A República Democrática do Congo (RDC) enfrenta um novo surto de Ébola num contexto particularmente difícil na região leste do país, onde os conflitos armados e a presença de grupos rebeldes limitam as possibilidades do Governo e da Igreja na resposta à doença. Os últimos dados apontam para mais de 4.300 mortos. As deslocações forçadas de pessoas provocadas pela violência na região dificultam os esforços para conter os contágios. Já em Maio, um missionário português alertava para esta situação.
O número de mortos devido ao vírus do Ébola na República Democrática do Congo alcançou os 4.381, num total de mais de 9 mil casos, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde congolês na passada segunda-feira, dia 12 de Outubro. As regiões de Ituri (no leste), Tshopo (centro-norte), Bas-Uélé (norte), Haut-Uélé (nordeste), Kivu Norte (leste), Kivu Sul (leste) e Ubangi do Sul (noroeste), são as mais afectadas até ao momento.
Na sua visita à sede internacional da Fundação AIS, na Alemanha, o Padre Olivier Ndondo, superior provincial dos religiosos do Santíssimo Sacramento na RDC e no Uganda, explicou que embora as autoridades tenham agido rapidamente para diagnosticar os casos e conter os contágios, procurando assim evitar uma maior propagação da doença, o problema revela-se especialmente grave no leste do país, onde o conflito armado dificulta o acesso às zonas afectadas. “É muito difícil entrar lá devido à guerra”, explica o sacerdote, salientando que o Governo tem dificuldades em chegar a determinadas áreas e prestar cuidados de saúde.
À dificuldade de controlar a doença junta-se a deslocação forçada da população, provocada pela violência, para outras regiões, o que aumenta as possibilidades de propagação do vírus. Tanto no leste como no nordeste, na fronteira com o Uganda, isto constitui um enorme desafio devido ao movimento constante de pessoas. Segundo o Padre Ndondo, a situação do outro lado da fronteira parece estar mais controlada, porque as autoridades podem agir com maior facilidade. No entanto, os deslocamentos entre ambas as zonas fazem com que o controlo da doença continue a ser difícil. “Por um lado, têm de lidar com o conflito, mas, além disso, há a questão da doença”, resume o sacerdote.
A resposta da Igreja
No meio da crise, a Igreja desempenha um papel especialmente relevante e procura responder com os meios de que dispõe: acolhendo os deslocados, prestando ajuda de emergência, sensibilizando para o Ébola e apelando à solidariedade para com as comunidades que vivem na região leste.
Por seu lado, a Conferência Episcopal da RDC divulgou um comunicado para sensibilizar para o vírus e apelar à responsabilidade e ao respeito pelas medidas de higiene e sanitárias, a fim de evitar novos contágios. “A Igreja no Leste enfrenta as duas situações de emergência, a guerra e a epidemia, com o que tem e com o que pode”, explica o sacerdote. Entre as dificuldades para conter a doença encontram-se também certos costumes locais relacionados com os falecidos, que podem implicar o contacto físico com os mortos e complicar as medidas de prevenção.
Desenvolvimento e paz
“A paz e a saúde” estão intimamente relacionadas, sublinha o Padre Ndondo. “Sem paz, é mais difícil proteger a saúde, e sem saúde torna-se ainda mais difícil reconstruir a esperança de uma população marcada por décadas de violência”, sublinha o sacerdote.
A violência tem também um forte impacto psicológico e social. Sem paz, explica, as pessoas não conseguem trabalhar, enviar os seus filhos para a escola ou manter condições de saúde adequadas. “Com a guerra, perdemos a esperança”, afirma o padre, salientando que há pessoas que passaram praticamente toda a sua vida num contexto de conflito: “Há pessoas que nasceram há 30 anos e só conheceram a guerra”.
A situação tem consequências para toda a população congolesa. A partir de Kinshasa, a capital, percebe-se o custo da guerra, tanto pelo esforço económico que exige ao Governo como pelas consequências humanas da violência: mortes, sequestros, fome e deslocações.
Alerta de missionário português
Já em Maio, o Padre Marcelo Oliveira, um missionário comboniano português a viver há vários anos na República Democrática do Congo, alertava para o enorme risco potencial deste surto epidémico para as populações que vivem nesta região que há muito enfrenta violência armada.
Infelizmente, trata-se de um vírus que ataca populações pobres, num contexto de guerra contínua, e onde continuam a existir pessoas maltratadas e perseguidas. Agora falamos de Ituri; noutras ocasiões falamos de Kivu do Norte e Kivu do Sul, províncias vizinhas onde a realidade é praticamente a mesma, e onde as populações continuam a fugir das milícias que persistem em devastar vidas humanas.”
Padre Marcelo Oliveira
A RDC é um país prioritário para a AIS, que em 2025 financiou 258 projetos em todo o país, principalmente no domínio da construção/renovação de edifícios religiosos, da formação de seminaristas e da formação contínua de padres e freiras. Muitos padres foram apoiados pelas ofertas missionárias. A Fundação AIS desempenha um papel fundamental no reforço da presença da Igreja em áreas negligenciadas e abandonadas pelo governo.
Paulo Aido, Daniel Castilla e Eugenia Urgellés
Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt




