Problemas das pessoas, das famílias. Especialmente os que estão envolvidos directamente na frente de guerra. E aí entra também o Padre Lucas. “Eu tenho uma família em que o pai está na guerra. E deixou em casa duas filhas e a mulher… E ele está numa situação muito difícil lá, na linha da frente… Muitas vezes isto acaba por gerar situações desumanas”, diz.
No Natal, o soldado oriundo da paróquia do Padre Lucas foi autorizado a ir a casa durante uns dias. “Conversei com ele. Passa por situações muito difíceis”, acrescenta o sacerdote. Dar apoio aos soldados que estão precisamente na linha da frente é uma das missões do Padre Lucas Perozzi. É um trabalho essencial. “É para confessar, para administrar os sacramentos”, especialmente aos soldados estrangeiros que estão a combater ao lado do exército ucraniano. “Sobretudo os que falam espanhol e português”, explica o sacerdote.
Jovens que sonham com o sacerdócio
Mas mesmo os que estão longe da linha da frente, os que estão longe dos combates, não escapam às consequências da guerra. “A inflacção está a aumentar cada vez mais”, diz o padre.
É um milagre ver como as pessoas conseguem sobreviver com o salário que têm... No entanto, aqueles que encontram Cristo, mesmo nessa situação, sobrevivem. E sobrevivem não só fisicamente. Têm felicidade, têm alegria… E isso eu posso ver na minha paróquia.”
Padre Lucas Perozzi
É uma aparente contradição. Num país em guerra haver assim quem possa estar feliz, ter alegria. A explicação, diz o padre, é que “têm a paz dentro deles”. Esse é o lado positivo de toda esta história, de toda esta guerra que já entrou no quinto ano e não parece ter fim.
E por ali, até há jovens que sonham com o sacerdócio. “Há um jovenzinho que está a descobrir a vocação”, explica o padre Lucas Perozzi. “Deus age na vida de todas estas pessoas”, garante o sacerdote brasileiro cuja missão em concreto tem sido apoiada desde há vários anos pela Fundação AIS e que nunca se esquece de pedir a todos que rezem por ele, que “rezem pela Ucrânia e que rezem pelo fim da guerra…”
Dia 24, uma data que não vai ser celebrada
Uma guerra que começou no dia 24 de 2022. Morreram já milhares de pessoas, mas o número das vítimas reais será astronómico, pois há os feridos, os que ficaram psicologicamente afectados, os que perderam tudo o que tinham, os que abandonaram o país, os que ainda estão como refugiados ou deslocados algures fora da região onde sempre viveram. A partir de hoje esta guerra entra no quinto ano.
Para os ucranianos esta data tem alguma importância? “O que se fala muito, até entre os católicos”, explica o Padre Lucas Perozzi, numa breve resposta a esta pergunta, “é de haver uma paz justa”. “Ou seja, o regresso dos territórios tomados. Todos sabemos que isso já é impossível, mas mesmo assim as pessoas não querem acreditar em outra coisa…”
Quanto ao dia em si, o Padre Lucas acredita que tirando alguma reportagem na televisão ou a iniciativa de alguma organização, não se vai falar do dia 24. Pelo menos de forma generalizada. “Viveremos o dia 24 como outro dia apenas”, conclui o sacerdote.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt










