D. Inácio Saure acusa os terroristas, que atacaram na passada quinta-feira, dia 30, a missão católica de São Luís Maria de Monfort, na Diocese de Pemba, de terem não só causado “a destruição bárbara” da Igreja e das infraestruturas que estavam ao serviço da comunidade, reduzindo tudo a escombros, como de terem voltado a difundir, de forma clara, “mensagens de ódio contra os cristãos”.
Em declarações à Fundação AIS, o presidente da Conferência Episcopal diz que a actuação dos terroristas contraria a tradição de convivência pacífica entre pessoas de diferentes religiões em Moçambique.
Foi “com profunda dor” que o Arcebispo de Nampula e presidente da Conferência Episcopal de Moçambique soube do ataque terrorista na passada quinta-feira, dia 30 de Abril, à missão católica de São Luis de Monfort de Minhoene, na Diocese de Pemba.
Numa mensagem enviada à Fundação AIS em Lisboa, D. Inácio Saure sublinha que tanto a igreja como tudo o que estava na missão, criada em 1946 pelos padres monfortinos da Holanda, foi “reduzido a escombros”. Os terroristas, explica o prelado, “queimaram a igreja paroquial, a secretaria e a residência dos missionários, e vandalizaram a escola infantil”, que em Moçambique é chamada de escolinha.
Como se esta bárbara destruição de infraestruturas ao serviço religioso e social da comunidade não bastasse, os atacantes voltaram a difundir, clara e fortemente, mensagens de ódio contra os cristãos. Isto contraria completamente a nossa cultura de convivência pacífica entre pessoas de diferentes crenças religiosas em Moçambique, o nosso saber ser, o nosso saber fazer e o nosso saber viver em paz.”
D. Inácio Saure
“Ao tomar posição face a mais este condenável acontecimento, como moçambicano, como cristão e presidente da Conferência Episcopal de Moçambique, quero manifestar o meu mais veemente repúdio pela violência contra os cristãos e o meu mais vigoroso apelo ao respeito mútuo e ao amor entre aqueles que se reclamam filhos de Deus e, no nosso caso em particular, entre crentes das religiões abraâmicas, como o cristianismo e o islão, pois o Deus de Abraão, o Deus de Maomé e o Deus de Jesus Cristo não é um Deus do ódio e do crime, mas um Deus do amor”, afirma ainda o Arcebispo de Nampula. “Cesse a destruição e a morte. Cesse a incitação à cristianofobia e que nunca surja a islamofobia, porque os muçulmanos não são nossos inimigos; são nossos irmãos muito amados”, diz ainda.
A concluir a mensagem de voz enviada para a AIS em Lisboa, o prelado afirma que continua a acreditar que todos os homens, crentes ou não, podem e devem “conviver em harmonia e paz”.
Comunidade “em choque”, diz D. Juliasse
Esta mensagem vem reforçar as palavras, horas depois do ataque terrorista, de D. António Juliasse também à Fundação AIS. O Bispo de Pemba descreveu um “cenário de terror”, com casas e infraestruturas destruídas e com a paróquia histórica “reduzida a escombros”.
O Bispo explicou que, por sorte, os missionários responsáveis pela paróquia, e oriundos dos Camarões, não estavam no local. No entanto, apesar de os missionários estarem a salvo, “a comunidade permanece em choque”, mesmo depois de os terroristas terem abandonado a aldeia ao cair da noite de quinta-feira, dia 30 de Abril.
Na curta mensagem enviada para Lisboa, o Bispo de Pemba fez também um apelo ao mundo para que a situação que se vive na província de Cabo Delgado e no norte de Moçambique não seja esquecida. “Pedimos atenção e solidariedade para com as vítimas de Meza. Já vamos perto de 9 anos que queimam capelas e igrejas na Diocese de Pemba. Mas, a Fé deste povo de Deus nunca será queimada, ela reconstrói-se diariamente!”, diz, a concluir, D. Juliasse.
“Mais de 300 católicos mortos, a maioria por decapitação”
O ataque e destruição da Paróquia de São Luís de Monfort é apenas o mais recente episódio de violência directa contra a Igreja Católica por estes terroristas que reclamam pertencer ao Estado Islâmico de Moçambique.
Em Dezembro passado, quando o Cardeal Pietro Parolin esteve na Diocese de Pemba, em representação do Papa Leão XIV, D. António Juliasse fez um balanço do que tinha sido, até então, a violência jihadista no território, tendo referido que desde o início dos ataques – o primeiro foi em Outubro de 2017, em Mocímboa da Praia – “mais de 300 católicos foram mortos, a maioria por decapitação”, e já foram destruídas 117 igrejas e capelas, das quais, 23 apenas durante o ano de 2025. Neste momento, com o ataque à paróquia de São Luis de Monfort, esse número está já desactualizado.
Durante a visita a Moçambique, que decorreu entre os dias 5 a 10 de Dezembro, o Cardeal Pietro Parolin fez questão de deslocar-se a Cabo Delgado, tendo escutado de viva-voz testemunhos de pessoas que sofreram na pele o terror dos homens armados que já causaram um total de mais de 6300 mortos e mais de 1 milhão de deslocados.
Moçambique é um país prioritário para a Fundação AIS, que tem apoiado a Igreja local a vários níveis, não só com ajuda humanitária, mas também promovendo, por exemplo, apoio psicossocial às vítimas dos terroristas, e ainda a reconstrução de infraestruturas.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt







