NIGÉRIA: Seminaristas raptados recordam o tempo de cativeiro como “as noites mais longas” das suas vidas

NIGÉRIA: Seminaristas raptados recordam o tempo de cativeiro como “as noites mais longas” das suas vidas

Não é fácil olhar para trás, para os dias de cativeiro, mas foi isso mesmo que Kanwai Pius Tabat e Stephen Amos fizeram no início de Março, durante uma conferência ‘on-line’ organizada pela Fundação AIS Internacional. Raptados em Janeiro de 2020, foram espancados pelos raptores, pastores fulani, que procuravam assim forçar as famílias a pagarem os resgates em troca das suas vidas. Eram quatro seminaristas. Um deles foi assassinado. Agora, quando recordam o que lhes aconteceu, estes jovens não têm dúvidas em dizer que aquelas foram “as noites mais longas” das suas vidas…

As palavras de Kanwai Pius Tabat e de Stephen Amos, numa conferência ‘on-line’ promovida no início de Março pela Fundação AIS Internacional, são importantes para se perceber a situação de enorme vulnerabilidade em que se encontram os cristãos em diversas regiões da Nigéria, e a importância da campanha “SOS Cristãos da Nigéria”, que a Ajuda à Igreja que Sofre está a promover em Portugal e a nível global nesta Quaresma. O testemunho destes dois seminaristas ajuda a compreender que os fulani, pastores nómadas muçulmanos, estão cada vez mais radicalizados e têm vindo a transformar-se, a par do grupo terrorista Boko Haram, numa das maiores ameaças à comunidade cristã. Pius Tabat, Stephen Amos – que participaram na conferência –, assim como Michael Nnadi e Peter Umenukor, estavam no Seminário Maior do Bom Pastor, no estado de Kaduna, na Nigéria, a 8 de Janeiro de 2020. Tinham acabado de adormecer há uns dez, quinze minutos, quando escutaram tiros, quando escutaram um grande estrondo. O seminário estava a ser atacado. Abriram a porta da camarata e um homem estava de arma apontada para eles. Era o começo do sequestro.

O ATAQUE AO SEMINÁRIO
“Caminhámos durante três ou quatro horas, sem saber para onde íamos. A certa altura, obrigaram-nos a andar de mota e uma hora depois chegámos ao nosso destino nas primeiras horas da manhã”, recordam. O destino era uma tenda onde estavam já outras pessoas. Ao todo eram 12 “pessoas amontoadas na tenda, em Janeiro, ao frio”. O tormento estava a começar. “Chamaram-nos para telefonar aos nossos pais a contar-lhes do nosso rapto e, entretanto, bateram-nos. Chorámos sob a tensão enquanto os nossos pais nos ouviam ao telefone, e continuámos a fazê-lo durante cerca de duas semanas. Sempre que fazíamos uma chamada telefónica éramos espancados.” O relato prossegue, permitindo imaginar o pânico em que se encontravam estes jovens que não sabiam de todo o que lhes iria acontecer. “Durante a maior parte do dia, ficávamos de olhos vendados debaixo de uma árvore. Não nos podíamos deitar e doíam-nos as costas, mas não tínhamos escolha. Entretanto, continuavam a bater-nos na cabeça, nas costas ou em qualquer outra parte do corpo, todos os dias, sem piedade. Estávamos sentados e, de um momento para o outro, sentíamos uma pancada com um pau na parte de trás da cabeça.” O testemunho de Pius Tabat e de Stephen Amos é importante pois ajuda a conhecer melhor a história de martírio de Michael Nnadi, que acabaria por ser assassinado pelos raptores, mas também porque permite perceber que os pastores fulani são, de facto, uma das maiores ameaças às comunidades cristãs na Nigéria.

“A FÉ CATÓLICA ERA O ALVO…”
“Os nossos raptores eram pastores fulani, falavam a língua fulani. Não sabemos qual era o seu motivo, mas as pessoas que encontrámos em cativeiro eram quase todas cristãs, pelo que seria seguro dizer que se tratava principalmente de um ataque à nossa fé cristã. Na nossa região, os locais de culto ou líderes muçulmanos nunca são atacados, pelo que parece que a nossa fé católica era o alvo”, explicaram. Ao longo de mais de uma hora de testemunho, os dois seminaristas foram narrando como foi o tempo de cativeiro, todo marcado por uma enorme tensão, violência e desprezo. A começar na parca alimentação que lhes era dada. “Alimentavam-nos com arroz e óleo, que comíamos a partir de um recipiente muito sujo. Era o mesmo que eles usavam para transportar combustível para as suas motos e o mesmo que nós usávamos para beber água do riacho; podíamos ver e cheirar o óleo, mas não tínhamos escolha. Por vezes, comíamos uma vez por dia, raramente duas vezes por dia, e nunca mudávamos de roupa. Um dos nossos irmãos ficou muito doente e estava à beira da morte. Levaram-no e deixaram-no à beira da estrada, dizendo a alguém que viesse buscá-lo. Felizmente, ele sobreviveu.”

MORTO POR ENSINAR O PAI NOSSO
O rapto destes quatro seminaristas ficaria para sempre marcado pelo assassinato de um deles, Michael Nnadi. Foi morto por ter ensinado um dos raptores a rezar o Pai Nosso. “Naqueles dias, um dos raptores começou a fazer perguntas e o Michael tentou explicar-lhe a nossa fé cristã. A certa altura, pediu-lhe que lhe ensinasse o Pai Nosso e o Michael ensinou-lho. Talvez os outros tenham ouvido falar dele ou o próprio raptor lhes tenha dito, mas uma vez – estávamos ali sentados de olhos vendados – eles vieram à procura do Michael. Pensávamos que o iam libertar, que eram boas notícias, não sabíamos que iam matá-lo naquele dia.” Souberam da terrível notícia horas depois. E disseram-lhes que seria também isso que lhes aconteceria, caso as famílias se recusassem a pagar o resgate. “Foi uma das noites mais longas da nossa vida. De manhã, ligaram-nos e deram-nos os nossos telemóveis para que pudéssemos ligar aos nossos pais e despedir-nos antes de sermos mortos. Fizemo-lo e depois voltámos à nossa tenda, colocando as nossas vidas nas mãos de Deus. No entanto, não fomos mortos nesse dia.” A libertação acabaria por chegar três dias mais tarde. Durante algumas horas ainda alimentaram a esperança de que encontrariam Michael com vida, mas depressa perceberam que o amigo e companheiro de seminário tinha mesmo sido assassinado. “Foi como se o seu sangue nos tivesse libertado: ele pagou o preço da nossa liberdade.”

CONTINUAR COM A VOCAÇÃO
Após esta experiência traumatizante, poderia esperar-se que os três jovens sobreviventes ao rapto tivessem receio de continuar no seminário. Afinal, o risco permanece e os cristãos estão sob ameaça permanente na Nigéria. Mas não. Se o objectivo dos raptores era também intimidá-los, fracassou por completo. “Tudo o que aconteceu encorajou-nos. O facto de Deus nos ter salvo significa que Ele tem muitos planos para nós e que há coisas à nossa espera neste caminho que escolhemos, o que nos encoraja a continuar com a nossa vocação.” A comunidade cristã da Nigéria que viu crescer Michael Nnadi, que o viu empenhar-se nos estudos, que o conheceu feliz como seminarista, não quer esquecer o seu exemplo. Com a ajuda da Fundação AIS, está a ser erguido em Kaduna um Memorial aos Mártires para manter viva a memória não só de Michael mas de todos os que, nestes dias de turbulência que se vivem na Nigéria, são vítimas da violência e do terrorismo, são perseguidos e dão, a todos nós, um extraordinário exemplo de coragem e de fé.

PA | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

Relatório da Liberdade Religiosa

A liberdade religiosa na Nigéria está gravemente ameaçada. As vítimas são predominantemente cristãs, mas também muçulmanas e de religiões tradicionais, líderes religiosos e fiéis que sofrem às mãos dos terroristas, grupos armados jihadistas e criminosos nacionais e transnacionais.

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